2008/04/07

Cat Power

As Canções dos Outros

Chan Marshall é uma senhora com voz de menina. É dona de voz que transpira, aquela suave rouquidão carrega toda a imagem de mulher sofredora, paciente, mas que ao mesmo tempo é apaixonada e se esforça para arrebatar os corações mais duros.
Num passado relativamente recente (The Cover Records (2000) – Matador) Cat Power, já tinha optado por gravar um disco de versões, desta vez volta à carga e repete a graça, o resultado é Jukebox (2008) - Matador. Se no primeiro caso quase todo o disco se desenrola, numa vertente pop-folk, com este segundo cover-album a intenção é descrever caminhos mais tortuosos, mais dolorosos, para isso recorre ao soul, ao gospel e ao rock introspectivo.
Cat Power criou em nós o hábito, de a escutarmos como uma pequena songwriter. De guitarra em riste, trauteia canções melancólicas, inundadas de sentimento, onde pouco espaço há para a alegria espontânea.
Com Jukebox essa imagem intensifica-se, descobre-se uma senhora dona do seu nariz, sabe o que faz e gosta de o fazer bem. O disco inicia-se que a versão “New York, New York” de Ebb e Kander, imortalizada por Frank Sinatra, a que Cat Power constrói a imagem de cabaret de 2ª, apinhado de lugares vazios. Ramblin’ (Wo)man é blues em modo sadcore. Existem dois temas no disco, Metal Heart e Song For Bobby (escritos pela própria) que mais são que duas piscadelas de olho, a quem só agora se cruzou com a obra de Cat Power. Lost Someone é uma pérola, aliás foi com este tema que despertei para este disco, fica o link Lost Someone (Live At Later..), palavras para quê… A versão de Joni Mitchell é a calmaria total, com Blue a suavidade vocal casa na perfeição com o som do teclado, entrando por um mundo de sombras e amenas carícias.
Sem ser um soberbo disco, Cat Power consegue alcançar e assinar o livro de presenças de 2008, editando uma obra de agradável sedução. Jukebox é encantador e cativante.

Momento Mágico: Blue


Cat PowerJukebox (2008) - Matador

2008/04/01

Goldfrapp

Ainda Não Foi Desta

Um dia houve uma menina gira, que formou uma banda gira e com uma forma estranhamente subtil cantou, tocou e produziu uma pequena obra-prima, foi logo adorada pelos fãs e todos os críticos se prostraram a seus pés. Esta história que se poderia contar, quase toda no feminino tem um estranho equilíbrio masculino, que faz bascular todo o sistema de uma forma ordenada. O elemento masculino responde pelo nome de Will Gregory, e a menina gira é Alison Goldfrapp, a obra-prima essa chama-se Felt Mountain. Ora como em todas as histórias de encantar, o ideal é que vivam felizes para sempre e tenham uma enorme prol e em relação a isso até nem nos podemos queixar, senão vejamos: Black Cherry (2003), Supernature (2006) e por fim Seventh Tree (2008).
Acontece que como em todos os contos, aguardamos sempre por um final eternamente feliz ou pelo menos que o episódio seguinte mantenha o mesmo nível de interesse, de forma a queremos sempre mais. Ora com os Goldfrapp isso não tem acontecido, tem sido uma carreira de experiencias, se descuramos o primeiro disco, os Goldfrapp tem passeado pela pop corriqueira, pelo electro de contornos manhosos, chegando mesmo a criar temas de dança em formato “feira popular”.
Para os amantes de Felt Mountain, cada vez que sabe que vão gravar novo disco, lá se levanta o entusiasmo, lá volta a esperança, lá surge um enigmático sorriso, só que de ano para ano todos estes sentimentos estão a ficar mais ténues, estão a tornar-se completamente desbotados.
Com Seventh Tree voltou a acontecer o mesmo, expectativas elevadas, esperança, o dizer mais uma vez “agora é que é”. E desta vez quase que me enganaram, aos primeiros acordes de “Clowns” fiquei com a sensação que agora sim voltaram acertar, só que é mesmo só isto, de seguida voltam ao formato insosso e sem sabor “Little Bird”, “Hapiness” é o tema orelhudo do disco, “Road To Somewhere” é pop sonolenta a caminho do vazio, “Eat Yourself” e “Some People” são quase iguais e não fazem falta e assim sucessivamente até ao ultimo tema.
Seventh Tree é o (meu) o corte final, é muito provável que não haja próxima vez para Goldfrapp. Ah… a menina gira do início da história continua cada vez mais gira….
Vá lá, ainda se safa alguma coisa.

Momento Mágico: Clowns


Goldfrapp
Seventh Tree (2008) - Mute

2008/03/24

Portishead

Terceiro

Na semana em que passam por Portugal (26 Março – Coliseu do Porto / 27 Março – Coliseu dos Recreios) são já enumeras (rádio/net/myspace) as formas de contacto com os primeiros odores daquele que é provavelmente um dos discos mais aguardados dos últimos anos. Senhores e Senhoras o Third de Portishead.
A mítica banda de Bristol está de volta aos escaparates, 11 anos após o álbum homónimo e 14 anos após a obra-prima Dummy. O primeiro medo a vencer, foi tentar quebrar o longo espaço temporal que existe entre o disco de 1997 e este novo trabalho. 11 Anos é muito tempo, e se muitas vezes o tempo pode ser um bom conselheiro fazendo com que tudo seja visto e revisto até à exaustão, o mais normal é acontecer precisamente o contrário. No caso em questão a passagem dos dias, meses e anos, foi bastante benéfica.
Os Portishead regressam cheios de boa vontade e com uma força inimaginável, a voz de Beth Gibbons continua maravilhosamente bela, é intenso o seu brilho, carrega toneladas de nostalgia, padece de um constante desespero, há algo na sua voz que me atraí de uma forma irresistivel, é um permanente convite a clonagem, um eterno canto que diz: “funde-te em mim”.
Third é um disco brilhante, perfeitamente produzido e composto de forma imaculada, nada falha, tudo está no sítio certo, existe a exactidão de um relógio suíço, cada nota, cada verso, cada loop, cada canto…
Sério candidato a disco mais perfeito do ano.

Momento Mágico: Magic Doors


Portishead
Third (2008) – Mercury/Island

2008/03/17

The Kills

Disco-Rock

VV é americana, Hotel é inglês conheceram-se algures num concerto e desde daí “apaixonaram-se” e desse amor nasceram 3 descendentes, a saber: Keep On You Mean Side (2003); No Wow (2005) e o herdeiro mais novo Midnight Boom. A banda de Alison Mosshart e Jamie Hince, os The Kills sempre nos habituaram ao garage-rock de contornos negros, onde o punk é visitado com simpatia e cortesia. Neste novo trabalho a todo este cocktail som, vai acrescentar-se uma nova vertente musical o electro.
Com a mistura de um novo ingrediente, a musica dos The Kills ganha uma nova vida, uma nova estética e passa a ser altamente contagiante. Com esta nova faceta, com esta vertente electro os The Kills ganham um corpo altamente sexy (para qual a imagem de VV contribui bastante) e passam a carregar a imagem de um bela modelo de disponível a quase tudo.
Midnight Boom é Electro-Punk-Rock, está carregado de uma dinâmica própria, tanto pode ser uma quase paranóia cénica-vocal “U.R.A. Fever” com laivos de Trent Reznor, como logo de seguida pode uma intensa canção em desespero em “Tape Song”, com “Last Day Of Magic” reconhecemos uma PJ Harvey em inicio de carreira ou então caminharem pelos mesmos trilhos de uns The White Stripes em “M.E.X.I.C.O.C.U”.
A única coisa apontar a este novo trabalho, é permanente sensação de serviço incompleto, parece que fica sempre algo por contar, o que neste caso funciona na perfeição para captar a nossa atenção, existe um contínuo chamamento, um falso álibi, não sei se foi propositado, mas funcionou com grande requinte.

Momento Mágico: Getting Down


The Kills
Midnight Boom (2008) - Domino

2008/03/10

El Perro del Mar

Volátil

A áurea que cobre a cabeça de Sarah Assbring aka El Perro del Mar, é feita de pop sublime de uma fineza impressionante, como se fosse feita de nobre cetim. El Perro del Mar chega-nos das regiões frias da Suécia e com ela chega também aquela subtil forma de criar pop de alto valor calórico. Ao 3º disco El Perro del Mar, começa a marcar um estilo, um costume, é dona de várias características perfeitamente reconhecíveis, a forma como sussurra, o constante desespero que impõe aos seus temas, aquela tentativa de tentar transformar num organismo vivo as notas musicais.
From The Valley To The Stars, é um exercício de pormenores, a pop de contornos urbanos em “How Did We Forget”, a duplicação vocal em “Inner Island”, o convite à oração em “Happiness Won Me Over”. São 16 pedras preciosas, umas ainda em estado bruto, outras já lapidadas de primorosa.
Há uma religiosidade permanente em From The Valley To The Stars, que dá às paisagens gélidas um universo de convento ao ar livre, onde se pode passear sem ter de cumprir rituais, apenas o simples e singelo prazer de ver as nuvens a formar formas.

Momento Mágico: Do Not Dispair

El Perro Del Mar - From The Valley To The Stars (2008) - The Control Group

2008/03/04

Jonquil

Melodiosos

Os ambientes soturnos e sombrios, onde vivem criaturas alienadas e por onde vagueiam almas penadas e sem rosto, é local de procriação dos Jonquil. Estar a enumerar as influências, desta banda de Oxford (UK) seria uma autentica cruzada, visto os Jonquil soarem a milhentas coisas diferentes. De qualquer forma, tentar descobrir um fio condutor nesta imensidão de formulas e receitas, o resultado tenderia a ser o pop-folk.
Existe sentimentos a rodos nos dedilhados das guitarras, há uma norma romântica em cada nota que se solta do acordeão, as vozes hipnóticas que ecoam a cada estrofe dão alento e transmitem um ébrio calor, que soam perfeitas para os dias de primavera que se avizinham.
Lions é a tomada de consciência dos Jonquil, uma banda nova como muitas outras, mas com um nível de qualidade fora do comum, seriam imensos os exemplos, mas temas como “Sudden Sun” repleto de uma alegria transbordante, onde o cheiro a primavera explode de uma forma subtil; “Lions”surge como um hino quase épico, anunciado a boa nova (seja lá ela qual for); “Subtle Strains” é uma linda melodia, pautada por um lento crescendo.
Apesar de Lions ter passado um pouco despercebido, os Jonquil são uma banda com um enorme futuro, é esperar para ver.

Momento Mágico: Whistle Low


Jonquil Lions (2007) – Try Harder

2008/02/28

The Bird and The Bee

Dias de Verão

The Bird and The Bee é um grupo formado em 2006, no sul da Califórnia, pela cantora Inara George e pelo multi instrumentista Greg Kurstin, unidos no gosto comum pelo jazz e pelo tropicalismo começaram a trabalhar em 2006, ano em que publicam o seu EP de estreia Again and Again and Again and Again, que abriu caminho à edição em 2007 do disco de estreia The Bird and The Bee.
É um disco inspirado, ao qual já se seguiram dois EP’s, igualmente encorajadores, Please Clap Your Hands (2007) e One Too Many Hearts (2008) representativos da prolífera criatividade desta dupla.
Não posso deixar de transcrever a frase publicada pelo grupo na sua página do MySpace a respeito da forma como descrevem o seu som “A futuristic 1960's American film set in Brazil...”, com efeito a bossa nova, o jazz e a pop são os denominadores comuns ao longo dos dez temas, uma mistura inesperada que origina um disco repleto de melodias doces, dotado de múltiplas camadas sonoras, onde as vocalizações sincopadas de Inara George e a atmosfera opulenta anunciam a chegada do Verão.
Como é que eu descrevo este disco? The Bird and The Bee é um dia de Verão, em que o sol nos leva até à praia, é um mergulho numa onda refrescante, é sentir as gotas de água a escorrer no corpo, é uma brisa que alivia o calor escaldante, é a languidez de um pôr do sol estival.
Ficaram curiosos? Descubram este disco...

Momento Mágico
: I’m a Broken Heart


The Bird And The Bee - The Bird And The Bee (2007) -
Blue Note Records

2008/02/23

Maps

Renascer

O shoegaze volta e meia faz das suas e vai renascendo aqui e ali, de uma forma espontânea e natural, há um passado que não interessa esquecer e há ainda imensa gente a explorar as manias e manhas deste pop quase espacial. Os 90’s estão aqui a cada acorde, as guitarras em constante choro, as vozes sussurrantes, a bateria perfeitamente compassada, o uso das teclas como acompanhamento coral. O projecto etéreo de James Chapman, não esconde as suas influências e é com enorme facilidade que surgem no horizonte nomes como Spiritualized, My Bloody Valentine, Ride, The Stone Roses ou M83.
We Can Create consegue de uma forma simples, mostrar que é possível recriar sons passados, sem entrar em saudosismos idiotas, mesmo que para tal tenha de usar as mesmas regras e as mesmas fórmulas, porque no fim a única coisa que interessa é mesmo só a música.
Com Maps não precisamos de GPS, não estamos perdidos, apenas fazemos uma curta incursão nos anos 90, não há que ter vergonha do quanto o shoegaze soava bem, é verdade que os anos passam e tudo vai mudando, mas também é verdade que recordar é viver (onde é que eu já ouvi isto?)

Momento Mágico: It Will Find You


MapsWe Can Create (2007) - Mute

2008/02/17

Sean Riley & The Slowriders

Mississipi Lusitano

Coimbra tem sido terreno fértil a nível musical, nomes como Tédio Boys, Belle Chase Hotel, Wray Gunn, The Legendary Tigerman, Bunnyranch, etc, têm cimentado a importância desta cidade no panorama musical nacional. O último colectivo ao sair da penumbra coimbrã, disposto a procurar um lugar ao sol é Sean Riley & The Slowriders.
Farewell, o disco de estreia deste trio formado por Afonso Rodrigues, Bruno Simões e Filipe Costa, é uma amálgama de “folk/rock/blues” de altíssima qualidade, assente no talento de Afonso Rodrigues como compositor e no belíssimo trabalho de Filipe Costa (ex-Bunnyranch) nos teclados.
Com fortes raízes na música norte americana, Farewell tem muitos momentos altos e transborda maturidade e sinceridade por todos os poros. Canções como “Let The Good Times Roll”, “Moving On”, “Motorcycle Song”, “Lights Out”, “New Year’s Eve”, “Twenty Six Years” ou “Spider’s Blues” cativam à primeira audição e são belos exemplos da vitalidade desta banda.
Se o rio Mississipi tem cativado tantos artistas ao longo dos anos (de Johnny Cash a Led Zeppelin, passando por Randy Newman, Jeff Buckley e pelo tema intemporal Moon River da banda sonora do filme Breakfast at Tiffany’s), o rio Mondego começa a provocar o mesmo efeito em muitos músicos.
Uma estreia auspiciosa de um grupo a seguir com atenção.

Momento Mágico: Harry Rivers


Sean Riley & The Slowriders - Farewell (2007) - Norte Sul

2008/02/12

Sebastien Tellier

Sensualidade

O Sr. Sebastien Tellier é francês e amigo pessoal de Jean-Benoit Dunkel e de Nicolas Godin ou seja dos Air, com quem já andou em digressão, tendo inclusive feito a primeira parte de um concerto, que estes últimos em tempo deram em Lisboa. Para produzir este seu 4º trabalho, Tellier chamou um nome de peso da cena electro-dance francesa e mundial, Guy-Manuel de Homem-Christo (Daft Punk), o resultado é um disco que cruza imensas influências, desde da electrónica mais ambiental, ao electro-fuck ou até mesmo um pozinho da nova chanson francaise.
Para quem já conhece os excelentes anteriores trabalhos (L' Incroyable Verite – 2001 / Politics 2004 / Universe – 2006), já há muito notou que o principal tema abordado são as paixões mundanas e romântica perversão sexual francesa.
Tellier não encarna completamente o papel de crooner, no entanto consegue dar asas à sua condição de sonhador romântico e com isso consegue interpretar temas de uma forma intensa e concisa e isso é conseguido através de uma suave mutação, onde a electrónica de cariz inofensivo vai sendo moldada, em formato canção, ganhando ao longo dessa transformação corpo, consistência e contexto.
Sexuality é o que o próprio nome indica, um disco fortemente sensual, povoado de ninfas semi-nuas e meninas coquetes, é um pouco o renascer do ambiente criado por Gainbourg e Birkin, se bem que isentas de fumo e de camisas de caxemira.
Sexuality é primeira grande surpresa de 2008.

Momento Mágico: L'Amour Et La Violence


Sebastien Tellier
Sexuality (2008) – Lucky Number

2008/02/07

Vic Chesnutt

Folkrock

Vic Chesnutt teve um acidente aos 18 anos de idade e ficou o resto da vida agarrado a uma cadeira de rodas e é pouco depois disso que decide agarrar numa viola e dedicar o seu tempo ao folk. Com uma enorme força de vontade começa a compor musica e escrever canções, lançando o primeiro disco Little em 1990, daí para cá 11 albuns. North Star Desert é o primeiro trabalho pela Constellation e Chesnutt teve a participação de uma autentica parada de estrelas indie, a saber: Thee Silver Mt. Zion Memorial Orchestra & Tra-La-La Band, Guy Picciotto (Fugazi), Howard Bilerman (Arcade Fire), Chad Jones & Nadia Moss (Frankie Sparo), Eric Craven & Genevieve Heistek (Hangedup), Bruce Cawdron (Godspeed You! Black Emperor,Esmerine) e T. Griffin (The Quavers), o resultado só podia ser um disco perfeito.
A voz de Vic Chesnutt é a principal arma deste novo trabalho, é fortemente peculiar, sonoramente calibrada e suficientemente afinada, de forma que tudo resulta num folk-rock intenso e luminoso, onde toda a parte instrumental encaixa como um puzzle.
North Star Desert é uma caixinha de surpresas: pode partir de uma ingénua e desconcertante melodia de dupla voz (Glossolalia); pode recorrer ao humor negro e altamente mordaz da sua escrita (You Are Never Alone); pode ser uma canção de alerta (Splendid); ou até pode ser pura perturbação psicótica, onde poderão nascer guitarras em pleno pranto (Debriefing ou Marathon).
Na musica de Chesnutt tudo é orgânico, natural e simples, não há espaços em branco, nem falta de luz, tudo flui de uma forma inata, como se o folk lhe corresse nas veias.

Momento Mágico: You Are Never Alone


Vic Chesnutt
North Star Desert (2007) - Constellation

2008/02/04

Bodies Of Water

Pop Vocal

A ressaca após Arcade Fire continua a dar resultados, são imensas as bandas que foram beber ao seu registo, para depois criar (uns melhor, outros nem por isso) o seu proprio estilo, apesar de usarem as mesmas cores, souberam pintaram com tonalidades mais ou menos intensas.
Os Bodies Of Water são californianos, o que atribui à banda e à grande maioria dos seus temas uma intensidade caracteristica, se bem que neste caso particular, não se deixem ficar presos a esse factor e partam à procura de paisagens mais frescas, mais naturais, algo fácil de alcançar para quem vive nessas paragens.
As referencias musicais da banda são imensas, para além dos mais do que obvios Arcade Fire, existem mais uns quantos nomes que vivem no mesmo hemisfério dos Bodies Of Water, estou a lembrar-me dos Polyphonic Spree pela sua eloquência ou mesmo uns The Go! Team pela vertente altamente festiva.
Ears Will Pop & Eyes Will Blink o primeiro trabalho, após um EP hómonimo onde já mostravam a sua garra. Abrir este novo disco “Our Friends Appear Like The Dawn” surge como um hino gospel, onde pairam vozes e vários instrumentos de sopro. “These Are The Eyes” é um vicio impressionante, agarra-se às entranhas do cerebro e faz-nos cantar e pular de felicidade como se não houvesse amanhã. Em “It Moves” existe uma pequena piscadela de olhos ao rock de uns White Stripes, terminando o tema numa enorme nostalgia coral. “I Guess I'll Forget The Sound, I Guess, I Guess” é um belíssimo tema, onde a paixão é cantada com todos os plumões. “Here Comes My Hand” é uma pequena guerrilha vocal entre os 4 elementos da banda, provando que a sua principal arma de guerra são as vozes.
Há uma componente gospel em quase todo o projecto, mas não ficaram a agarrados com correntes a essa vertente musical e ao libertarem-se dela conseguiram criar um universo pop verdadeiramente interessante, onde o bem estar e alegria em cantar transpira por todos os poros.

Momento Mágico: These Are The Eyes


Bodies Of WaterEars Will Pop & Eyes Will Blink (2007) - Secretly Canadian

2008/01/31

Yeasayer

Suor

Há uma paisagem nestas notas, é seca, quente e repleta de vastos campos de areia, à primeira vista poderá parecer um deserto, mas não, o que aconteceu foi que a metrópole levantou voo e aterrou algures no Norte de África poeirento. O constante equilíbrio entre o urbano e o tribal dá-lhe um toque de calor, um constante movimento de corpos suados, misturam-se com especiarias e fumos estranhos.
Os Yeasayer são uma banda de Brooklyn, dificilmente poderiam ser mais citadinos, esse habitat irá dar-lhes a criatividade suficiente, para produzirem um som arrojado, mas perfeitamente controlado, a divisão de sonoridades cola-os a uns Animal Collective ou mesmo aos Grizzly Bear, se bem que o resultado é um world-indie-pop.
Usam uma forma enigmática, mas bastante sofisticada de compor cada um dos seus temas, existe uma completa liberdade de criação, não estão a presos a normas ou regras. “Sunrise” é gospel do Grande Atlas; “2080” é pop de uma qualquer tribo centro africana; “Germs” é uma reunião de coros após um dia de trabalho.
All Hours Cymbals é um excelente trabalho de apresentação destes Yeasayer, banda que assume a sua posição dúbia, poderiam ser catalogados como world music, mas mim parece-me mais uma world band.

Momento Mágico: No Need To Worry


Yeasayer All Hour Cymbals (2007) - Now We Are Free

2008/01/28

Vietnam

Revivalismo

Vietnam é um nome estranho para uma banda e se por mero acaso a banda for nova-iorquina, o estranho eleva-se ao cubo, seja como for o importante é a música e é nela que me vou concentrar. Psychadelic rock dos anos 70’s, onde abundam e abusam as guitarras e os riffs, somam-se isto a voz de Joshua Grubb, que se aproxima imensas vezes do timbre de Bob Dylan, o resultado final são uns Black Crowes não tão obscuros.
O revivalismo hippie está presente a cada nota, a forma como tudo é edificado segue os rigorosos padrões de uma época, usam as formas de uns Led Zeppeplin quando querem mostrar trabalho de puro rock e os trejeitos de uns Velvet Underground quando querem demonstrar o seu lado mais arty.
Os Vietnam não tem qualquer intenção de disfarçar a sua veia de puros rockers, não estão preocupados com rótulos ou etiquetas, a música está quase toda inventada, o que por aqui se passa não trás nada de novo, limitam-se a baralhar as cartas e dar um novo jogo, enquanto escorre mais um gole de Bourbon.

Momento Mágico: Welcome To My Room


Vietnam
Vietnam (2007) Kemado

2008/01/25

Le Loup

Pseudo-Folk

A constante presença do som do banjo, poderia dar aos Le Loup uma roupagem exclusivamente country, mas toda a parafernália musical que circula à sua volta transforma som da banda num perfeito indie-folk. Poder-se-á acusar a banda de Washington DC nascida em 2006, de viver um pouco prisioneira do universo criado pelos Grizzly Bear e Arcade Fire, que nos dias que correm é mais uma constatação que uma acusação, mas penso que os Le Loup souberam aproveitar algumas das características de ambas e criarem um universo paralelo, muito mais ao estilo de uns Notwist ou de uns 13 & God.
Ao primeiro álbum The Throne of the Third Heaven of the Nations' Millennium General Assembly, os Le Loup usam folk experimental e electrónica q.b. aproveitando para continuar a extrair desse filão mais umas quantas pepitas de ouro, que depois de trabalhado irá ser transformado em pequenos belos lingotes.
Se há uns anos isto seria weird-folk, agora é quase passível de ser pop corriqueira, o que demonstra que para além da existência de uma linha de conduta que está a ser seguida por um sem numero de bandas das mais diversas correntes artísticas, há também um certo nível de inteligência que hoje marca as novas tendências musicais, não querendo ficar prisioneiras deste ou daquele género musical.
Todo álbum é rico em pequenos pormenores, desde do canto de pássaros “Canto I”, aos sons da mãe natureza “(Storm)”, a constantes jogos de harmonias vocais em “Le Loup (Not Fear)”. Mas o disco não vive só de pormenores, com “Planes Like Vultures”, “Look To The West” e “Outside Of This Car, The End Of The World!”, já há verdadeiras marcas de fogo, provando que os Le Loup são uma banda cerebral, usando com imenso cuidado e cautela tudo o que lhes tem chegado aos ouvidos. Excelente primeiro disco, banda a seguir com atenção.

Momento Mágico: We Are Gods! We Are Wolfes!


Le Loup - The Throne of the Third Heaven of the Nations' Millennium General Assembly (2007) – Hardly Art

2008/01/21

Radiohead

Ás Cores

Ao 9º álbum, os Radiohead regressam ao formato puramente pop/rock, assinando 10 temas inundados de beleza e sentimentos. In Rainbows é a amálgama de uma carreira, que já dura há duas dezenas de anos e ouvindo o disco em loop, fica a ideia que já não há nada a provar, os Radiohead fazem o que bem lhes apetecer. Não há normas, regras ou formatos, é tudo construído com paixão e dedicação minuciosa, existe uma atenção cuidadosa a todos os sons e a todos os ruídos, tudo é importante, tudo conta, tudo ilumina…
A subtileza criativa procura novos esquemas e novos espaços e o que para muitos é um caminho feito a medo, para eles é uma suave passagem, um lugar pacífico e é dessa forma que conseguem transições perfeitas, transposições temáticas e sonoras de uma eficácia atroz.
In Rainbows irá marcar também toda a música e respectiva indústria, a distribuição gratuita (ou remunerada à vontade de cada um) é o ponto de fractura, no futuro haver uma clivagem naquilo que em tempos foi um grande negócio. A partir de agora haverá um antes e um após In Rainbows. Com este passo de magia, os Radiohead deram o golpe final, na já moribunda indústria da música e transformaram uma relação que era altamente promíscua, numa bonita relação a dois (eles e nós).
Afinal fábula é mesmo verdadeira, no fim do arco-íris há um grande e enorme pote de ouro.

Momento Mágico: House Of Cards


RadioheadIn Rainbows (2007)

2008/01/19

The Mars Volta

De Volta

Dêem pulos de alegria aqueles que acham que o De-loused in the Comatorium é o melhor ou até o único álbum que gostam dos Mars Volta.
Os vídeos que eles disponibilizaram na internet faziam antever que o som voltasse às origens. Aquela energia que tanto os caracterizou está bem patente neste registo onde os experimentalismos ficaram de lado, ou são pelo menos mais discretos.
A dupla Cedric e Omar foi sempre muito forte em palco, com muitos malabarismos e sentimento no que estão a tocar, e penso que este álbum tem músicas que vão funcionar muito bem ao vivo.
Os Mars Volta estão de volta.

Momento Mágico: Goliath


The Mars Volta - The Bedlam In Goliath (2008) - Universal

2008/01/16

Ian Brown

Animal Politico

Passados que foram mais de 10 anos sobre o fim dos Stone Roses, a aventura pop continua. Nos finais dos anos 80, Ian Brown e mais uns amigos criam em Manchester a obra prima homonima The Stone Roses. E é com essa obra que se dá a explosão musical, que se veio designar por Madchester, movimento caracterizado pela fusão do indie-rock com a dance-music, onde para além dos já referidos Stone Roses, habitavam ainda os Happy Mondays, 808 State, James, entre muitos outros.
Mais velho e não tão expressivo como no passado, Ian Brown produz obras mais sossegadas, albuns mais reflectidos, o resultado tem sido uma carreira em camara lenta, sem grandes sobressaltos. The World Is Yours carrega tudo isso às costas, é introspectivo, é pensado, continua a manter a veia revolcionária de Brown, que desta forma continua a destilar e a descarregar sobre os mais diversos cenários politicos e sociais do presente.
O novo trabalho abre com “The World Is Yours” uma demostração de carácter e afirmação, orquestrado q.b., bem ao estilo de uns The Verve. Com “Eternal Flame” Ian Brown assina um tema cheio de estilo, compassado e relaxado. Em “The Feeding Of The 5000” Ian Brown leva ao extremo o seu método construtivo, apesar de imensamente simples, constanta-se que existe muito trabalho de laboratório. No dueto de Brown com Sinead O’Connor em “Illegal Attacks” é mostrado toda a sua vertente politica, relatando em forma de musica o problema Israelo-Arabe e respectivas explosões colaterais.
Ian Brown não morreu, está vivo e bem vivo, há que o continuar a escutar com atenção.

Momento Mágico: Illegal Attacks


Ian Brown
– The World Is Your (2007) - Universal/Polydor

2008/01/13

José González

Viagem Lo-Fi

José González saltou para a ribalta graças à inclusão do tema Heartbeats, presente no seu álbum de estreia Veneer, numa campanha comercial de um determinado tipo de televisores. Foi grande o hype gerado à sua volta, rapidamente alguns dos seus temas foram incluídos em séries de televisão (The O.C., Scrubs, One Tree Hill, etc) e todo este processo culminou com o convite feito pela dupla Henry Binns/Sam Hardaker (Zero 7) para que desse o seu contributo musical para o álbum The Garden editado em 2006.
2007 marca o regresso de José González com a edição do disco In Our Nature e para surpresa de muitos, que aguardavam uma alteração drástica no seu som, a prossecução da fórmula iniciada em Veneer. Aprofundando o estilo lo-fi, José González continua a confiar na sua guitarra, num bater de pés ocasional, num suspiro vigoroso (no final do tema In Our Nature) ou em algumas palmas fugazes, para nos transmitir “os aspectos mais primitivos do ser humano” (como o próprio fez questão de afirmar acerca da edição deste disco).
In Our Nature é uma viagem introspectiva, mais negro, explora os recantos mais sombrios da natureza humana com um tom magoado, basta ouvir o primeiro verso do tema de abertura “How Low” (“How low are you willing to go before you reach all your selfish goals?”) para se sentir um arrepio na pele.
“Down The Line”, “In Our Nature”, “Time To Send Someone Away”, “Cycling Trivialities” progridem nesse caminho reflectivo e constituem o núcleo duro deste disco onde o lo-fi, o pop, o rock, a bossa nova e o folk são as ferramentas eleitas por este “artesão” um dos poucos defensores da simplicidade do binómio voz/guitarra num mundo cada vez mais digital.

Momento Mágico: Cycling Trivialities


José González
- In Our Nature (2007) - Peacefrog

2008/01/09

Black Mountain

Renascer

Stephen McBean é um mestre fora do seu tempo, a forma como o domina a estrutura mais crua do rock, a maneira como desenha a sua vertente mais psicadélica, catapulta-o para um patamar onde vivem nomes eternos como os Love, os Velvet Underground, Led Zeppelin ou até uns Spacemen 3. Existe nele uma capacidade intrínseca, para criar temas carregados de sombras e fantasmas, todos eles habitando o lado mais negro da sua alma. Esta referencia exclusiva a McBean, é propositada, sem ele não existiam os Black Mountain, nem Pink Mountainstops, nem Jerk With A Bomb, ele é o corpo e alma destes projectos, não há como nega-lo.
Após o disco de 2005, os Black Mountain delimitaram o seu espaço, dando a actual cultura indie-rock, a possibilidade de poder caminhar por locais que se pensavam estar esgotados ou sem vida. Se no primeiro disco tinha ficado algo por dizer, com In The Future a odisseia continua cheia de vivacidade e energia, se bem que agora se percorrem águas mais calmas.
A abertura de In The Future é feita com “Stormy High” prog-rock em alto galope, “Angels” é uma calmaria generalizada, o mundo onde vivem os anjos. “Tyrants” começa com um intensidade brutal, um riff construído com enorme sabedoria, para à posterior desaguar numa luta de vozes, onde a presença da voz de Amber Webber (Lightning Dust) é a cereja em cima do bolo. “Queens Will Play” tem o formato tradicional de canção, perfeita no forma como cresce e intensa ao morrer. “Brigth Lights” é monumental, é um hino de quase 17 minutos onde vale tudo, onde todas as regras estão presentes, não existem fronteiras, o céu é o limite.
Os Black Mountain abriram o portal dos 70’s, os Black Mountain viajaram na máquina do tempo e produziram um disco enigmático e atmosférico, onde criaturas de pensamentos mais puros não tem lugar e onde renascer é sinónimo de nascer noutro tempo.

Momento Mágico: Tyrants


Black MountainIn The Future (2008) – Jagjaguwar

2007/12/30

2007 em Discos



António Antunes

01 Electrelane – No Shouts No Calls

Quando ser simples é sinónimo de eficácia. Fabuloso disco, maravilhoso concerto.
Tram 21


02 LCD Soundsystem – Sound Of Silver

O rock dança-se e a dança rocka-se…
North American Scum


03 Jens Lekman – Night Falls Over Kortedala

O Sr. Crooner…
Sipping On The Sweet Nectar

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Bruno Coelho

01 CaribouAndorra

Snaith + Pop + Psicadelic + Noise = Fórmula Perfeita.
Um turbilhão que faz a união perfeita entre a pop e o psicadelismo, com melodias que tomam conta do nosso estado de espírito.
Nunca fui a Andorra, não sabia que era tão bela.
After Hours

02 Radiohead - In Rainbows

Ouve-se em loop infinito sem nunca cansar.
Jigsaw Falling Into Place


03 Beirut - The Flying Club Cup

Doce.
Nantes

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Carlos S. Silva

01 Radiohead In Rainbows

Uma vez mais a banda excede as expectativas, um disco grande em todos os sentidos. Verdadeiros camaleões do rock conseguem em In Rainbows um dos alinhamentos mais fortes da sua carreira. Como será pertencer a uma banda que faz de cada edição discográfica um marco histórico?
House Of Cards

02 LCD SoundsystemSound of Silver

Poderoso
Get Innocuous!

03 The ShinsWincing The Night Away


Perfeito
Phantom Limb

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Edgar Domingues

01 Electrelane – No Shouts No Calls

Um disco e um concerto que deixaram as suas marcas.
In Berlin


02 BeirutThe Flying Club Cup

Um balanço de sentimentos agridoces ou uma festa de lágrimas e sorrisos.
A Sunday Smile


03 Map Of Africa Map Of Africa

Ou se ama ou se odeia.

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2007/12/23

Feu Thérèse

Canada-Dry

A invasão canadiana continua, desta feita os responsáveis são os Feu Thérèse. Com o “fim” dos Fly Pan Am, Jonathan Parant (guitarra e voz) parte à procura do seu novo projecto, e acompanhado por Alexandre St-Onge (baixo e electrónica), Stephen De Oliveira (teclados, electrónica, guitarra) e Luc Paradis (bateria), todos construem mais um edifício na chamada Montreal’s Scene. A forte influência das bandas francófonas (Arcade Fire; Sunset Rubdown; Final Fantasy) neste projecto é por mais evidente, se bem que a intensidade electrónica ao criar determinadas ambiencias faz o som dos Feu Thérèse ficar mais etéreo, mais gasoso.
“Nos Amours” é uma clone perfeito de Arcade Fire. Em “Visage Sous Nylon” e “Enfant” a guitarra de Parant produz brutais remessas de sons atmosféricos, um post-rock ambiental de grande elegância. “Bruit du Pollen La Nuit” surge como um cometa dos confins do universo e fica em rotação à volta do nosso cérebro, num constante vai e vem. “Va Cogner” visita uns Kraftwerk de uma forma indelével, entrando no seu jogo musical com direito a coro infantil e tudo. “Nuit Est Une Femme” é uma triste ode cantada a dois, transborda a amor não correspondido.
O pop escuro que nasce nos rituais de Ca Va Cogner sabe a anos 80, a dualidade francês/inglês dá necessária curvatura ao projecto, para se poder assumir como algo que fica no limbo, ali a meio caminho entre o céu e o inferno.

Momento Mágico: Bruit du Pollen La Nuit


Feu ThérèseCa Va Cogner (2007) Constellation

2007/12/19

Liars

Best of só com originais

Cada álbum de Liars é uma completa surpresa, uma peça única. Este não trouxe um novo som, mas um apanhado dos últimos três. Isto explica um bocado o título homónimo, ou seja, ao quarto registo fizeram um ponto de situação, um best of só com originais. Cada música deste álbum podia pertencer aos anteriores ou podiam ter ficado na gaveta para uma edição de b-sides, mas não, foram músicas feitas agora a piscar o olho ao passado.
Isto é Liars.

Momento mágico: Plaster Casts of Everything


Liars - Liars (2007) - Mute

2007/12/16

LCD Soundsystem

Mestre de Cerimónias

James Murphy é um homem do presente, constrói alicerces musicais perfeitamente contemporâneos, demonstrando com isso que o pop/rock, ao contrário do que muitos dizem, ainda está um pouco longe do fim da validade. Dois anos após a enorme surpresa, que foi o álbum de estreia “LCD Soundsystem”, Murphy e a sua equipa (Pope, Mahoney, Wiley e Gold) regressam com “Sound Of Silver”.
Este segundo trabalho era altamente previsível, tinham ficado imensas coisas por encerrar, tinha sido aberta a Caixa de Pandora e contrário do que reza a história, lá de dentro saíram temas fortemente dançáveis, algo que os New Order alguns anos nos tinham ensinado. “Sound Of Silver” é música que se dança, sem ser dance-music, é o regresso ao melhor que os 80’s e 90’s, é a grande prova que o rock ainda se dança, é electro-punk-rock puro e duro.
A constante mutação vocal de Murphy, que umas vezes se aproxima de Bowie e outras de Byrne, ao ser cruzada com toda a sua experiencia musical, vai fazer nascer Get Innocuos! uma pura repetição doentia de sons perdidos, Time To Get Away é alegria no seu estado mais genuíno, uma canção sem defeitos, North American Scum é mordaz. Com All My Friends há romantismo, há amor para todos. Mas é com Sound Of Silver que se resume todo este trabalho, há uma perfeita redundância, melhor que escrever é transcrever: “sound of silver talk to me, makes you want to feel like a teenager, until you remember the feelings of a real live emotional teenager, then you think again”… façamos o mesmo.
Sound Of Silver” é James Murphy no seu melhor, é espontâneo e imediato, não sofre pressão editorial, (aliás o próprio Murphy é o dono da DFA), é um disco livre e de liberdades.

Momento Mágico: North American Scum


LCD Soundsystem
Sound Of Silver (2007) - DFA

2007/12/12

Beirut

Passeio Europeu

Zach Condon, actualmente com apenas 21 anos, estreou-se nas lides musicais em 2006 com um disco irrepreensível. Lembrar-se-ão do furor que “Gulag Orkestar” provocou nas hostes da crítica mundial. Se uma certa aura de genialidade lhe seja já tão precocemente reconhecida, a verdade é que poucos acreditaram que neste ano tal façanha fosse repetida.
No entanto assim sucedeu e vai daí em 9 de Outubro passado foi lançado “The Flying Club Cup”. Neste registo, a viagem deste americano por terras europeias continua. Se no álbum antecessor toda a construção havia sido inspirada por paisagens Balcãs, neste o nosso rapaz navega abaixo e acima por um Sena em princípios do século passado, ainda que buscando grande parte da sua inspiração na obra de Jacques Brel.
Tem muito de “Gulag Orkestar” e não deixa de ser Pop/Folk. Pop de popular e Folk de Folclore, alternativo mas tão alternativo, que outra não nos resta senão ouvi-lo. Nesses instantes uma estranheza arrebata-nos, somos empurrados num balancé de sentimentos agri-doces, onde tudo parece perfeito mas algo não está bem. “The Flying Club Cup” soa a uma carta de amor lida pela primeira vez na boda de casamento, faz sentido e não faz.
É uma festa de lágrimas e de sorrisos, são os metais, as cordas, os sopros, e o órgão. Afinal, agora sim é uma orquestra. Perfeito.

Momento Mágico: A Sunday Smile


Beirut - The Flying Club Cup (2007) - 4AD

OUTRO PENSO por Antonio Antunes

2007/12/09

Burial

Raios!!!
Mas porque raio gosto eu disto???
Porque não sou eu uma pessoa, com gostos musicais limitados?
É que acreditem, era tudo muito mais fácil, ficava para ali no cantinho agarrado aos sons distorcidos de guitarras, ligava-me definitivamente ao rock e desligava de tudo o resto.
Mas não, tenho uma necessidade de complicar tudo.
Raios!!!
Burial já me tinha perturbado com o álbum homónimo de 2006, tendo passado imenso tempo a ouvir todos os contornos sonoros do chamado dub step e a tentar esmiuçar todos os seus sons e ruídos. Havia e há uma melancolia sonora que me lembra os anos 80 e toda a sua zona sombria inerente. Há negritude e queixume, uma permanente falta de luz.
Com Untrue tudo ganha um novo dinamismo, permanece o conceito, mas alguém acendeu a luz. Há um passo em frente, tudo fica mais orgânico, a introdução das vozes soul acrescenta-lhe muito mais que alma, surgindo corpo. A musica de Burial deixou de ficar prisioneira do etéreo e enterrou os pés na terra. Até onde agora havia um voo controlado, um planar sobre os verdes campos, passou haver um caminhar na praia, passou haver liberdade e romantismo.
Raios!!! Burial não é rock, é electrónica no seu estado puro e gosto muito.

Momento Mágico: Ghost Hardware


BurialUntrue (2007) – Hyperdub

2007/12/05

Animal Collective

Quarteto Fantástico

Os quatro elementos de Animal Collective (Avey Tare, Panda Bear, Deakin e Geologist), possuem uma noção perfeita da estética musical do inicio do século XXI. Souberam passo a passo construir a sua estrada musical, foram caminhando lentamente através do mundo sombrio da indie-music sem pressas e sem stress, marcando o seu tempo e o nosso.
Com a chegada do 6º disco, já conquistaram o seu espaço e já deixaram uma marca irrefutável no panorama da musica independente, aconteça o que acontecer daqui para a frente, os Animal Collective estão para os 00’s como os Radiohead estiveram para os 90’s, se bem que os primeiros não tiveram um “Creep”, para os tornar mundialmente conhecidos.
A voz de Avey Tare está solta e transpira alegria, a percussão de Panda Bear é suave e simples, toda a restante componente electrónica é única, transpondo para toda a estrutura o corpo e o aroma tão essenciais a este som contemporâneo.
Inovação, clareza de ideias, liberdade de criação, espírito de aventura, risco (provavelmente a sua melhor qualidade), são sintomas deste quarteto fantástico, as suas obras não tem margens definidas, não há barreiras nem barrancos, tudo é pensado, tudo é natural. Apesar de Strawberry Jam ser um estranho doce, consegue após uma apurada degustação tornar-se infinitamente agradável, uma paleta de diversos sabores.

Momento Mágico: Peacebone


Animal Collective
Strawberry Jam (2007) - Domino

2007/12/02

Benjamin Biolay

Le Garçon

A influência da Chainson Francaise continua a manifestar-se, já vão longe os anos de Gainsbourg, de Brell ou de Aznavour, mas ainda assim continua haver apóstolos que seguem o seus passos, usando os seus tiques e trejeitos. Benjamin Biolay cabe neste esquema na perfeição, já anda nisto há algum tempo (este é o seu 6º álbum de originais), é dotado de uma voz carregada e fumarenta, desenha todo o esboço da canção obedecendo às regras pop já previamente instituídas.
Trash Yeye cresce assim com alicerces bem estruturados e todo o resto da construção é altamente cuidado e rico de ornamentos, estando o espírito de Gainsbourg presente a cada esquina. Trash Yeye é um disco monótono, mortiço, que esvazia o espírito, mas não quero com isto carregá-lo de negativismo, o que pretendo afirmar é que existe uma extraordinária capacidade de nos transmitir a imagem de um lago de águas calmas, onde nem a mais leve brisa sopra.
Biolay compõe, organiza e domina a técnica pop como muito poucos. A concepção dos 12 temas obedecem ao mais simples ritual musical, não tem carga pretensiosa nem possuem qualquer ideia de fundo, apenas simples canções, sobre os mais simples problemas da vida.
Regarder La Lumiere, Qu'Est-Ce Que Peut Faire e o magnifico single Laisse Aboyer Les Chiens, são apenas 3 exemplos, de que não só estamos na presença de um dos principais nomes da pop francesa, como se prova também que o nome de Biolay poderá constar ao lado de muitos nomes anglo-saxónicos.

Momento Mágico: Laisse Aboyer Les Chiens


Benjamin Biolay
Trash Yeye (2007) – Virgin France

2007/11/28

Elvis Perkins

O Rapazinho

Não é apenas na escrita de canções que, Elvis Perkins que é fortemente influenciado por nomes como Dylan, Cohen ou Young, existe também a forma como as constrói e compõe cada uma das suas peças. Perkins dedilha a guitarra com imensa destreza e seriedade, tem a alma de trovador, respirou as réstias de ar que ainda sobraram dos 60’s, daí resultando um folk-acustico de alta sagacidade, capaz de cumprir na perfeito o efeito pretendido.
Elvis Perkins é filho do actor Anthony “Psycho” Perkins que foi vitima de SIDA em 1992 e da fotógrafa Berry Berenson que era passageira de um dos aviões que chocou com as Twin Towers a 1 de Setembro. Será certamente uma pessoa sofredora, melancólica e delicada, o que confere uma capacidade sensorial, de onde brotará energia sensível e emotiva, Ash Wednesday é todo assim.
“While You Were Sleeping” é um leve despertar, um suave acordar após um longo e retemperador sono… Apesar de toda a estrutura, estar baseada no acústico “May Day”, oferece a hipótese de conhecermos a sua vertente mais eléctrica, “It’s Only Me” é um enorme lamento à solidão, como ele próprio afirma “…the darkness and the dust but me, I’m just a man / it’s more than I can understand / It’s only me”.
Não existe pecado em Ash Wednesday, é álbum puro e limpo, sem complexos, serve como convite a um longo e calmo passeio campestre, onde com o seu jeito nos vai contando bonitas fábulas e histórias intensas. Perkins é um cantor com um imenso futuro, fica tanta coisa para descobrir e são enormes as probabilidades musicais, o que está para vir irá ser muito bom.

Momento Mágico
: May Day


Elvis Perkins
Ash Wednesday (2007) – XL Recordings

2007/11/24

Beirut

Desconcertante

The Flying Club Cup é o novo album, de Beirut e do seu alter-ego Zach Condon. Tentar definir numa única palavra, o conteúdo de um disco, tem um grau altamente elevado de dificuldade, mas neste caso vou arriscar e chamar-lhe um disco desconcertante.
E desconcertante, porquê? Consultando um qualquer dicionário de português, encontramos sinónimos com embaraçoso ou que atrapalha ou seja fortemente carregados de negatividade. Só que a minha intenção não é bem essa. O que pretendo é usar essa palavra para despertar mentalidades e por em sentido o intimo de cada um. Na pratica cataloga-lo dessa forma, teria apenas um objectivo, afirmar que The Flying Club Cup é um disco fraco, só que o que acontece é exactamente o oposto.
O novo disco de Beirut, é uma amalgama de sentimentos profundos, ao mesmo tempo que transborda de dor, é de uma alegria imensa, inundando de felicidade tudo o que o rodeia. É uma espécie de exército de almas penadas, que aguardam desesperadamente que lhes abram a grande porta, que os irá conduzir a um local onde tudo é calmo e claro.
A constante utilização de “brass bands” dá-lhe uma caracteristica baltica, um frenesim cigano, resulta assim um euro-folk carregado de história, tomemos em consideração “Nantes”. “A Sunday Smile” é amor estado bruto, é um sorriso domingueiro de quem ainda não lavou a cara. “La Banlieu” é uma festa para dançar à roda da fogueira. “Forks And Knives” é uma genuína canção onde vem à tona, o verdadeiro e principal instrumento de Beirut, à voz de Zack Condon. The Flying Club Cup é a continuação lógica de Gulak Orkestar e como segundo disco, consegue-o de uma forma natural e perfeita, coisa que nem todas as bandas se podem orgulhar

Momento Mágico: In The Mausoluem


Beirut
The Flying Club Cup (2007) – 4AD

2007/11/20

Terry Lee Hale

O Homem e o Sonho

Terry Lee Hale é o novo americano em Paris. Vive em França e edita apenas na Europa.
Algo raro, particularmente se tivermos em consideração que as raízes musicais de Hale residem no alt-country. Hale assume-se como um performer e songwriter. O seu sonho sempre foi tocar guitarra e escrever canções.
Até aí chegar foi o homem dos sete ofícios. O sonho comanda o homem e o resultado, actualmente, é um artista na essência da coisa e um décimo álbum absolutamente fascinante. A sonoridade e as letras das dez canções de Shotgun Pillowcase, ilustram bem o árduo caminho que é necessário percorrer para se alcançarem as metas a que nos propomos, ou como Hale canta, ”I Walk The Streets Of Stone”.
Esta metáfora está bem patente na voz áspera mas também reconfortante de Hale. Todo o disco é uma lição de vida, das suas componentes e etapas. Amor, objectivos, riscos, partilha, não são meros conceitos nas letras das canções de Shotgun Pillowcase, sendo antes aquilo que define a essência do Homem. Daí que este disco habite nos blues, a guitarra vem do folk-rock e o saxofone distribui o jazz de Fats Domino ou de Hank Williams.
Produzido por Chris Eckman dos Walkabouts, este disco é performance, mensagem e som.

Momento Mágico: Glitterati


Terry Hale - Shotgun Pillowcase (2007) Bongo Beat Records / Borderdreams

2007/11/17

2007/11/16

The Hives

Mais do Mesmo

A expressão “mais do mesmo” costuma ter uma conotação negativa. Eu não concordo e, como tal, decidi empregá-la para descrever num pequeno título o regresso dos The Hives. Quando uma banda tem qualidade musical, mais do mesmo não é necessariamente uma má notícia, é antes uma confirmação de que continuam a criar boa música que não compromete ou desilude os fãs.
Não se pense que o novo disco dos The Hives repete as fórmulas anteriormente utilizadas, pelo contrário assiste-se à introdução novos elementos, nalguns casos com estupefacção, que para além de enriquecerem a sua habitual estrutura musical apontam novos caminhos, são exemplo disso “Try It Again”, “T.H.E.H.I.V.E.S” (com a ajuda de Pharrel Williams, quem diria?), "A Stroll Through Hive Manor Corridors" (parece saída de um filme de terror série B), "Puppet On A String" (será que oiço um piano de cabaret?) e “Giddy Up”.
O resto? O resto é garage/punk/rock ao melhor estilo, sem compromissos e sem descanso. Temas como “Tick Tick Boom”, “You Got It All… Wrong”, “Well Alright”, “Hey Little World”, “It Won’t Be Long”, “Return The Favour”, “Square One Here I Come” “You Dress Up For Armaggedon” e “Bigger Hole To Fill” é The Hives clássico, para ouvir com o volume no máximo, principalmente em dias em que temos muita energia para gastar e/ou muito stress para libertar.
Dos The Hives não peço muito, não espero criatividade transbordante, grandes orquestrações, composições ou trabalho de estúdio, só espero rock enérgico, guitarras estridentes, muita atitude e arrogância q.b. e mais uma vez a banda não atraiçoou as minhas expectativas, estou mais que satisfeito, desconfio que a minha “air guitar” vai ter muito trabalho.


Momento Mágico
: You Got It All…Wrong



The Hives - The Black And White Album (2007) - Universal

2007/11/13

Gravenhurst

Outono

Por uma daquelas casualidades, que volta e meia acontecem (vá uma pessoa saber qual a verdadeira razão), ao ver uma pequena pérola cinematográfica, “Dead Man’s Shoes” (filme sobre o qual, me apetece apenas dizer: “vejam!!! É uma ordem.”), tropecei num belissimo tema chamado “The Driver”. O referido tema é de uma banda, que até esse mágico momento eu desconhecia por completo, de seu nome Gravenhurst.
Tudo o que aconteceu a seguir, foi uma busca incessante o que tinham criado até em então e foi assim que descobri Flashlight Seasons (2004) e Fires In Distant Buildings (2005), duas obras que percorrem o rock de uma forma redonda e carregada de cores rock-folk, pintadas aqui e ali por guitarras atmosféricas bem ao estilo do pós-rock Mogwaiano.
Em 2007 aí estão eles de novo e se nas primeiras audições, tive uma certa dificuldade em absorver a obra, agora que a poeira já acentou, considero The Western Lands um disco de uma beleza estranha, é sombrio mas apaixonante, é uma paisagem repleta de folhas caducas, semi-iluminadas por um pôr de sol alaranjado.
The Western Lands é uma mulher que dança completamente descalça e descansada “The she dances, skirt swaying in the half-light, she dances” in “She Dances”. Existe a construção perfeitamente rockeira, com guitarras perdidas no espaço, completadas com a sussurante voz de Nick Talbot em “Hallow Men”. A belissima cover de Fairport Convention, “Farewell, Farewell”, é o exemplo da pacifica beleza deste album.
Um disco imensamente Outonal.

Momento Mágico: Grand Union Canal


Gravenhurst - The Western Lands (2007) - Warp

2007/11/10

Roísin Murphy

Euro Pop

Roísin Murphy é um nome familiar aos fãs de música electrónica, particularmente aos fãs da banda Moloko na qual a mesma demonstrava todo o seu talento vocal. Quando em 2005 decidiu editar o seu primeiro trabalho a solo Ruby Blue a expectativa era alta, contudo, provavelmente por esse motivo, o disco não conseguiu trazer à artista o reconhecimento que ambicionava, apesar de se tratar de uma obra de qualidade.
O que nos traz a 2007 e à edição de Overpowered, o seu segundo disco a solo, uma vez mais aguardado com grande expectativa pela vasta legião de fãs de Moloko, no qual é evidente a vontade da artista em recuperar o fôlego perdido. Desconhecendo, como é óbvio, a repercussão que o mesmo vai ter, sempre se dirá que não desilude. De facto, Overpowered é um disco triunfante, enérgico, essencialmente direccionado às pistas de dança, habitat natural de uma artista vibrante, excêntrica e o local onde esta potencia todas as suas qualidades.
O regresso de Roísin Murphy aos ambientes electrónicos é, desde logo, visível no primeiro tema do disco Overpowered, dotado de um ritmo contagiante que compele à dança e que marca o compasso dos restantes temas. “You Know Me Better” não dá descanso e é um dos temas mais próximos da herança dos Moloko, “Let Me Know” e “Footprints” levam-nos de volta aos míticos anos 80, “Movie Star” não era de estranhar nuns Goldfrapp, “Dear Miami” é cerebral na sua cadência, “Cry Baby” lembra lantejoulas e plumas, “Primitive” é persuasiva na evocação dos instintos animais, “Tell Everybody” é pop em estado puro e “Scarlett Ribbon” fecha a obra da forma mais inesperada, parecendo até um pouco desalinhada das restantes.
Um belo disco, para amantes de música pop, com uma piscadela de olho às pistas de dança.

Momento Mágico: Overpowered


Roísin Murphy - Overpowered (2007) - EMI