2008/06/18

American Music Club

Dourado

Não sei o que irá acontecer até ao fim de 2008, mas os American Music Club ao apresentarem o seu novo disco The Golden Age, assinam um dos melhores discos do ano. Mark Eitzel e companhia, continuam o seu percurso, uma suave caminhada dentro slowcore de contornos folk, onde o lirismo é uma arma e a orla musical é o perfeito fio condutor.
Ao desembrulhar The Golden Age, a primeira luz que brilha é “All My Love” um arrastado tema de amor, carregado de ténue esperança e forte delicadeza. “The Victory Choir” é pop talentosa, sem qualquer tipo de grandeza, apenas mostrar que é tão fácil ser simultaneamente simples e fascinante. “The Sleeping Beauty” é percorrer luminosas planícies, é estar acordado e sonhar profundamente, é a busca do beleza interna.
Produzido por Dave Trumfio (Wilco/My Morning Jacket) que fazendo uso de toda a sua experiencia e técnica, foi levantando a obra de uma forma subtil e suave, dando corpo a uma colecção de temas, onde nostalgia, melancolia e desgosto, vão casando na perfeição com as guitarras acústicas, com as harmonias requintadas, com a voz melosa e pastosa de Eitzel.
Os American Music Club vão aparecendo e desaparecendo de cena, gostam de estar e de não estar, o universo musical e todo o star-sistem não é o seu mundo, mas penso que é este permanente ligar e desligar, que faz deles uma estupenda banda.

Momento Mágico
: One Step Ahead


American Music Club
The Golden Age (2008) - Merge Records

2008/06/14

Resposta Simples

Puro e Duro

O formato já há muito que foi criado, a dificuldade está em conseguir inovar, para isso será necessário agarrar no mesmo barro e ir pouco a pouco desenhado o objecto pretendido. Foi a isso que se propuseram 3 amigos, que munidos de imensa força de vontade, formaram os Resposta Simples. O power-trio açoreano já com 5 anos de existência, lida com enorme à vontade quer com toda a construção musical, quer com todo o sector vocal. É assim que vão edificando um universo penetrante e incisivo, o resultado são torrentes de energia, rasgos de potencia e toneladas de raiva em formato hard-core.
Sonho Peregrino é o álbum de estreia dos Resposta Simples, 9 temas de puro e duro hardcore cantado em português, coisa que é pouco habitual nestas andanças, aliás o mais normal é esconderem-se por detrás da língua inglesa e assim tentarem passar despercebidos, muitas vezes ocultando a mensagem. Ora os Resposta Simples não o fizeram, criaram uma banda com nome português, editaram um disco com titulo em português, escreveram e cantaram canções em português, podem não ser o pioneiros, mas são certamente dos poucos a fazê-lo.
Tema após tema Sonho Peregrino vai debitando cargas de decibéis, ao mesmo tempo que vão transmitindo ideias e ideais. “Meias conversas para mim não servem… Quem quiser mudar tem de uma atitude tomar…” ouve-se em “Atitude (começar de novo)” ou “Como podes criticar se estás sempre a falhar?” em “Descanso Eterno”, são exemplos que há contexto para lá das notas musicais.
Há muitos anos que uso uma máxima, o problema nunca é dos discos, nem das bandas, a existir alguma dificuldade ela está sempre nos nossos limites, nas nossas fronteiras musicais, nos nossos ouvidos… por isso, deixem de ser duros de ouvido, Sonho Peregrino é isso tudo, não é um disco para meninos, é um disco para rapazes/homens de barba rija.
Para ouvir e encomendar:
http://www.myspace.com/respostasimples
http://www.impulsoatlantico.com/

Momento Mágico
: Genocídio Cultural


Resposta SimplesSonho Peregrino (2008) – Impulso Atlântico

2008/06/10

Animal Collective

4 Músicos, 4 Temas

A paranóia colectiva, a destruição de tabus, o constrói-destroi dos Animal Collective é uma delicia. É óptimo quando uma banda rompe o star-sistem e faz o que lhe vai na alma, não ligando patavina às regras, às normas vigentes. Fazem assim porque gostam, fazem assim por são assim. O EP Water Curses é isto tudo, é Animal Collective na sua perfeição, continuam o seu passeio imunes a tudo e a todos, delineiam um caminho e com passos exactos pintam numa tela todas as cores disponíveis e é nela que estampam a sua pop psicótica, encharcada de micro sons e constantes revoluções sonoras.
Este EP é a forma ideal para conhecer, o que é, quem são, os Animal Collective. Ao longo de 4 temas expõem toda a sua potencialidade e todo seu (mau) génio. 4 músicos, 4 temas, não sei se foi intencional, mas consigo separar 4 perfeitos universos neste Water Curses, como se cada tema fosse a face de cada um dos seus elementos, assim sendo temos:
Water Curses” com toda a personalidade de Avey Tare (David Portner); “Street Flash” é puro Panda Bear (Noah Lennox) coros intensos e torrentes de ecos; “Cobwebs” mostra a minúcia de Geologist (Brian Weitz) ao comando de todos os botões e parafernálias electrónicas; por fim “Seal Eyeing” mostra Deakin (Josh Dibb) talvez a parte mas serena, a zona mais tranquila de Animal Collective.
O EP Water Curses mostra que tudo vai no bom caminho, que índole paranóica da musica dos Animal Collective continua em forma, que tudo persiste, que tudo segue a rota anteriormente projectada.

Momento Mágico: Street Flash


Animal CollectiveWater Curses [EP] (2008) - Paradise Recordings

2008/06/05

Bon Iver

Sofrido

Bon Iver é um sofredor, mas sofre com prazer, é uma alma solitária com corpo físico e é com o espírito destroçado que desenha For Emma, Forever Ago. Justin Vernon aka Bon Iver constrói temas musicais recorrendo a dois simples factores, musicalmente agarra-se ao folk-acustico, enquanto em relação às palavras agarra-se à poesia ou seja estamos perante o perfeito songwriter. Bon Iver com esta perfeita voz em falseto, com esta guitarra sempre em permanente penar e rodeado por este clima sombrio e nebuloso, vai narrando histórias de amor não correspondido, paixões impossíveis, separações dolorosas, onde pouco espaço há para a alegria e para os dias claros.
For Emma, Forever Ago inicia o seu árduo caminho com “Flume” uma longa caminhada por dias amargurados, onde há muito o sol já não habita, o tempo ficou imóvel naquele preciso momento em que o dia termina e a noite ainda não acordou. “The Wolves“ é um místico coral gospel, submergido por vozes em ruína, onde o isolamento é uma imagem perfeita, a solidão só pode fazer bem. A entrada de “For Emma” faz-se ao som de uma guitarra transversal, antevendo uma música com algum sol, mas logo se transforma novamente num dia carregado de nuvens cinzentas. Bon Iver pode-se arrumar na mesma prateleira, onde vivem nomes como Iron & Wine, Elvis Perkins ou Sparklehorse, dividem todos o mesmo intenso aroma da América profunda, daquele país que raramente é divulgado nos folhetos turísticos.
For Emma, Forever Ago é profundo e sentido, consegue ser ao mesmo tempo negro, mas também ser intensamente luminoso.

Momento Mágico: Creature Fear


Bon Iver
For Emma, Forever Ago (2008) - Jagjaguwar

2008/05/31

Major Dick And Captain Woody

Rudimentar

As águas do Mondego, devem ter sido algures na sua historia, possuídas pelos deuses do Blues/Rock, só assim consigo justificar, esta coisa que corre nas veias de muitas das bandas que nascem em Coimbra. Nomes como Tédio Boys, Bunnyranch, Legendary Tiger Man, WrayGunn ou até mais recentemente Sean Riley & The Slowriders, partilham todas a mesma pauta musical, todos usam a mesma linguagem de comunicação. Aponto 3 razões para isto: o reduzido tamanho da cidade de Coimbra; á forte amizade que sempre existiu entre todos os melómanos da cidade e à Rádio Universidade de Coimbra (RUC).
Os Major Dick And Captain Woody é o mais recente nome a acrescentar a esta já longa lista. Penso que a principal característica, deste novo duo de Coimbra seja a coragem, isto porque agarraram a parte mais crua do rock e de uma forma impressionante simples, arquitectam uma alma melódica bastante convincente. Após ter visto 2 ou 3 concertos da banda, tinha ficado um pouco desmotivado e isto resultava em exclusivo da confusão sonora que os Major Dick And Captain Woody conseguem produzir em palco, onde só como muita atenção se consegue separar a voz dos restantes instrumentos, coisa que penso que irá melhorar com o passar do tempo. Foi assim que com algum espanto que ouvi e absorvi Sure To Boogie. Ao primeiro EP, a banda consegue mostrar que ainda há imensas coisas a explorar, que há um mundo novo de ideias e de sons a experimentar.
Shake Your Ass N’Say Yeah” o primeiro tema deste EP, chega-nos aos ouvidos com uma cadência eléctrica que faz lembrar uma locomotiva descontrolada, onde apenas há partida e chegada. “Coke And Whiskey (Everyday)” é a alegoria de uma noite sem fim. O disco termina com “Beer Me Up” o primeiro tema da banda, onde se nota o quanto já evoluiu o projecto. Se parece haver um longo caminho a percorrer, também se nota que há imensa vontade e potencialidade para o fazer.
Encomendas/Audição via myspace: http://www.myspace.com/majordickcaptainwoody.

Momento Mágico: Work In The Can


Major Dick And Captain Woody
Sure To Boogie [EP] (2008) – Edição de Autor

2008/05/25

The Last Shadow Puppets

Eurovisão

Alex Turner é o vocalista e guitarrista, de uma das bandas de maior sucesso dos anos 00’s, os Arctic Monkeys, Miles Kane andou pelos The Rascals e pelos The Little Flames, uma amizade de vários anos foi dando corpo aos The Last Shadow Puppets. A banda possuí uma sonoridade fortemente retro, são bem visíveis as influencias dos crooners (Scott Walker, Nick Cave, David Bowie), o universo Festival da Eurovisão está patente em todo o disco.
Os arranjos comandados por Owen Pallett, que trabalhou com Arcade Fire, Beirut e outros, dá uma roupagem muito característica ao som dos The Last Shadow Puppets. O resultado final tanto pode ser uma mistura de pop de características simples, como logo de seguida usando uma carga cinematográfica bastante intensa, nos podem conduzir ao longo de uma auto-estrada de emoções e sensações.
Na produção de The Age Of The Understatement é a London Metropolitan Orchestra, a principal responsável por todas as sumptuosas orquestrações e são eles que ao longo das varias audições, nos vão ajudar a construir imensos cenários mentais. Ao ouvir este primeiro trabalho dos The Last Shadow Puppets, viajamos sem sair do sitio, um convés de luxuoso paquete numa qualquer viagem a um país exótico (“Standing Next To Me”), um jogo de roleta rodeado de belas mulheres (“Seperate and Ever Deadly”), um baile onde o galã faz a corte a mais bela das damas (“Black Plant”) ou até mesmo aquela perigosa perseguição do 007 ao mais vil dos inimigos (“The Age Of The Understatement”).
The Last Shadow Puppets é um agradável e fresco passeio aos anos 60.

Momento Mágico: Meeting Place


The Last Shadow PuppetsThe Age Of The Understatement (2008) - Domino

2008/05/17

Foals

Simples e Directo

O mundo pop tem destas coisas. Rituais que se repetem ano após ano, não se cria nada de novo, não surgem novos sons, não se inova um milímetro que seja. E como eu gosto disto. Um mundo musical perfeitamente descomprometido e sem necessidade de esforços mentais.
Os Foals são tudo isto, directos, discretos, banais e isto é tão bom, faz-me sentir tão bem. Preciso desta coisas simples. Antidotes é estrutura pop pura, está repleto de temas claros, manifestos de fácil admissão e de espontânea adição.
A banda de Oxford (England) usa os mesmos recursos de uns Bloc Party ou Klaxons e usam o rock ao estilo de uns Artic Monkeys, o resultado é uma amálgama sonora de contornos dance-punk, o que satisfaz de uma forma discreta.
Antidotes inicia com “The French Open” e “Cassius” silhuetas de contornos ska, onde a formula rítmica ganha o controle de toda a estrutura musical. Com “Olympic Airways” há um nítido olá à pop. “Electric Bloom” resume tudo o que foi dito anteriormente, singela e eficaz, objectivo pop perfeitamente cumprido. O timbre de voz de Andrew Mears, é talvez a única coisa que dá uma característica única aos Foals, tudo o resto apesar de residual, é festivo e de fácil compreensão.
Foals é musica pela musica, simples, directa e eficaz.

Momento Mágico: Big Big Love (Fig. 1)


FoalsAntidotes (2008) - Transgressive

2008/05/11

Cut Copy

Fantasma Colorido

Musica electrónica e musica orgânica, já não é a primeira vez que a união, entre ambos os estilos consegue fazer todo o sentido. Os Cut Copy agarram no mundo electrónico, adicionam-lhe instrumentos convencionais e o resultado é uma amalgama de musica dançável.
Os Cut Copy e a sua electro-pop chegam da Austrália e 4 anos após o debut álbum Bright Like Neon Love (2004), surge o mais que esperado In Ghost Colours (2008), pelo meio houve um disco de misturas gravado ao vivo no formato DJ Set, com o nome de Fabriclive.29 (2006).
O movimento australiano dentro da pop-dance/electro-pop, encontra-se no momento ao rubro, nomes como os Cut Copy, Midnight Juggernauts, The Presets, etc, põe a grande ilha do pacifico a rodar um pouco por todo lado.
Os Cut Copy não são inovadores, coisa que não está ao alcance de todos, de qualquer forma não me parece que tenha sido essa a sua intenção. O seu principal objectivo foi reformarem um género e dar-lhe uma nova roupagem, vestirem-na com enorme elegância, penso que o conseguiram. In Ghost Colours é um disco de fácil digestão, o apelo ao leve bater de pé é uma constância, chegando muita vez a não ser o suficiente, existe muitas vezes uma irresistível necessidade e de movimentar todo o corpo.
A abertura de In Ghost Colours faz-se com “Feel The Love” um perfeito ritual pop, “Lights And Music” é um dos grandes temas do álbum um tema directo e eficiente,” So Hauted” é uma mescla rock de contornos quase disco, “Hearts On Fire” é puro pop-dance imaculado, “Far Away” é club dance para amantes de rock.
In Ghost Colours é um disco para toda a gente, para os amantes de pop-rock e para os simpatizantes de musica electrónica de contornos mais pop. Um disco perfeito para as noites ao ar livre.

Momento Mágico: Hearts On Fire


Cut CopyIn Ghost Colours (2008) - Modular Interscope

2008/05/05

Dead Combo

Alma Portuguesa

Usando o western, o dark-folk, o tango bandido ou os acordes mais simples de um blues doloroso, os Dead Combo conseguem construir um som com alma portuguesa. A existência desse espírito permanece intacto, devido a forma como entrelaçam o som triste do fado, com todas as referências anteriormente referidas. Há um universo de constante partida, a musica dos Dead Combo é um permanente cais de embarque, o que é talvez uma das principais características dos portugueses, um continuo “estou de partida”.
Lusitânia Playboys é o terceiro disco de originais deste duo lisboeta, constituído por Tó Tripes (Guitarras) e por Pedro Gonçalves (Contrabaixo), durante os 15 temas deste novo trabalho, permanece o fio condutor que os trouxe até 2008, a mistura das ambiências de Enio Morricone com o mais fino extracto do aroma da música portuguesa, o perfeito matrimónio entre a portugalidade e o resto do mundo musical. A forma como cruzam a guitarra e o contrabaixo dá ao som de Dead Combo um minimalismo sombrio, a única coisa que sobra a pós a sua completa audição é a ideia de espectro sonoro, algo que sabemos que existe, mas não se consegue ver, pura e simples fé musical.
Da lista de participações em Lusitânia Playboys constam nomes como Howe Gelb, Kid Congo Powers, Carlos Bica, Alexandre Frazão, etc., todos eles ajudam a divulgar aquele que eu entendo como um dos projectos portugueses, com maior capacidade para a internacionalização. Com Lusitânia Playboys os Dead Combo, provam que o filão por si descoberto tem imenso para explorar, existe muito a escavar e a mostrar, as pepitas vão sendo descobertas e vão sendo apresentadas a um público cada vez mais sedento.
Lusitania Playboys está todo disponível em: Dead Combo - MySpace confirmem, é um favor que fazem a vocês próprios.
A portugalidade tem som, tem alma, tem corpo, mas não se vê.

Momento Mágico: Cuba 1970


Dead ComboLusitânia Playboys (2008) - Universal

2008/04/27

Lykke Li

Beleza Nórdica

Nas terras da Escandinávia a produção musical e a quantidade de bandas e projectos musicais, toma uma proporção fora do comum, se tivermos em conta o ratio populacional. Para pouco mais de 9 milhões de habitantes, são imensos os projectos musicais, uma breve pesquisa na net e encontramos nomes com Acid House Kings, The Cardigans, Club 8, Wannadies e claro os responsáveis por toda esta explosão os incontornáveis ABBA.
Lykke Li é uma jovem (21 anos) rapariga loura, de voz aveludada, muito na linha de uma Stina Nordenstam / El Perro Del Mar, aliás podiam ficar todas muito arrumadinhas na mesma prateleira. A sua voz açucarada é de fácil adição, fica-se quase literalmente colado as finíssimas franjas vocais, á sua cristalina claridade vocal. A completar temos uma produção musical de excelentes contornos, apinhada de pop-chic, repleta de electrónica simpática e de fácil digestão.
A abertura do Youth Novels é feito com o “Melodies & Desires” um tema altamente que pisca o olho ao universo de Laurie Anderson, a suave declamação interage na perfeição com a electrónica que lhe serve de apoio. “Dance, Dance, Dance” surge embrulhado num perfeito presente, o qual ao abrir vai libertando um agradável aroma ritmado. “My Love” é uma ode romatica em loop. Little Bit” é uma das pérolas de Youth Novels, a confirmar aqui.
Youth Novels é o debut álbum de Lykke Li, é o seu cartão-de-visita, o seu olá ao mundo, numa altura em que a produção musical é mais que muita, conseguir despertar a atenção já é por si só um ponto de vitória.

Momento Mágico: Complaint Department


Lykke Li
Youth Novels (2008) - Msi Music/Super D

2008/04/21

Cloud Cult

Território Pop

Quando se iniciou nestas andanças Craig Minowa, o principal mentor de Cloud Cult, começou a solo, andava certamente à procura de alguém ou de algo. Os primeiros anos de trabalho resultam em dois discos para a editora Orchard, Who Killed Puck? (2001) e They Live On The Sun (2003) e ambos possuem um item em comum, são demasiado psicóticos, parecem padecer de problemas mentais, tentam libertar fantasmas e outros receios. Com Aurora Burealis (2004) os Cloud Cult ganham uma vertente pop e partem à conquista do espaço a quem tem direito. Seguem-se mais dois álbuns Advice From The Happy Hippopotamus (2005) e The Meaning Of 8 (2007), a partir daqui o caminho já está completamente traçado, há já uma linha condutora do que se pretende fazer, há um nítido marcar de território e ao fazê-lo não estão a tentar distanciar-se, mas antes tentarem encontrar linhas de conexão. É desta forma que se podem cruzar com Cloud Cult, nomes como The Flaming Lips, Wolf Parade, Okkervill River.
Em 2008 chega novo disco, o que até nem admira, Craig Minowa deve passar o dia a compor música atrás de música. Feel Good Ghosts (Tea-Partying Through Tornadoes) é uma misturada de géneros e estilos, tudo flui e tudo se funde, há um ponto de partida pop, mas depois tudo pode acontecer. A abertura do disco faz-se ao som de um teclado psicadélico, que tanto parece um piano ou órgão endiabrado, a partir daqui o acontece é uma pura oração pop muito ao estilo da Polyphonic Spree. Com "Everybody Here Is A Cloud" é afirmado o mundo que os Cloud Cult querem habitar. "When Water Comes To Life" é uma canção bastante teatral, há nevoeiro emocional, uma espécie mundo fantástico a descobrir. "May Your Hearts Stay Strong" é tema belíssimo, obedece a construção normal da pop, a permanente duplicação vocal faz-me lembrar uns Band Of Horses. Tudo isto termina com hino ao amor, "Love You All" é a forma triste de acabar um disco alegre.

Momento Mágico: The Will Of A Volcano


Cloud Cult - Feel Good Ghosts (Tea-Partying Through Tornadoes) (2008) – Rebel Group/Earthology

2008/04/14

MGMT

Hype?

MGMT encarnam o espírito do rock electrónico de uns Mew, caminham nas mesmas pegadas dos The Knife e dão um subtil encosto aos Of Montreal, sendo que este é o pormenor, que mais despertou os meus sentidos. O que resulta de toda esta balbúrdia de referencias, é um álbum apinhado de sons da transição 80/90, electro-punk acompanhado por uma voz disco-funk, uma espécie de “Gibb Brothers on ectasy”.
Não há nada de novo no mundo de MGMT, é um puro baralha e volta a dar, digo isto sem qualquer pretensão critica, apenas quero tentar justificar, que este constante mudar de roupa de certos géneros musicais é altamente louvável e neste caso conseguem mesmo ligar o botão de “hype” dos mais distraídos. MGMT é uma versão menos sofisticada de Of Montreal, está quase tudo lá, falta talvez a psicose doentia que tão bem caracteriza o universo de Kevin Barnes. Se em MGMT temos canções, em Of Montreal temos mantas de retalhos, se em MGMT temos construção musical, em Of Montreal temos desconstrução…
Sendo Oracular Spectular o debut de MGMT, Ben Goldwasser e Andrew Van Wyngarden, devem ter ficado surpreendidos com a velocidade a que tudo aconteceu, de um momento para o outro, todo o mundo quer saber deles, toda a gente os quer ver ao vivo. Oracular Spectular é simples e directo, entra no ouvido sem grandes complexos, não precisa de grande esforço mental, apenas de um momento de boa disposição, se tivermos atenção e escolhermos o momento preciso, tudo ficará sorridente á nossa volta.

Momento Mágico: Kids


MGMT - Oracular Spectacular (2008) - Red Ink/Columbia

2008/04/07

Cat Power

As Canções dos Outros

Chan Marshall é uma senhora com voz de menina. É dona de voz que transpira, aquela suave rouquidão carrega toda a imagem de mulher sofredora, paciente, mas que ao mesmo tempo é apaixonada e se esforça para arrebatar os corações mais duros.
Num passado relativamente recente (The Cover Records (2000) – Matador) Cat Power, já tinha optado por gravar um disco de versões, desta vez volta à carga e repete a graça, o resultado é Jukebox (2008) - Matador. Se no primeiro caso quase todo o disco se desenrola, numa vertente pop-folk, com este segundo cover-album a intenção é descrever caminhos mais tortuosos, mais dolorosos, para isso recorre ao soul, ao gospel e ao rock introspectivo.
Cat Power criou em nós o hábito, de a escutarmos como uma pequena songwriter. De guitarra em riste, trauteia canções melancólicas, inundadas de sentimento, onde pouco espaço há para a alegria espontânea.
Com Jukebox essa imagem intensifica-se, descobre-se uma senhora dona do seu nariz, sabe o que faz e gosta de o fazer bem. O disco inicia-se que a versão “New York, New York” de Ebb e Kander, imortalizada por Frank Sinatra, a que Cat Power constrói a imagem de cabaret de 2ª, apinhado de lugares vazios. Ramblin’ (Wo)man é blues em modo sadcore. Existem dois temas no disco, Metal Heart e Song For Bobby (escritos pela própria) que mais são que duas piscadelas de olho, a quem só agora se cruzou com a obra de Cat Power. Lost Someone é uma pérola, aliás foi com este tema que despertei para este disco, fica o link Lost Someone (Live At Later..), palavras para quê… A versão de Joni Mitchell é a calmaria total, com Blue a suavidade vocal casa na perfeição com o som do teclado, entrando por um mundo de sombras e amenas carícias.
Sem ser um soberbo disco, Cat Power consegue alcançar e assinar o livro de presenças de 2008, editando uma obra de agradável sedução. Jukebox é encantador e cativante.

Momento Mágico: Blue


Cat PowerJukebox (2008) - Matador

2008/04/01

Goldfrapp

Ainda Não Foi Desta

Um dia houve uma menina gira, que formou uma banda gira e com uma forma estranhamente subtil cantou, tocou e produziu uma pequena obra-prima, foi logo adorada pelos fãs e todos os críticos se prostraram a seus pés. Esta história que se poderia contar, quase toda no feminino tem um estranho equilíbrio masculino, que faz bascular todo o sistema de uma forma ordenada. O elemento masculino responde pelo nome de Will Gregory, e a menina gira é Alison Goldfrapp, a obra-prima essa chama-se Felt Mountain. Ora como em todas as histórias de encantar, o ideal é que vivam felizes para sempre e tenham uma enorme prol e em relação a isso até nem nos podemos queixar, senão vejamos: Black Cherry (2003), Supernature (2006) e por fim Seventh Tree (2008).
Acontece que como em todos os contos, aguardamos sempre por um final eternamente feliz ou pelo menos que o episódio seguinte mantenha o mesmo nível de interesse, de forma a queremos sempre mais. Ora com os Goldfrapp isso não tem acontecido, tem sido uma carreira de experiencias, se descuramos o primeiro disco, os Goldfrapp tem passeado pela pop corriqueira, pelo electro de contornos manhosos, chegando mesmo a criar temas de dança em formato “feira popular”.
Para os amantes de Felt Mountain, cada vez que sabe que vão gravar novo disco, lá se levanta o entusiasmo, lá volta a esperança, lá surge um enigmático sorriso, só que de ano para ano todos estes sentimentos estão a ficar mais ténues, estão a tornar-se completamente desbotados.
Com Seventh Tree voltou a acontecer o mesmo, expectativas elevadas, esperança, o dizer mais uma vez “agora é que é”. E desta vez quase que me enganaram, aos primeiros acordes de “Clowns” fiquei com a sensação que agora sim voltaram acertar, só que é mesmo só isto, de seguida voltam ao formato insosso e sem sabor “Little Bird”, “Hapiness” é o tema orelhudo do disco, “Road To Somewhere” é pop sonolenta a caminho do vazio, “Eat Yourself” e “Some People” são quase iguais e não fazem falta e assim sucessivamente até ao ultimo tema.
Seventh Tree é o (meu) o corte final, é muito provável que não haja próxima vez para Goldfrapp. Ah… a menina gira do início da história continua cada vez mais gira….
Vá lá, ainda se safa alguma coisa.

Momento Mágico: Clowns


Goldfrapp
Seventh Tree (2008) - Mute

2008/03/24

Portishead

Terceiro

Na semana em que passam por Portugal (26 Março – Coliseu do Porto / 27 Março – Coliseu dos Recreios) são já enumeras (rádio/net/myspace) as formas de contacto com os primeiros odores daquele que é provavelmente um dos discos mais aguardados dos últimos anos. Senhores e Senhoras o Third de Portishead.
A mítica banda de Bristol está de volta aos escaparates, 11 anos após o álbum homónimo e 14 anos após a obra-prima Dummy. O primeiro medo a vencer, foi tentar quebrar o longo espaço temporal que existe entre o disco de 1997 e este novo trabalho. 11 Anos é muito tempo, e se muitas vezes o tempo pode ser um bom conselheiro fazendo com que tudo seja visto e revisto até à exaustão, o mais normal é acontecer precisamente o contrário. No caso em questão a passagem dos dias, meses e anos, foi bastante benéfica.
Os Portishead regressam cheios de boa vontade e com uma força inimaginável, a voz de Beth Gibbons continua maravilhosamente bela, é intenso o seu brilho, carrega toneladas de nostalgia, padece de um constante desespero, há algo na sua voz que me atraí de uma forma irresistivel, é um permanente convite a clonagem, um eterno canto que diz: “funde-te em mim”.
Third é um disco brilhante, perfeitamente produzido e composto de forma imaculada, nada falha, tudo está no sítio certo, existe a exactidão de um relógio suíço, cada nota, cada verso, cada loop, cada canto…
Sério candidato a disco mais perfeito do ano.

Momento Mágico: Magic Doors


Portishead
Third (2008) – Mercury/Island

2008/03/17

The Kills

Disco-Rock

VV é americana, Hotel é inglês conheceram-se algures num concerto e desde daí “apaixonaram-se” e desse amor nasceram 3 descendentes, a saber: Keep On You Mean Side (2003); No Wow (2005) e o herdeiro mais novo Midnight Boom. A banda de Alison Mosshart e Jamie Hince, os The Kills sempre nos habituaram ao garage-rock de contornos negros, onde o punk é visitado com simpatia e cortesia. Neste novo trabalho a todo este cocktail som, vai acrescentar-se uma nova vertente musical o electro.
Com a mistura de um novo ingrediente, a musica dos The Kills ganha uma nova vida, uma nova estética e passa a ser altamente contagiante. Com esta nova faceta, com esta vertente electro os The Kills ganham um corpo altamente sexy (para qual a imagem de VV contribui bastante) e passam a carregar a imagem de um bela modelo de disponível a quase tudo.
Midnight Boom é Electro-Punk-Rock, está carregado de uma dinâmica própria, tanto pode ser uma quase paranóia cénica-vocal “U.R.A. Fever” com laivos de Trent Reznor, como logo de seguida pode uma intensa canção em desespero em “Tape Song”, com “Last Day Of Magic” reconhecemos uma PJ Harvey em inicio de carreira ou então caminharem pelos mesmos trilhos de uns The White Stripes em “M.E.X.I.C.O.C.U”.
A única coisa apontar a este novo trabalho, é permanente sensação de serviço incompleto, parece que fica sempre algo por contar, o que neste caso funciona na perfeição para captar a nossa atenção, existe um contínuo chamamento, um falso álibi, não sei se foi propositado, mas funcionou com grande requinte.

Momento Mágico: Getting Down


The Kills
Midnight Boom (2008) - Domino

2008/03/10

El Perro del Mar

Volátil

A áurea que cobre a cabeça de Sarah Assbring aka El Perro del Mar, é feita de pop sublime de uma fineza impressionante, como se fosse feita de nobre cetim. El Perro del Mar chega-nos das regiões frias da Suécia e com ela chega também aquela subtil forma de criar pop de alto valor calórico. Ao 3º disco El Perro del Mar, começa a marcar um estilo, um costume, é dona de várias características perfeitamente reconhecíveis, a forma como sussurra, o constante desespero que impõe aos seus temas, aquela tentativa de tentar transformar num organismo vivo as notas musicais.
From The Valley To The Stars, é um exercício de pormenores, a pop de contornos urbanos em “How Did We Forget”, a duplicação vocal em “Inner Island”, o convite à oração em “Happiness Won Me Over”. São 16 pedras preciosas, umas ainda em estado bruto, outras já lapidadas de primorosa.
Há uma religiosidade permanente em From The Valley To The Stars, que dá às paisagens gélidas um universo de convento ao ar livre, onde se pode passear sem ter de cumprir rituais, apenas o simples e singelo prazer de ver as nuvens a formar formas.

Momento Mágico: Do Not Dispair

El Perro Del Mar - From The Valley To The Stars (2008) - The Control Group

2008/03/04

Jonquil

Melodiosos

Os ambientes soturnos e sombrios, onde vivem criaturas alienadas e por onde vagueiam almas penadas e sem rosto, é local de procriação dos Jonquil. Estar a enumerar as influências, desta banda de Oxford (UK) seria uma autentica cruzada, visto os Jonquil soarem a milhentas coisas diferentes. De qualquer forma, tentar descobrir um fio condutor nesta imensidão de formulas e receitas, o resultado tenderia a ser o pop-folk.
Existe sentimentos a rodos nos dedilhados das guitarras, há uma norma romântica em cada nota que se solta do acordeão, as vozes hipnóticas que ecoam a cada estrofe dão alento e transmitem um ébrio calor, que soam perfeitas para os dias de primavera que se avizinham.
Lions é a tomada de consciência dos Jonquil, uma banda nova como muitas outras, mas com um nível de qualidade fora do comum, seriam imensos os exemplos, mas temas como “Sudden Sun” repleto de uma alegria transbordante, onde o cheiro a primavera explode de uma forma subtil; “Lions”surge como um hino quase épico, anunciado a boa nova (seja lá ela qual for); “Subtle Strains” é uma linda melodia, pautada por um lento crescendo.
Apesar de Lions ter passado um pouco despercebido, os Jonquil são uma banda com um enorme futuro, é esperar para ver.

Momento Mágico: Whistle Low


Jonquil Lions (2007) – Try Harder

2008/02/28

The Bird and The Bee

Dias de Verão

The Bird and The Bee é um grupo formado em 2006, no sul da Califórnia, pela cantora Inara George e pelo multi instrumentista Greg Kurstin, unidos no gosto comum pelo jazz e pelo tropicalismo começaram a trabalhar em 2006, ano em que publicam o seu EP de estreia Again and Again and Again and Again, que abriu caminho à edição em 2007 do disco de estreia The Bird and The Bee.
É um disco inspirado, ao qual já se seguiram dois EP’s, igualmente encorajadores, Please Clap Your Hands (2007) e One Too Many Hearts (2008) representativos da prolífera criatividade desta dupla.
Não posso deixar de transcrever a frase publicada pelo grupo na sua página do MySpace a respeito da forma como descrevem o seu som “A futuristic 1960's American film set in Brazil...”, com efeito a bossa nova, o jazz e a pop são os denominadores comuns ao longo dos dez temas, uma mistura inesperada que origina um disco repleto de melodias doces, dotado de múltiplas camadas sonoras, onde as vocalizações sincopadas de Inara George e a atmosfera opulenta anunciam a chegada do Verão.
Como é que eu descrevo este disco? The Bird and The Bee é um dia de Verão, em que o sol nos leva até à praia, é um mergulho numa onda refrescante, é sentir as gotas de água a escorrer no corpo, é uma brisa que alivia o calor escaldante, é a languidez de um pôr do sol estival.
Ficaram curiosos? Descubram este disco...

Momento Mágico
: I’m a Broken Heart


The Bird And The Bee - The Bird And The Bee (2007) -
Blue Note Records

2008/02/23

Maps

Renascer

O shoegaze volta e meia faz das suas e vai renascendo aqui e ali, de uma forma espontânea e natural, há um passado que não interessa esquecer e há ainda imensa gente a explorar as manias e manhas deste pop quase espacial. Os 90’s estão aqui a cada acorde, as guitarras em constante choro, as vozes sussurrantes, a bateria perfeitamente compassada, o uso das teclas como acompanhamento coral. O projecto etéreo de James Chapman, não esconde as suas influências e é com enorme facilidade que surgem no horizonte nomes como Spiritualized, My Bloody Valentine, Ride, The Stone Roses ou M83.
We Can Create consegue de uma forma simples, mostrar que é possível recriar sons passados, sem entrar em saudosismos idiotas, mesmo que para tal tenha de usar as mesmas regras e as mesmas fórmulas, porque no fim a única coisa que interessa é mesmo só a música.
Com Maps não precisamos de GPS, não estamos perdidos, apenas fazemos uma curta incursão nos anos 90, não há que ter vergonha do quanto o shoegaze soava bem, é verdade que os anos passam e tudo vai mudando, mas também é verdade que recordar é viver (onde é que eu já ouvi isto?)

Momento Mágico: It Will Find You


MapsWe Can Create (2007) - Mute

2008/02/17

Sean Riley & The Slowriders

Mississipi Lusitano

Coimbra tem sido terreno fértil a nível musical, nomes como Tédio Boys, Belle Chase Hotel, Wray Gunn, The Legendary Tigerman, Bunnyranch, etc, têm cimentado a importância desta cidade no panorama musical nacional. O último colectivo ao sair da penumbra coimbrã, disposto a procurar um lugar ao sol é Sean Riley & The Slowriders.
Farewell, o disco de estreia deste trio formado por Afonso Rodrigues, Bruno Simões e Filipe Costa, é uma amálgama de “folk/rock/blues” de altíssima qualidade, assente no talento de Afonso Rodrigues como compositor e no belíssimo trabalho de Filipe Costa (ex-Bunnyranch) nos teclados.
Com fortes raízes na música norte americana, Farewell tem muitos momentos altos e transborda maturidade e sinceridade por todos os poros. Canções como “Let The Good Times Roll”, “Moving On”, “Motorcycle Song”, “Lights Out”, “New Year’s Eve”, “Twenty Six Years” ou “Spider’s Blues” cativam à primeira audição e são belos exemplos da vitalidade desta banda.
Se o rio Mississipi tem cativado tantos artistas ao longo dos anos (de Johnny Cash a Led Zeppelin, passando por Randy Newman, Jeff Buckley e pelo tema intemporal Moon River da banda sonora do filme Breakfast at Tiffany’s), o rio Mondego começa a provocar o mesmo efeito em muitos músicos.
Uma estreia auspiciosa de um grupo a seguir com atenção.

Momento Mágico: Harry Rivers


Sean Riley & The Slowriders - Farewell (2007) - Norte Sul

2008/02/12

Sebastien Tellier

Sensualidade

O Sr. Sebastien Tellier é francês e amigo pessoal de Jean-Benoit Dunkel e de Nicolas Godin ou seja dos Air, com quem já andou em digressão, tendo inclusive feito a primeira parte de um concerto, que estes últimos em tempo deram em Lisboa. Para produzir este seu 4º trabalho, Tellier chamou um nome de peso da cena electro-dance francesa e mundial, Guy-Manuel de Homem-Christo (Daft Punk), o resultado é um disco que cruza imensas influências, desde da electrónica mais ambiental, ao electro-fuck ou até mesmo um pozinho da nova chanson francaise.
Para quem já conhece os excelentes anteriores trabalhos (L' Incroyable Verite – 2001 / Politics 2004 / Universe – 2006), já há muito notou que o principal tema abordado são as paixões mundanas e romântica perversão sexual francesa.
Tellier não encarna completamente o papel de crooner, no entanto consegue dar asas à sua condição de sonhador romântico e com isso consegue interpretar temas de uma forma intensa e concisa e isso é conseguido através de uma suave mutação, onde a electrónica de cariz inofensivo vai sendo moldada, em formato canção, ganhando ao longo dessa transformação corpo, consistência e contexto.
Sexuality é o que o próprio nome indica, um disco fortemente sensual, povoado de ninfas semi-nuas e meninas coquetes, é um pouco o renascer do ambiente criado por Gainbourg e Birkin, se bem que isentas de fumo e de camisas de caxemira.
Sexuality é primeira grande surpresa de 2008.

Momento Mágico: L'Amour Et La Violence


Sebastien Tellier
Sexuality (2008) – Lucky Number

2008/02/07

Vic Chesnutt

Folkrock

Vic Chesnutt teve um acidente aos 18 anos de idade e ficou o resto da vida agarrado a uma cadeira de rodas e é pouco depois disso que decide agarrar numa viola e dedicar o seu tempo ao folk. Com uma enorme força de vontade começa a compor musica e escrever canções, lançando o primeiro disco Little em 1990, daí para cá 11 albuns. North Star Desert é o primeiro trabalho pela Constellation e Chesnutt teve a participação de uma autentica parada de estrelas indie, a saber: Thee Silver Mt. Zion Memorial Orchestra & Tra-La-La Band, Guy Picciotto (Fugazi), Howard Bilerman (Arcade Fire), Chad Jones & Nadia Moss (Frankie Sparo), Eric Craven & Genevieve Heistek (Hangedup), Bruce Cawdron (Godspeed You! Black Emperor,Esmerine) e T. Griffin (The Quavers), o resultado só podia ser um disco perfeito.
A voz de Vic Chesnutt é a principal arma deste novo trabalho, é fortemente peculiar, sonoramente calibrada e suficientemente afinada, de forma que tudo resulta num folk-rock intenso e luminoso, onde toda a parte instrumental encaixa como um puzzle.
North Star Desert é uma caixinha de surpresas: pode partir de uma ingénua e desconcertante melodia de dupla voz (Glossolalia); pode recorrer ao humor negro e altamente mordaz da sua escrita (You Are Never Alone); pode ser uma canção de alerta (Splendid); ou até pode ser pura perturbação psicótica, onde poderão nascer guitarras em pleno pranto (Debriefing ou Marathon).
Na musica de Chesnutt tudo é orgânico, natural e simples, não há espaços em branco, nem falta de luz, tudo flui de uma forma inata, como se o folk lhe corresse nas veias.

Momento Mágico: You Are Never Alone


Vic Chesnutt
North Star Desert (2007) - Constellation

2008/02/04

Bodies Of Water

Pop Vocal

A ressaca após Arcade Fire continua a dar resultados, são imensas as bandas que foram beber ao seu registo, para depois criar (uns melhor, outros nem por isso) o seu proprio estilo, apesar de usarem as mesmas cores, souberam pintaram com tonalidades mais ou menos intensas.
Os Bodies Of Water são californianos, o que atribui à banda e à grande maioria dos seus temas uma intensidade caracteristica, se bem que neste caso particular, não se deixem ficar presos a esse factor e partam à procura de paisagens mais frescas, mais naturais, algo fácil de alcançar para quem vive nessas paragens.
As referencias musicais da banda são imensas, para além dos mais do que obvios Arcade Fire, existem mais uns quantos nomes que vivem no mesmo hemisfério dos Bodies Of Water, estou a lembrar-me dos Polyphonic Spree pela sua eloquência ou mesmo uns The Go! Team pela vertente altamente festiva.
Ears Will Pop & Eyes Will Blink o primeiro trabalho, após um EP hómonimo onde já mostravam a sua garra. Abrir este novo disco “Our Friends Appear Like The Dawn” surge como um hino gospel, onde pairam vozes e vários instrumentos de sopro. “These Are The Eyes” é um vicio impressionante, agarra-se às entranhas do cerebro e faz-nos cantar e pular de felicidade como se não houvesse amanhã. Em “It Moves” existe uma pequena piscadela de olhos ao rock de uns White Stripes, terminando o tema numa enorme nostalgia coral. “I Guess I'll Forget The Sound, I Guess, I Guess” é um belíssimo tema, onde a paixão é cantada com todos os plumões. “Here Comes My Hand” é uma pequena guerrilha vocal entre os 4 elementos da banda, provando que a sua principal arma de guerra são as vozes.
Há uma componente gospel em quase todo o projecto, mas não ficaram a agarrados com correntes a essa vertente musical e ao libertarem-se dela conseguiram criar um universo pop verdadeiramente interessante, onde o bem estar e alegria em cantar transpira por todos os poros.

Momento Mágico: These Are The Eyes


Bodies Of WaterEars Will Pop & Eyes Will Blink (2007) - Secretly Canadian

2008/01/31

Yeasayer

Suor

Há uma paisagem nestas notas, é seca, quente e repleta de vastos campos de areia, à primeira vista poderá parecer um deserto, mas não, o que aconteceu foi que a metrópole levantou voo e aterrou algures no Norte de África poeirento. O constante equilíbrio entre o urbano e o tribal dá-lhe um toque de calor, um constante movimento de corpos suados, misturam-se com especiarias e fumos estranhos.
Os Yeasayer são uma banda de Brooklyn, dificilmente poderiam ser mais citadinos, esse habitat irá dar-lhes a criatividade suficiente, para produzirem um som arrojado, mas perfeitamente controlado, a divisão de sonoridades cola-os a uns Animal Collective ou mesmo aos Grizzly Bear, se bem que o resultado é um world-indie-pop.
Usam uma forma enigmática, mas bastante sofisticada de compor cada um dos seus temas, existe uma completa liberdade de criação, não estão a presos a normas ou regras. “Sunrise” é gospel do Grande Atlas; “2080” é pop de uma qualquer tribo centro africana; “Germs” é uma reunião de coros após um dia de trabalho.
All Hours Cymbals é um excelente trabalho de apresentação destes Yeasayer, banda que assume a sua posição dúbia, poderiam ser catalogados como world music, mas mim parece-me mais uma world band.

Momento Mágico: No Need To Worry


Yeasayer All Hour Cymbals (2007) - Now We Are Free

2008/01/28

Vietnam

Revivalismo

Vietnam é um nome estranho para uma banda e se por mero acaso a banda for nova-iorquina, o estranho eleva-se ao cubo, seja como for o importante é a música e é nela que me vou concentrar. Psychadelic rock dos anos 70’s, onde abundam e abusam as guitarras e os riffs, somam-se isto a voz de Joshua Grubb, que se aproxima imensas vezes do timbre de Bob Dylan, o resultado final são uns Black Crowes não tão obscuros.
O revivalismo hippie está presente a cada nota, a forma como tudo é edificado segue os rigorosos padrões de uma época, usam as formas de uns Led Zeppeplin quando querem mostrar trabalho de puro rock e os trejeitos de uns Velvet Underground quando querem demonstrar o seu lado mais arty.
Os Vietnam não tem qualquer intenção de disfarçar a sua veia de puros rockers, não estão preocupados com rótulos ou etiquetas, a música está quase toda inventada, o que por aqui se passa não trás nada de novo, limitam-se a baralhar as cartas e dar um novo jogo, enquanto escorre mais um gole de Bourbon.

Momento Mágico: Welcome To My Room


Vietnam
Vietnam (2007) Kemado

2008/01/25

Le Loup

Pseudo-Folk

A constante presença do som do banjo, poderia dar aos Le Loup uma roupagem exclusivamente country, mas toda a parafernália musical que circula à sua volta transforma som da banda num perfeito indie-folk. Poder-se-á acusar a banda de Washington DC nascida em 2006, de viver um pouco prisioneira do universo criado pelos Grizzly Bear e Arcade Fire, que nos dias que correm é mais uma constatação que uma acusação, mas penso que os Le Loup souberam aproveitar algumas das características de ambas e criarem um universo paralelo, muito mais ao estilo de uns Notwist ou de uns 13 & God.
Ao primeiro álbum The Throne of the Third Heaven of the Nations' Millennium General Assembly, os Le Loup usam folk experimental e electrónica q.b. aproveitando para continuar a extrair desse filão mais umas quantas pepitas de ouro, que depois de trabalhado irá ser transformado em pequenos belos lingotes.
Se há uns anos isto seria weird-folk, agora é quase passível de ser pop corriqueira, o que demonstra que para além da existência de uma linha de conduta que está a ser seguida por um sem numero de bandas das mais diversas correntes artísticas, há também um certo nível de inteligência que hoje marca as novas tendências musicais, não querendo ficar prisioneiras deste ou daquele género musical.
Todo álbum é rico em pequenos pormenores, desde do canto de pássaros “Canto I”, aos sons da mãe natureza “(Storm)”, a constantes jogos de harmonias vocais em “Le Loup (Not Fear)”. Mas o disco não vive só de pormenores, com “Planes Like Vultures”, “Look To The West” e “Outside Of This Car, The End Of The World!”, já há verdadeiras marcas de fogo, provando que os Le Loup são uma banda cerebral, usando com imenso cuidado e cautela tudo o que lhes tem chegado aos ouvidos. Excelente primeiro disco, banda a seguir com atenção.

Momento Mágico: We Are Gods! We Are Wolfes!


Le Loup - The Throne of the Third Heaven of the Nations' Millennium General Assembly (2007) – Hardly Art

2008/01/21

Radiohead

Ás Cores

Ao 9º álbum, os Radiohead regressam ao formato puramente pop/rock, assinando 10 temas inundados de beleza e sentimentos. In Rainbows é a amálgama de uma carreira, que já dura há duas dezenas de anos e ouvindo o disco em loop, fica a ideia que já não há nada a provar, os Radiohead fazem o que bem lhes apetecer. Não há normas, regras ou formatos, é tudo construído com paixão e dedicação minuciosa, existe uma atenção cuidadosa a todos os sons e a todos os ruídos, tudo é importante, tudo conta, tudo ilumina…
A subtileza criativa procura novos esquemas e novos espaços e o que para muitos é um caminho feito a medo, para eles é uma suave passagem, um lugar pacífico e é dessa forma que conseguem transições perfeitas, transposições temáticas e sonoras de uma eficácia atroz.
In Rainbows irá marcar também toda a música e respectiva indústria, a distribuição gratuita (ou remunerada à vontade de cada um) é o ponto de fractura, no futuro haver uma clivagem naquilo que em tempos foi um grande negócio. A partir de agora haverá um antes e um após In Rainbows. Com este passo de magia, os Radiohead deram o golpe final, na já moribunda indústria da música e transformaram uma relação que era altamente promíscua, numa bonita relação a dois (eles e nós).
Afinal fábula é mesmo verdadeira, no fim do arco-íris há um grande e enorme pote de ouro.

Momento Mágico: House Of Cards


RadioheadIn Rainbows (2007)

2008/01/19

The Mars Volta

De Volta

Dêem pulos de alegria aqueles que acham que o De-loused in the Comatorium é o melhor ou até o único álbum que gostam dos Mars Volta.
Os vídeos que eles disponibilizaram na internet faziam antever que o som voltasse às origens. Aquela energia que tanto os caracterizou está bem patente neste registo onde os experimentalismos ficaram de lado, ou são pelo menos mais discretos.
A dupla Cedric e Omar foi sempre muito forte em palco, com muitos malabarismos e sentimento no que estão a tocar, e penso que este álbum tem músicas que vão funcionar muito bem ao vivo.
Os Mars Volta estão de volta.

Momento Mágico: Goliath


The Mars Volta - The Bedlam In Goliath (2008) - Universal

2008/01/16

Ian Brown

Animal Politico

Passados que foram mais de 10 anos sobre o fim dos Stone Roses, a aventura pop continua. Nos finais dos anos 80, Ian Brown e mais uns amigos criam em Manchester a obra prima homonima The Stone Roses. E é com essa obra que se dá a explosão musical, que se veio designar por Madchester, movimento caracterizado pela fusão do indie-rock com a dance-music, onde para além dos já referidos Stone Roses, habitavam ainda os Happy Mondays, 808 State, James, entre muitos outros.
Mais velho e não tão expressivo como no passado, Ian Brown produz obras mais sossegadas, albuns mais reflectidos, o resultado tem sido uma carreira em camara lenta, sem grandes sobressaltos. The World Is Yours carrega tudo isso às costas, é introspectivo, é pensado, continua a manter a veia revolcionária de Brown, que desta forma continua a destilar e a descarregar sobre os mais diversos cenários politicos e sociais do presente.
O novo trabalho abre com “The World Is Yours” uma demostração de carácter e afirmação, orquestrado q.b., bem ao estilo de uns The Verve. Com “Eternal Flame” Ian Brown assina um tema cheio de estilo, compassado e relaxado. Em “The Feeding Of The 5000” Ian Brown leva ao extremo o seu método construtivo, apesar de imensamente simples, constanta-se que existe muito trabalho de laboratório. No dueto de Brown com Sinead O’Connor em “Illegal Attacks” é mostrado toda a sua vertente politica, relatando em forma de musica o problema Israelo-Arabe e respectivas explosões colaterais.
Ian Brown não morreu, está vivo e bem vivo, há que o continuar a escutar com atenção.

Momento Mágico: Illegal Attacks


Ian Brown
– The World Is Your (2007) - Universal/Polydor

2008/01/13

José González

Viagem Lo-Fi

José González saltou para a ribalta graças à inclusão do tema Heartbeats, presente no seu álbum de estreia Veneer, numa campanha comercial de um determinado tipo de televisores. Foi grande o hype gerado à sua volta, rapidamente alguns dos seus temas foram incluídos em séries de televisão (The O.C., Scrubs, One Tree Hill, etc) e todo este processo culminou com o convite feito pela dupla Henry Binns/Sam Hardaker (Zero 7) para que desse o seu contributo musical para o álbum The Garden editado em 2006.
2007 marca o regresso de José González com a edição do disco In Our Nature e para surpresa de muitos, que aguardavam uma alteração drástica no seu som, a prossecução da fórmula iniciada em Veneer. Aprofundando o estilo lo-fi, José González continua a confiar na sua guitarra, num bater de pés ocasional, num suspiro vigoroso (no final do tema In Our Nature) ou em algumas palmas fugazes, para nos transmitir “os aspectos mais primitivos do ser humano” (como o próprio fez questão de afirmar acerca da edição deste disco).
In Our Nature é uma viagem introspectiva, mais negro, explora os recantos mais sombrios da natureza humana com um tom magoado, basta ouvir o primeiro verso do tema de abertura “How Low” (“How low are you willing to go before you reach all your selfish goals?”) para se sentir um arrepio na pele.
“Down The Line”, “In Our Nature”, “Time To Send Someone Away”, “Cycling Trivialities” progridem nesse caminho reflectivo e constituem o núcleo duro deste disco onde o lo-fi, o pop, o rock, a bossa nova e o folk são as ferramentas eleitas por este “artesão” um dos poucos defensores da simplicidade do binómio voz/guitarra num mundo cada vez mais digital.

Momento Mágico: Cycling Trivialities


José González
- In Our Nature (2007) - Peacefrog

2008/01/09

Black Mountain

Renascer

Stephen McBean é um mestre fora do seu tempo, a forma como o domina a estrutura mais crua do rock, a maneira como desenha a sua vertente mais psicadélica, catapulta-o para um patamar onde vivem nomes eternos como os Love, os Velvet Underground, Led Zeppelin ou até uns Spacemen 3. Existe nele uma capacidade intrínseca, para criar temas carregados de sombras e fantasmas, todos eles habitando o lado mais negro da sua alma. Esta referencia exclusiva a McBean, é propositada, sem ele não existiam os Black Mountain, nem Pink Mountainstops, nem Jerk With A Bomb, ele é o corpo e alma destes projectos, não há como nega-lo.
Após o disco de 2005, os Black Mountain delimitaram o seu espaço, dando a actual cultura indie-rock, a possibilidade de poder caminhar por locais que se pensavam estar esgotados ou sem vida. Se no primeiro disco tinha ficado algo por dizer, com In The Future a odisseia continua cheia de vivacidade e energia, se bem que agora se percorrem águas mais calmas.
A abertura de In The Future é feita com “Stormy High” prog-rock em alto galope, “Angels” é uma calmaria generalizada, o mundo onde vivem os anjos. “Tyrants” começa com um intensidade brutal, um riff construído com enorme sabedoria, para à posterior desaguar numa luta de vozes, onde a presença da voz de Amber Webber (Lightning Dust) é a cereja em cima do bolo. “Queens Will Play” tem o formato tradicional de canção, perfeita no forma como cresce e intensa ao morrer. “Brigth Lights” é monumental, é um hino de quase 17 minutos onde vale tudo, onde todas as regras estão presentes, não existem fronteiras, o céu é o limite.
Os Black Mountain abriram o portal dos 70’s, os Black Mountain viajaram na máquina do tempo e produziram um disco enigmático e atmosférico, onde criaturas de pensamentos mais puros não tem lugar e onde renascer é sinónimo de nascer noutro tempo.

Momento Mágico: Tyrants


Black MountainIn The Future (2008) – Jagjaguwar

2007/12/30

2007 em Discos



António Antunes

01 Electrelane – No Shouts No Calls

Quando ser simples é sinónimo de eficácia. Fabuloso disco, maravilhoso concerto.
Tram 21


02 LCD Soundsystem – Sound Of Silver

O rock dança-se e a dança rocka-se…
North American Scum


03 Jens Lekman – Night Falls Over Kortedala

O Sr. Crooner…
Sipping On The Sweet Nectar

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Bruno Coelho

01 CaribouAndorra

Snaith + Pop + Psicadelic + Noise = Fórmula Perfeita.
Um turbilhão que faz a união perfeita entre a pop e o psicadelismo, com melodias que tomam conta do nosso estado de espírito.
Nunca fui a Andorra, não sabia que era tão bela.
After Hours

02 Radiohead - In Rainbows

Ouve-se em loop infinito sem nunca cansar.
Jigsaw Falling Into Place


03 Beirut - The Flying Club Cup

Doce.
Nantes

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Carlos S. Silva

01 Radiohead In Rainbows

Uma vez mais a banda excede as expectativas, um disco grande em todos os sentidos. Verdadeiros camaleões do rock conseguem em In Rainbows um dos alinhamentos mais fortes da sua carreira. Como será pertencer a uma banda que faz de cada edição discográfica um marco histórico?
House Of Cards

02 LCD SoundsystemSound of Silver

Poderoso
Get Innocuous!

03 The ShinsWincing The Night Away


Perfeito
Phantom Limb

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Edgar Domingues

01 Electrelane – No Shouts No Calls

Um disco e um concerto que deixaram as suas marcas.
In Berlin


02 BeirutThe Flying Club Cup

Um balanço de sentimentos agridoces ou uma festa de lágrimas e sorrisos.
A Sunday Smile


03 Map Of Africa Map Of Africa

Ou se ama ou se odeia.

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2007/12/23

Feu Thérèse

Canada-Dry

A invasão canadiana continua, desta feita os responsáveis são os Feu Thérèse. Com o “fim” dos Fly Pan Am, Jonathan Parant (guitarra e voz) parte à procura do seu novo projecto, e acompanhado por Alexandre St-Onge (baixo e electrónica), Stephen De Oliveira (teclados, electrónica, guitarra) e Luc Paradis (bateria), todos construem mais um edifício na chamada Montreal’s Scene. A forte influência das bandas francófonas (Arcade Fire; Sunset Rubdown; Final Fantasy) neste projecto é por mais evidente, se bem que a intensidade electrónica ao criar determinadas ambiencias faz o som dos Feu Thérèse ficar mais etéreo, mais gasoso.
“Nos Amours” é uma clone perfeito de Arcade Fire. Em “Visage Sous Nylon” e “Enfant” a guitarra de Parant produz brutais remessas de sons atmosféricos, um post-rock ambiental de grande elegância. “Bruit du Pollen La Nuit” surge como um cometa dos confins do universo e fica em rotação à volta do nosso cérebro, num constante vai e vem. “Va Cogner” visita uns Kraftwerk de uma forma indelével, entrando no seu jogo musical com direito a coro infantil e tudo. “Nuit Est Une Femme” é uma triste ode cantada a dois, transborda a amor não correspondido.
O pop escuro que nasce nos rituais de Ca Va Cogner sabe a anos 80, a dualidade francês/inglês dá necessária curvatura ao projecto, para se poder assumir como algo que fica no limbo, ali a meio caminho entre o céu e o inferno.

Momento Mágico: Bruit du Pollen La Nuit


Feu ThérèseCa Va Cogner (2007) Constellation

2007/12/19

Liars

Best of só com originais

Cada álbum de Liars é uma completa surpresa, uma peça única. Este não trouxe um novo som, mas um apanhado dos últimos três. Isto explica um bocado o título homónimo, ou seja, ao quarto registo fizeram um ponto de situação, um best of só com originais. Cada música deste álbum podia pertencer aos anteriores ou podiam ter ficado na gaveta para uma edição de b-sides, mas não, foram músicas feitas agora a piscar o olho ao passado.
Isto é Liars.

Momento mágico: Plaster Casts of Everything


Liars - Liars (2007) - Mute

2007/12/16

LCD Soundsystem

Mestre de Cerimónias

James Murphy é um homem do presente, constrói alicerces musicais perfeitamente contemporâneos, demonstrando com isso que o pop/rock, ao contrário do que muitos dizem, ainda está um pouco longe do fim da validade. Dois anos após a enorme surpresa, que foi o álbum de estreia “LCD Soundsystem”, Murphy e a sua equipa (Pope, Mahoney, Wiley e Gold) regressam com “Sound Of Silver”.
Este segundo trabalho era altamente previsível, tinham ficado imensas coisas por encerrar, tinha sido aberta a Caixa de Pandora e contrário do que reza a história, lá de dentro saíram temas fortemente dançáveis, algo que os New Order alguns anos nos tinham ensinado. “Sound Of Silver” é música que se dança, sem ser dance-music, é o regresso ao melhor que os 80’s e 90’s, é a grande prova que o rock ainda se dança, é electro-punk-rock puro e duro.
A constante mutação vocal de Murphy, que umas vezes se aproxima de Bowie e outras de Byrne, ao ser cruzada com toda a sua experiencia musical, vai fazer nascer Get Innocuos! uma pura repetição doentia de sons perdidos, Time To Get Away é alegria no seu estado mais genuíno, uma canção sem defeitos, North American Scum é mordaz. Com All My Friends há romantismo, há amor para todos. Mas é com Sound Of Silver que se resume todo este trabalho, há uma perfeita redundância, melhor que escrever é transcrever: “sound of silver talk to me, makes you want to feel like a teenager, until you remember the feelings of a real live emotional teenager, then you think again”… façamos o mesmo.
Sound Of Silver” é James Murphy no seu melhor, é espontâneo e imediato, não sofre pressão editorial, (aliás o próprio Murphy é o dono da DFA), é um disco livre e de liberdades.

Momento Mágico: North American Scum


LCD Soundsystem
Sound Of Silver (2007) - DFA

2007/12/12

Beirut

Passeio Europeu

Zach Condon, actualmente com apenas 21 anos, estreou-se nas lides musicais em 2006 com um disco irrepreensível. Lembrar-se-ão do furor que “Gulag Orkestar” provocou nas hostes da crítica mundial. Se uma certa aura de genialidade lhe seja já tão precocemente reconhecida, a verdade é que poucos acreditaram que neste ano tal façanha fosse repetida.
No entanto assim sucedeu e vai daí em 9 de Outubro passado foi lançado “The Flying Club Cup”. Neste registo, a viagem deste americano por terras europeias continua. Se no álbum antecessor toda a construção havia sido inspirada por paisagens Balcãs, neste o nosso rapaz navega abaixo e acima por um Sena em princípios do século passado, ainda que buscando grande parte da sua inspiração na obra de Jacques Brel.
Tem muito de “Gulag Orkestar” e não deixa de ser Pop/Folk. Pop de popular e Folk de Folclore, alternativo mas tão alternativo, que outra não nos resta senão ouvi-lo. Nesses instantes uma estranheza arrebata-nos, somos empurrados num balancé de sentimentos agri-doces, onde tudo parece perfeito mas algo não está bem. “The Flying Club Cup” soa a uma carta de amor lida pela primeira vez na boda de casamento, faz sentido e não faz.
É uma festa de lágrimas e de sorrisos, são os metais, as cordas, os sopros, e o órgão. Afinal, agora sim é uma orquestra. Perfeito.

Momento Mágico: A Sunday Smile


Beirut - The Flying Club Cup (2007) - 4AD

OUTRO PENSO por Antonio Antunes

2007/12/09

Burial

Raios!!!
Mas porque raio gosto eu disto???
Porque não sou eu uma pessoa, com gostos musicais limitados?
É que acreditem, era tudo muito mais fácil, ficava para ali no cantinho agarrado aos sons distorcidos de guitarras, ligava-me definitivamente ao rock e desligava de tudo o resto.
Mas não, tenho uma necessidade de complicar tudo.
Raios!!!
Burial já me tinha perturbado com o álbum homónimo de 2006, tendo passado imenso tempo a ouvir todos os contornos sonoros do chamado dub step e a tentar esmiuçar todos os seus sons e ruídos. Havia e há uma melancolia sonora que me lembra os anos 80 e toda a sua zona sombria inerente. Há negritude e queixume, uma permanente falta de luz.
Com Untrue tudo ganha um novo dinamismo, permanece o conceito, mas alguém acendeu a luz. Há um passo em frente, tudo fica mais orgânico, a introdução das vozes soul acrescenta-lhe muito mais que alma, surgindo corpo. A musica de Burial deixou de ficar prisioneira do etéreo e enterrou os pés na terra. Até onde agora havia um voo controlado, um planar sobre os verdes campos, passou haver um caminhar na praia, passou haver liberdade e romantismo.
Raios!!! Burial não é rock, é electrónica no seu estado puro e gosto muito.

Momento Mágico: Ghost Hardware


BurialUntrue (2007) – Hyperdub