2008/10/26

Buraka Som Sistema

Reinvenção e Ritmo

Eu devia ser diferente e não falar sobre estes gajos, mas a verdade é que não consigo. Ouvido algumas dezenas vezes, tenho de assumir que estamos perante um disco que vais marcar uma época e uma geração, e isto deve-se fundamentalmente a dois factores: reinvenção e ritmo.
Os Buraka Som Sistema não inventaram nada, mas conseguiram por mais roupa num género musical nascido em Angola, apoiados numa forte componente electrónica transfiguraram o kuduro. O trio lisboeta (DJ Riot, Lil’ John e Conductor) aproveita a atmosfera africana que os envolve e com um pequeno toque de genialidade, vão misturando toda uma parefernália de sons, desde do euro-tecno, ao hip-hop, ao kizomba, ao electro. O resultado esse, só poderia ser uma musica sem país e a formula parece ter resultado em cheio, visto os Buraka Som Sistema estarem nos ouvidos de toda a gente, desde Lisboa a Nova Yorque, passando por Londres ou Roma, é um fenómeno global perfeitamente merecido. Com Black Diamond o Buraka Som Sistema, partem a conquista do planeta.

Momento Mágico: Kalemba (Wengue Wengue)


Buraka Som Sistema
Black Diamond (2008) - Enchufada / Sony BMG


Buraka Som Sistema (site) & MySpace



2008/10/19

Tv On The Radio

Disco do Ano?????

Os dois anteriores álbuns (Desperate Youth, Blood Thirsty Babes – 2004 / Return To Cookie Mountain - 2006), foram amplamente aclamados pela critica da especialidade, sendo que na altura foram apelidados de “inovadores”, “reconstrutores”, “novos donos do post/rock mais experimental” e de mais umas centenas largas de cognomes. Quanto a mim não retiro uma só virgula, são ambos álbuns essenciais e será um pouco difícil compreender tudo o que se passou no mundo da musica desde 2000, passando ao lado de ambos os dois discos.
Logo que se soube, que se encontravam em estúdio, começou o adorável murmurinho de como seria o disco. Quando finalmente Dear Science viu a luz do dia, houve um misto de apreensão e de alegria, isto porque é diferente, podia-me por aqui a filosofar sobre se é ou não melhor que os anteriores, mas o que eu quero mesmo destacar é que Dear Science é um disco distinto dos 2 primeiros. E a que se deve esta distinção, esta diferença?
Os TV On The Radio abandonaram (um pouco) a sua costela mais rebelde-indie, criando um elementar disco de canções. Deixaram de parte as componentes electrónicas e os sons da maquinaria mais pesada, e com um toque de grande classe e charme aplicaram todo o seu saber no puro prazer de fazer canções, enfim puseram de parte o pret-a-portê e dedicaram-se á alta costura.
Dear Science é uma impressionante colecção de canções: “Halfway Home” o tema de abertura caminha pelo lado limpo da estrada, não há transito, nada preocupa, paira no ar a certeza da chegada (uma das melhores aberturas de disco que ouvi em 2008); “Crying” é meio termo entre o pop-jazz e as componentes mais electrónicas da soul music; “Dancing Choose” é TV On The Radio no seu melhor, jogos de vozes sónicos, irritação jazzistica q.b.; “Family Tree” é uma balada perfeita, tudo está no sitio, as vozes, a colocação instrumental, uma pérola que valeria todo o disco, felizmente não está só, está presente todo o colar.
A banda de Brooklyn sabe o que quer, sabe para onde vai, vive em perfeito estado de graça, gere a sua carreira de uma forma subtil, caminhando umas vezes pelo lado perfeito da via outras vezes indo em contra-mão, o resultado esse é sempre sublime.

Momento Mágico: Shout Me Out


TV On The RadioDear Science (2008) - DGC/Interscope


TV On The Radio (Site) & MySpace


2008/10/13

No Age

Outra Intensidade

Um ano é um instante, e se à primeira vista pode parecer muito tempo, o que acontece é que neste mundo da musica tudo é apressado e efémero. Já passou um ano, desde que mencionei por aqui o nome dos nome dos No Age pela primeira, eram há altura uns perfeitos desconhecidos nestas lides mais independentes da musica. Weirdo Rippers cumpriu perfeitamente o objectivo, era um disco eficaz e bem desenhado, pecava talvez por ser tão curto, o que fazia com que se abusasse da quantidade de audições praticadas, seja como for escuta-lo era um exercício delicioso (ler mais aqui).
Com Nouns os No Age assinam em definitivo um estilo e indicam o caminho que querem seguir. O noise continua disfarçado, o post-punk perdeu um pouco a largura de ombros, tudo ficou mais nítido, mais cerebral, há mais trabalho de casa, coisa que se reflectiu certamente numa melhor produção em estúdio. O que dantes poderia parecer elementar, transformou-se agora num primário intencional.
Nouns são 31 minutos de musica, repartidos por 12 temas, é um instante enquanto se chega ao fim e penso que esta é a principal imagem de marca dos No Age, directos a essência da coisa, cortam com tudo o que seja supérfluo e que ocupe espaço em demasia. “Miner” entra pelos ouvidos em ondas de eco, como se estivesse a untar o canal auditivo, para depois tudo entrar sem grandes danos. “Eraser” usa o mesmo estratagema, uma intro que dura quase meio tema, que vai desaguar numa guerra a duas vozes. O uso de apoio de pequenos sons electrónicos (ouça-se o inicio e o fim de “Teen Creep”), veio enriquecer o som dos No Age, indo ocupar o espaço que sobra entre a guitarra e bateria. A sequencia “Sleeper Hold” e “Here Should Be My Home” é No Age com um ano de idade, pura alegria de movimento.
Os No Age com Nous estão menos abrasivos, a intensidade do seu brilho ganhou outra cor, há mais requinte, o duo da Califórnia socializou-se.

Momento Mágico: Things I Did When I Was Dead


No AgeNouns (2008) - Sub Pop


My Space


2008/10/06

Woven Hand

O Pregador

Um dos maiores evangelistas da musica norte-americana, está de regresso. O permanente crescendo da sua voz, mantêm-se mais activo que nunca, continua a luta entre a pacifica calmaria do deserto seco e árido e vertente mais violenta dos seus versos. David Eugene Edwards parece (e nunca tanto como agora), estar definitivamente agarrado a este projecto, longe vão já os 16 Horsepower (banda essencial em todas as colecções), a temática essa mantêm a mesma… Deus vs. Homem. É desta forma que após o menos conseguido Mosaic de 2006, David Eugene Edwards apresenta o seu novo trabalho, Ten Stones e com ele volta a mergulhar nas raízes mais cavadas do alt-country, desenha um álbum intenso, austero e rude.
Ten Stones é enigmático no concerne á liturgia criada por Edwards, apesar de andar sempre á volta do simbolismo religioso, deixou de se tornar tão clara a mensagem, tudo está mais camuflado, mas negro, mais contido. Ouça-se por exemplo “Beautiful Axe” onde através do refrão se soltam gritos de “Joy has come, is risen with the sun… beautiful the axe that flies at me”; com “No One Stone” há uma curta viagem ás velhas escrituras; “White Knuckle Grip” entra a passos de galope, há que chegar rapidamente ao selvagem oeste, esse mundo povoado de pecados; seria um absoluto cliche afirmar “Quiet Nights Of Quiet Stars” como uma cover perfeita, o problema é que não consigo encontrar outra palavra para a definir.
David Eugene Edwards não tem medo, é um homem sem receios, caminha em direcção a Deus, canta afirmando-O e afirma-O cantando. (espero que não esteja enganado).


Momento Mágico: Iron Feather


Woven HandTen Stones (2008) - Sounds Familyre


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2008/09/30

The War On Drugs

Dois Tons

Os The War On Drugs nasceram em Philadelphia, Pennsylvania em 2003, encostados e apoiados no estilo folk de Dylan e pilhando o rock mais tradicional de Springsteen, formaram um banda de electro-americana. A introdução de guitarras planantes e riffs experimentais, tão típicas das bandas nova-iorquinas, veio contribuir para que banda partisse numa direcção deveras interessante, não se tendo auto-limitado, nem tendo ficado prisioneira de um estilo ou género. Wagonwheel Blues é um disco bipolar, transmite a quietude da pradaria americana e ao mesmo tempo inunda o espaço envolvente com as luzes intermitentes do neons da cidade. É urbano e rural e servindo-se dessa dicotomia auto-promove-se, deixando um rasto de curiosidade como se fosse um inebriante perfume.
A abertura de Wagonwheel Blues é feita com “Arms Like Boulders” no mais perfeito estilo folk-dyliano, sem pretensões ou ilusões; “Coast Reprise” tem um toque shoe-gaze quase primário, que faz o tema pairar, compondo um efeito delicioso; Os acordes de “There Is No Emergency” fazem desta canção uma auto-estrada de puro prazer; A pura diversão de “Show Me The Coast”, um longo tema que desperta no intimo de quem a ouve, a necessidade da chegada.
The War On Drugs lançam assim o seu primeiro grito e com isto, partem á procura de uma América a duas cores. Sendo que um dos tons (o mais escuro) é tradicional, nasceu nos campos, carrega aos ombros um passado de sofrimento e dor, em oposição temos o outro tom (o mais claro) citadino, contemporâneo, descomprometido, sem objectivo concreto á vista.

Momento Mágico: There Is No Emergency


The War On Drugs - Wagonwheel Blues (2008) - Secretly Canadian


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2008/09/25

Neon Neon

Refazer

O regresso ao passado é uma imagem permanente no universo sonoro, a necessidade de retorno ás origens, o recurso á simplicidade da estrutura musical, a saudade da electro-pop ou até mesmo o renascer do stylish-funk. Os Neon Neon projecto de Gruff Rhys (o guru da banda do País de Gales - Super Furry Animals) e de Boom Bip (um multi-instrumentista de Cincinnati, ligado à criação e produção de Hip-Hop e Rap), captam todo o espírito do anterior referido. Sulcando trilhos melódicos a meio caminho, entre a pop dos anos 80 e os sons contemporâneos de semblante mais urbano, fabricaram um disco feito de lantejoulas, sintetizadores e saltos altos.
Dentro de Stainless Style há uma imensidão de gestos e trejeitos de outras bandas, aliás não poderia ser de outra forma, os idos anos 80 foram (e serão) explorados até á mais ínfimo pormenor. É desta forma fortemente emocional e disparando em todas as direcções, que os Neon Neon fizeram de Stainless Style um passeio de imensos tons e cores. O deslumbre electrónico de “Neon Theme”, a colagem a The Cars em “I Told Her on Alderaan”, a alegre festividade de “Raquel”, o piscar de olhos funk em “I Lust U”, a perfeita textura electro em “Michael Douglas”.
Os Neon Neon não descobriram nada de novo, mas para além de se verificar que a fonte ainda não está completamente seca, é com imenso prazer que se descobre, que ainda é possível fazer e refazer uma época em grande estilo.


Momento Mágico: Belfast


Neon NeonStainless Style (2008) - Lex


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2008/09/20

Mystery Jets

Outros...

O charme libertado pela voz de Blaine Harrison, é intenso e fica a pairar no ar como se de um perfume se tratasse, tem uma marca própria, um timbre característico. Os Mystery Jets foram formados em Eel Pie Island (uma ilha do rio Tamisa) e foi nesse meio semi-isolado, que começaram a modelar a sua carreira. Ao conceberem Making Dens (2006) e Zootime (2007) os Mystery Jets superaram o difícil inicio de carreira com distinção, moldando assim dois álbuns de pop/rock bastante competentes. Com uma média acima da média e ano após ano, chega Twenty One e com ele, os Mystery Jets mostram estar num beco sem saída, a criatividade entra em ciclo repetitivo e não se constrói nada de novo, mas o que para muitas bandas é problema complicado, para outras não apresenta qualquer tipo de dificuldade.
Apoiados no produtor Erol Alkan, os Mystery Jets planearam um disco brilhante, agarraram o poder que a produção cuidada hoje tem e criaram uma boa quantidade de notáveis canções: “Young Love” (Ft. Laura Marling); Half In Love With Elizabeth; “Flakes”; “Two Doors Down” ou “Hand Me Down”.
A sonoridade dos Mystery Jets nasce do cruzamento de bandas dos 80’s e dos anos 00’s, misture-se bandas como os ABC, Talk Talk e bandas The Killers, Franz Ferdinand ou The Futurheads e aí está um som perfeitamente pop-rock, aliás o segredo dos Mystery Jets e deste novo trabalho, reside fundamentalmente na não formatação da banda, os temas vão surgindo uns atrás dos outros, sem grandes regras, sem grandes complexos, musica pelo simples prazer de o ser.
Os Mystery Jets não são nem pretendem ser, melhores que os outros, apenas se propõem a ser mais uns e se há muita gente que vê nisso um defeito, existe muito boa gente que interpreta esse dado como banal e corriqueiro, um direito perfeitamente legitimo que qualquer criador de musica tem.

Momento Mágico: Flakes


Mystery JetsTwenty One (2008) - Warner


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2008/09/15

Ane Brun

Desconhecida?

Ao terceiro disco de originais, Ane Brun tem que desaparecer do anonimato. A musica por si criada tem de ser conhecida pela multidão, há que a catapultar para o meio do povo. Ane Brun faz a sua musica parecer uma suave e calma onda, há uma constante quietude, uma perfeita bonança. Com ajuda de um piano e de uma guitarra acústica e recorrendo ainda a minúsculos arranjos de cordas, Ane Brun vai delimitando a sua área de acção.
Ane Brun nasceu na Noruega, mas vive já há alguns anos na Suécia e é das terras frias do norte, que esta songwriter vai arquitectando as suas doces melodias, formando temas de intensidade pop, sem nunca descorar o lado mais folk da vida. Há nos seus temas a intenção de marcar ritmos e cadências, como se toda a lógica musical fosse um simples caminho de terra batida, onde pouca gente passa e onde os arbustos e as demais ervas, vão conquistando terreno. Tudo é perfeitamente natural e inato, de nada serve estar com grandiosas eloquências, porque tudo regressa ao seu estado primário.
Treehouse Song” é a apresentação de Changing Of The Seasons e surge como uma sensível combinação de folk com pop de cariz rural, onde o ritmo lembra quase um ambiente country; a forma dedilhada e o piano triste de “Fall” surgem no horizonte, da mesma forma que o dia vai desaparecendo, vai ficar escuro, vai todo terminar, vai todo cair; “Puzzles” são fragmentos espalhados numa mesa e a tentativa frustrada da sua construção; “Ten Seconds” é pureza pop, decalque de voz, ladeada por um constante coro de vozes, enriquecido por uma imensidão de cordas.
Changing Of The Seasons é talvez a forma mais eficaz de ficar a conhecer Ane Brun, uma voz misteriosa de contornor cristalinos, um álbum de uma invulgar simplicidade, transmitindo do primeiro ao ultimo tema, uma invulgar paz de espírito.

Momento Mágico: Armour


Ane Brun - Changing Of The Seasons (2008) - Det Er Mine


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2008/09/09

Air France

Algures

Quando ouço falar da Suécia ou melhor, quando relaciono musica e Suécia na mesma frase, o que me surge de imediato na mente, é a palavra pop. Pode não ter nascido lá, mas foi por essas paragens, que a palavra pop-music atingiu o seu expoente máximo, sim refiro-me obviamente aos ABBA. Depois dessa explosão, não deve haver um único musico seco, que não tenha perdido o receio, de desenhar linhas pop ou construir harmonias perfeitamente solarengas. Aliados a uma forte componente electrónica, os Air France banda que nos chega de Gotemburgo, partem de um universo quase mítico, um mundo povoado por seres de várias cores e feitios.
No Way Down [EP] é o segundo trabalho dos Air France, composto por apenas 6 temas, a banda dá passos concretos e seguros, não pretende arriscar em demasia, sustenta a sua musica num electro-pop atmosférico, auxiliado por uma imensidão de samplers, vai criando pequenas bandas sonoras para curtas metragens imaginárias. “Maundy Thursday” usa cadências resplandecentes, transpira luz por todo o lado; “June Evenings” traz consigo o ambiente cosmopolita de ténues iluminações, é perfeita descrição de um ideal fim de tarde; “Collapsing At Your Doorstep” surge como um tema festivo, como se alguma coisa estivesse para nascer, é a preparação de algo que irá ser muito bom á posterior; em “No Excuses” as guitarras saltitantes vivem como se fossem uma pequena brisa, uma suave e quente aragem, é uma imensidão de sensações, lindíssimo.
No Way Down [EP] é perfeito na sua curta dimensão, é todo demasiado delicioso, não dando qualquer hipótese ao aborrecimento, funciona como um elo de ligação entre o actual momento e um local onde qualquer um de nós gostaria de viver.

Momento Mágico: No Excuses


Air FranceNo Way Down [EP] (2008) - Sincerely Yours


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2008/09/05

The Black Keys

Em Crescendo

O velho e sujo garage rock está de volta. Na verdade não andou desaparecido, enquanto vagueávamos pelas outras divisões do palácio, os Black Keys andavam a ler o manual, que alguém deixou esquecido na prateleira dos fundos. Com o The Big Come Up (2002), dá-se inicio ao projecto, apoiados no lado mais negro do blues, traçam um objectivo concreto, desenhar uma estrutura em duo e partirem de encontro ao lado mais cru da coisa. Auerbach (guitarra/voz) e Carney (bateria) definiram assim de uma única assentada o seu objectivo, fazer da simplicidade musica. Seguiram-se Thickfreakness (2003), Rubber Factory (2004) e Magic Potion (2006), sempre com o objectivo de cortês de marcarem um estado de alma, aperfeiçoando o mundo á sua volta, traduzindo em notas de musica a energia e o vigor que percorre as veias de ambos.
É com este engenho que chegam a 2008 e é assim que nasce Attack And Release. O novo álbum de Black Keys, é o mais apurado de todos os seus trabalhos, está perfeitamente lapidado, foi intensamente pensado, está mais dormente, bastante mais comedido e controlado, isto deve-se fundamentalmente ao mão mágica de Dangermouse.
Attack And Release vive para além do simples duelo entre dois músicos, é mais do que isso, os The Black Keys cresceram e é muito provável que nem tenham reparado e ao afastarem-se um pouco do produto original, souberam conquistar um espaço que é seu por direito. Tudo o resto é uma deliciosa e redonda mão cheia, de temas repletos de electricidade estática, a saber: “All You Ever Wanted”; “I Got Mine”; “Strange Times”; “Remember When (Side A)”; “Oceans And Streams”.

Momento Mágico: Things Aint Like They Used To Be

The Black Keys - Attack And Release (2008) – Nonesuch


The Black Keys (site) & MySpace

2008/09/01

The Black Angels

Saudável Repetição

O regresso á distorção equilibrada e ponderada, faz-se ao som Directions To Seek A Ghost o mais recente álbum de The Black Angels. Em Passover o excesso de riffs e as constantes deformações sonoras das guitarras, aproximam a banda de nomes como Jesus & The Mary Chain, Dinosaur Jr. ou até mesmo de uns Spacemen 3, com Directions To Seek A Ghost a banda torna-se mais introspectiva e mais soturna. Ao segundo álbum os texanos, levantaram o pé e produzem um disco melancólico, tristonho e nostálgico, deixam de viver num mundo a preto e branco, para agora se passearem num universo com imensos cinzentos.
Directions To Seek A Ghost puro Neo-Psychadelia, vai ao encontro dos ambientes criados por Black Mountain mas sem a mestria de McBean, penso que o ideal será arrumar este trabalho de The Black Angels, na mesma prateleira de Black Rebel Motorcycle Club, são imensos os pontos de contacto entre as duas bandas, desde as semelhanças vocais, ao efeito repetitivo e circular resultante do permanente arrastar de toda a componente instrumental.
Com Directions To Seek A Ghost os The Black Angels, marcam uma direcção, mas não vincam nem deixam uma grande marca, penso que terá sido propositado, já que tudo soa a uma perfeita descontracção sonora, onde tudo é feito com suaves nuances e tranquilas fusões entre rock e os ambientes perfeitamente psicadélicos.

Momento Mágico: Never/Ever


The Black Angels - Directions To Seek A Ghost (2008) - Light In The Attic
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2008/08/25

Okkervil River

2ª Parte

Com Black Sheep Boy fizeram-se notar, disseram um olá ao mundo e tornaram-se conhecidos. Decorria então o ano de 2005 e os Okkervil River assinavam um disco folk-country, repleto de negras paisagens rurais, onde o caótico se sobreponha á harmonia. Em 2007 surge a primeira parte deste disco duplo. The Stage Names começa a esboçar a intenção de se libertarem, daquela imagem mais sombria, com a qual eram conotados, com a chegada de The Stand-Ins (a segunda parte do duplo álbum) os Okkervil River construíram definitivamente uma clarabóia, através da qual pequenos raios de luz, vão iluminar o espaço cinzento e algo insalubre onde se movimentavam e cresciam.
The Stand-Ins mostra em definitivo uma banda mais aprumada, com ideias cristalinas e delicadas, onde se pratica um folk festivo e alegre “Lost Coastlines” é a perfeita imagem disto, suave e compreensível seja a nível musical ou a nível literário. “Singer Songwriter” tem um encanto precioso, alonga-se no tom descritivo, sem nunca perder a parte harmoniosa. Com “Blue Tulip” chega o cântico em forma de desespero, de inicio delicioso até à zona assombrosa.
Will Sheff e os seus rapazes de Austin, completam assim a segunda parte do álbum duplo. Somando The Stage Names e The Stand-Ins, resulta que a pop e a country-folk podem conviver no mesmo quarto, partilhar a mesma cama, sem existir uma necessidade de transformarem em amantes.


Momento Mágico: On Tour With Zykos


Okkervil River - The Stand-Ins (2008) - Jagjaguwar

2008/08/18

Richard Swift

Alma Soul

O mais recente EP de Richard Swift é um pequeno deslumbre. Swift é um facto consumado, já não espanta, já não causa qualquer surpresa. Swift é um rapaz sobredotado, vai construído a espaços (muito curtos, diga-se) tema após tema, vai esboçando a sua ainda curta carreira. Em 2008 já lançou uma colecção de temas com Richard Swift as Onasis, 20 temas correndo um pouco todos os géneros, um álbum para todos os sentidos.
Ground Trouble Jaw [EP] é um curto e delicioso passeio pelo lado mais soul do espírito de Swift. Requinte e apuro são a sua imagem de marca, não é preciso grandes revoluções nem uma grandiosa produção, basta ser dotado de uma voz competente e ter uma excelente capacidade para desenhar meia dúzia de temas. Ground Trouble Jaw [EP] surge vindo do lado mais negro de Swift, 5 temas inundados pelas águas mais turbas da soul americana. Com “Would You?” descobre-se que a voz de Swift, chega dos confins da alma e mesmo carregado uma imensa dor, chega apinhada de esperança. “Lady Luck“ é soul em formato virgem, tudo perfeito, tudo intocável. “The Original Thought” soa a poema dorido, é provável que tenha acontecido algo, Swift deixa transparecer algumas coisas, mas não tudo, fica a meio caminho do problema e de coisa nenhuma. No final do EP surge "A Song For Milton Feher", este sim um Richard Swift mais identificável, a praticar aquela sua folk-pop já tão caracteristica, feita de pequenos nadas.
Se por um lado Ground Trouble Jaw [EP] peca por ser curto (dura apenas alguns curtos minutos), por outro lado está disponível gratuitamente, o que não só é uma boa ideia, como se está (e ainda bem) a transformar num hábito. Ouvir/Tirar: AQUI

Momento Mágico: Lady Luck


Richard SwiftGround Trouble Jaw [EP] (2008)

2008/08/10

Oneida

Vacina em Dose Tripla (1ª Parte)

Como é que se escreve um pequeno texto, sobre um álbum que apenas tem 3 musicas? Fácil, muito fácil, o disco é dos Oneida.
Preteen Weaponry é a primeira parte de um triplico, que responde pelo nome de Thank Your Parents, após uma boa quantidade de audições, posso quase garantir que estamos certamente perante um trabalho de uma seriedade impressionante, pensado e repensado ao ínfimo pormenor. Preteen Weaponry é ultra hipnótico, agarrado á filosofia da electro-folk vai debitando toneladas de envolvimento eléctrico (guitarra e baixo), que com o perfeito apoio de toda a estrutura rítmica, desenha na perfeição um perfeito mundo psicadélico.
São apenas 3 os temas no álbum, Preteen Weaponry (Part 1), Preteen Weaponry (Part 2) e Preteen Weaponry (Part 3), ligados por desconfortáveis drones, carregados de simbolismo negro vindo das profundezas.
A forma com os Oneida delinearam esta primeira parte da triologia, prevê que o resultado final, seja um resumo intenso, da sua já longa carreira. Preteen Weaponry não é para todos os ouvidos, precisa de algumas audições dedicadas e de uma pré-disposição para o género.

Momento Mágico: Preteen Weaponry (Part 1)


OneidaPreteen Weaponry (2008) - Jagjaguwar

2008/08/05

It Hugs Back

Esperança

É uma simples e curta apresentação, aliás não passa de uma elementar recolha dos 4 singles já editados por esta banda de Kent, England, entre 2006 e 2008. Os It Hugs Back são três amigos, que passaram grande parte da sua adolescência colados a Sonic Youth, My Blood Valantine, Lush. O resultado é impressionante, bandas agarradas às influências atrás referidas, deve haver às centenas, o que distingue os It Hugs Back de todas as restantes, é a sua qualidade enquanto banda. A sussurrante voz de Matthew equilibra toda a estrutura musical, de forma que tudo parece uniforme e de uma simplicidade atroz.
Record Room – First Four Singles [EP] foi gravado de forma cronológica e uma das coisas que mais me chamou a atenção, foi a carácter e a marca deixada por todos os temas, há um contínuo e permanente talento, que dificilmente passará despercebido ao ouvido do melómano mais atento. “Little Steps”, “Saving”, “Sometimes The Sun” e “Soft Spot” são 4 pequenos diamantes, já completamente polidos e que apenas aguardam a exibição que merecem.
Record Room - First Four Singles [EP], não é mais do que a apresentação do longa duração, que irá sair muito provavelmente até ao fim do ano, aguardemos então…

Momento Mágico: Soft Spot


It Hugs BackRecord Room – First Four Singles [EP] (2008) - Phantom Sound & Vision

2008/08/01

Beck

No Caminho Perfeito

O rapaz prodígio está de volta. A idade já lhe atribui as características de um homem adulto, mas olhando com algum pormenor ainda vemos as feições de um jovem. A principal imagem de marca de Beck (a sua voz) está mais activa que nunca, continua rouca e penosa, mas ganhou contornos mais escuros, tornou-se misteriosa. Com Modern Guilt, Beck atinge definitivamente a maioridade, marca o caminho que quer percorrer, já não tem desvios gratuitos nem aventuras desnecessárias, tudo é pensado e trabalhado de forma a que tudo seja o mais perfeito possível. Modern Guilt foi produzido por Danger Mouse (metade dos Gnarls Barkley) e esse jogo de equipa resultou em perfeita mestria, todo o disco está repleto de pequenos toques e retoques, abundam os pormenores e os efeitos de produção.
Modern Guilt abre com “Orphans” é a perfeita pop-song. “Gamma Ray“ inunda tudo à sua volta, é super rápida, tem uma impressionante velocidade, tudo é feito e cantado em velocidade cruzeiro, em cadência cuidada. “Chemtrails” é puro shoegaze, voz em falsete que vai suportando toda a estrutura, até se dar a explosão rock, fortemente apoiada em todo o sector rítmico. “Modern Guilt” tem uma passada perturbante, que se desenvolve com uma cadência perfeita, terminando com um curto coro a uma só voz… perfeito.
Beck regressa em 2008 com um disco sem qualquer mácula, a única coisa apontar a Modern Guilt é a sua curta duração, tudo passa demasiadamente depressa, tudo se esvai rapidamente, tudo é efémero.

Momento Mágico: Modern Guilt


BeckModern Guilt (2008) - Interscope Records

2008/07/18

The Black Dog

Aromática Viagem

A nebulosa musical que surge no horizonte, logo que surgem os primeiros acordes de “Train By The Autobahn [Part 1]”, faz-me transpirar de uma forma exótica, não é apenas suor, é algo mais, algo subtil, qualquer coisa misteriosa.
Cheira a canela.
Poderia sem dúvida nenhuma atribuir, poderes mágicos à musica dos Black Dog, tal é a forma contagiante com que os pés necessitam de marcar o compasso, é irresistível, é arrebatador. Toda a ambiência climática evolve o ouvinte de uma forma tocante, são trombas de baixos, é a maquinaria electrónica, são as sequências rítmicas sem fim.
Cheira a caril.
O último trabalho dos Black Dog (o nono álbum) será provavelmente o meu álbum de electrónica de 2008, mesmo sabendo que é um grande risco afirmar tal coisa (ainda só vamos a meio do ano), vou tentar assumir e defender tal desígnio. Claro que tal tarefa se apraz de fácil cumprimento, isto porque Radio Scarecrow é sem dúvida o disco menos cansativo do ano.
Cheira a cravinho.
Train By The Autobahn [Part 2]” continua a sua caminhada, a sua viagem, acalmou, quase que se silenciou na transição entre temas, mas lentamente ganha novamente corpo, tudo volta ao normal, batida enigmática, fatal, descarga electrónica em perfeita compensação.
Cheira a pimenta.
Radio Scarecrow vai continuando a debitar decibéis de alta qualidade, pequenos oásis de som, pérolas de método, tudo vai continuando em sequencia perfeita, progredindo em ondas perfeitas, pode aqui ou ali surgir um ou outro tempo morto, mas no momento logo seguinte, tudo começa a fazer novamente sentido.
Cheira a Black Dog.

Momento Mágico: Train By The Autobahn [Part 1] & [Part 2]


The Black DogRadio Scarecrow (2008) - Soma

2008/07/14

Micah P. Hinson

Dorido Romance

O passado negro e quase sempre auto-destrutivo de Micah P. Hinson, deverá ser certamente uma das principais razões, para tão intensas desilusões, para tanto desengano, para um tão vasto universo de desapontamento. O romantismo de Hinson é arrastado e desgraçado, é doloroso, cruel e atroz. Todas as suas canções são hinos à lastima e ao sentimento mais penoso, musica criada após intensas feridas lhe terem dilacerado o coração.
Tell Me It Ain't So” surge na névoa como uma liturgia publica, um pedido de ajuda, a tentativa de ainda poder ser socorrido. Um violino e uma guitarra pode ser os melhores amigos, desde que combinados da forma correcta, “Sunrise Over The Olympus Mons” é a melhor descrição disso, os ecos sem fim da guitarra, contrastam na perfeição com a plenitude do violino, a sonolenta voz de Micah faz o resto. A simplicidade de “The Fire Came Up To My Knees” não é mais uma do que uma prova real, de que é possível criar canções sem grandes mordomias, basta um curto dedilhado de guitarra, uma voz potente e meia dúzia de palavras sentidas. “You Will Find Me” é fortemente cinematográfico, poderia muito bem viver dentro de um qualquer filme do Tarantino, tem um ritmo muito próprio, uma intro à anos 60, para depois andar enrolada em permanentes crescendos, pondo um pé no mais cru do folk e ao mesmo tempo nunca abandonar o espírito californiano.
…And The Red Empire Orchestra é puro folk de perfil rural, por onde se espraia a musica de Micah, é uma maquina de criação e transmissão de sentimentos, foi-lhe dando uma mordaz carapaça, onde ele agarrado á paixão e à dor de alma, vai gritando poemas de amor.

Momento Mágico: We Won't Have To Be Lonesome


Micah P. Hinson – “… And The Red Empire Orchestra” (2008) - Full Time Hobby

2008/07/11

Sigur Rós

Vikings

A destreza nórdica, que sempre distinguiu os Sigur Rós de todos os projectos feito de gelo, é a sua eficácia polifónica. Sentimentos frios e claustrofóbicos, gritos de desespero, melancolia soturna, hinos a preto e branco. Os Sigur Rós souberam sempre pintar paisagens apinhadas de emoções, todo o cosmos por eles inventado é uma imensa maré de esperança.
Os Sigur Rós usam o islandês em todos os seus temas, isso dá-me uma liberdade mental sem igual, posso abrir completamente o meu espírito e criar letras imaginárias, ir colorindo as imagens que se vão soltando a cada nota, a cada coro.
A abertura do 6º álbum de originais desta banda de Reykjavik, faz-se nas ondas de Animal Collective “Gobbledigook” é um tema alegre e fortemente festivo, o que poderia antever uma viragem de 180º na carreira até aqui desenhada pelos Sigur Rós, mas não com “Inní Mér Syngur Vitleysingur” começa lentamente a projectar-se as ambiências que tão bem os caracterizam. A partir daí é toda a escuridão regressa, voltam os sons lunares, as vozes sombrias “Góðan Daginn”, o pequenos ajustes musicais, as pequenas deduções de harmonia.
Með Suð í Eyrum Við Spilum Endalaust
(tradução para inglês: With A Buzz In Our Ears We Play Endlessly) é um disco dentro da linha mais clássica a que os Sigur Rós nos habituaram, pode aqui e ali sair um pouco da linha, mas examinando todos os seus contornos, rapidamente se pode concluir de que estão em excelente forma.

Momento Mágico
: Ára Bátur


Sigur Rós
- Með Suð í Eyrum Við Spilum Endalaust (2008) – XL Recordings

2008/07/05

Oceansea

Promissor

Munido da sua guitarra e agarrado à sua simplicidade urbana, um rapaz desenha a traços de carvão um EP a preto e branco, não existe a aspiração de fazer algo sublime, apenas a necessidade de criar, a urgência de divulgar.
Apesar de possuir outros projectos, Oceansea é o nome do projecto solitário de Daniel Catarino e o EP Songs From The Bedroom Floor... o seu primeiro trabalho. Gravado de uma forma elementar e sem grandes apetrechos Songs From The Bedroom Floor..., reflecte a calmaria típica de quem partilha mundos perdidos, universos de vozes ambulantes e dedilhados de guitarras melancólicas. Songs From The Bedroom Floor... [EP] ouve-se em crescendo, vai alimentado de uma forma subtil o ego de quem o escuta.
O suave suspirar de “The Whimsical River”, surge durante o levantar da neblina oceânica, é um autêntico misto de canto e de oração folk. Em “Breathing” há uma indestrutível força de vontade, um ameno grito de afirmação. O dia já vai alto quando “Over The Sun” lhe intensifica o brilho, confirmando-se que nem só de sol vive o homem. ”Seasons In The Rain” continua no mesmo formato, voz em duplicado, guitarra minuciosa. “Postcards From The Walls Of Sin” é um tema delicioso, bucólico, arrasta-se durante alguns minutos, está repleto de intenção de liberdade, de partir, quer definitivamente voar para bem longe.
Da mesma forma que Songs From The Bedroom Floor... [EP] peca por ser curto, fica no ar a sensação de dever cumprido, a proposta de trabalho foi cumprida e bem realizada, é muito provável que a intenção tenha sido esta, eu é que fiquei com água na boca.
A ouvir: http://www.myspace.com/oceanseamusic

Momento Mágico: Postcards From The Walls Of Sin


Oceansea - Songs From The Bedroom Floor... [EP](2008)

2008/07/01

Silver Jews

Paixão

Uma das coisas que mais prazer me dá, nesta coisa da musica, são as paixões inesperadas, aquele sentimento estranho de difícil explicação e de complexa justificação. Gosta-se (e muito) e pronto, é tudo quanto basta.
A banda de David Berman tocou-me a alma em 1998, alguém num acto de pura simpatia, alguém agarrou no American Water e disse-me: “ouve, acho que tem muito a ver contigo”… preciosa alma. Depois disso, parti à descoberta do maravilhoso mundo de Silver Jews, primeiro com Starlite Walker (1994) e logo de seguida com o The Natural Bridge (1996). Dessa data até hoje nunca mais perdi o fio à meada, Bright Flight (2001) e a obra prima Tanglewood Numbers (2005). E o mais interessante nesta caminhada, é que a intensidade aumenta de uma forma quase matemática, palavra a palavra, canção a canção, disco a disco, é a construção do cosmos “silveriano” a tomar conta do meu ser.
O mais recente trabalho dos Silver Jews, chega na altura em que a ressaca estava a ficar insuportável, a dependência provocada pela necessidade de uma nova dose de canções e de novos poemas de Barman é altamente dolorosa, com Lookout Mountain, Lookout Sea acaba a angustia e abre-se a esperança. “What Is Not But Could Be If” é a abertura perfeita, lenta, intensa, pacifica, é a antítese ideal de todo o disco. A “trilogia” alt-pop composta por “Suffering Jukebox”, “My Pillow Is The Threshold“ e “Strange Victory, Strange Defeat“ é de arrasar com a mais sossegada das almas, é impossível não tomar atenção, é ao mesmo tempo uma brilhante e demolidora sequência.
O sexto álbum de Silver Jews é musicalmente um tratado, transborda melodias rock-folk por todos os poros, é Cash, é V.U., é Dylan, um disco mais que perfeito, da mais exemplar banda da actualidade.

Momento Mágico: We Could Be Looking For The Same Thing


Silver JewsLookout Mountain, Lookout Sea (2008) – Drag Cit

2008/06/26

The Accidental

Verdes Campos

O folk imanado pelos The Accidental, tem contornos rurais, cheira a riachos e a fardos de palha, esboça um universo perfeitamente campestre, tudo é sossegado, tudo é pacifico. “Knock Knock” dá o pontapé de saída de There Were Wolves e surge como um convite ao mundo de The Accidental. Tudo parece surgir do nada, um leve bater à nossa porta, ao qual sem medo respondemos, abrindo a porta deixamos entrar uma corrente de fresco folk, que de imediato se espalha e inunda toda a casa dando-lhe uma luminosidade primaveril e um fabuloso e intenso cheiro a flores. Ouça-se por exemplo “I Can Hear Your Voice” que surge como um passeio a dois, através de uma curta estrada de terra batida, numa abafada tarde de calor.
Durante todo o sistema de estruturação musical, os ingleses The Accidental que nascem da união de 4 pessoas, na qual se destacam Stephen Cracknell (The Memory Band) e Sam Genders (Tunng), vão usando regras e normas repletas de antecendentes musicais. Saltam à vista e chegam-nos aos ouvidos nomes com Iron & Wine, Espers ou White Magic, a norma folk de perfis perfeitos, sem mácula, sem desvios, está tudo lá, vozes sobrepostas, acordes sobranceiros, percussões em complemento.
There Were Wolves
é um disco de imagens, está inundado de paisagens, de pequenos tiques e cliques. Há como uma intenção de normalidade, tudo caminha para o sossego perfeito, todos os rios desaguam no mar, o dia nascerá outra vez amanhã, eu respiro, tu respiras… esmerado, porque é simples.

Momento Mágico
: Illuminated Red


The Accidental
There Were Wolves (2008) - Thrill Jockey


2008/06/22

Fuck Buttons

Circular

A propagação sonora dos primeiros minutos de “Sweet Love For Planet Earth” (o primeiro tema do primeiro álbum de Fuck Buttons) é fortemente psicótico, aliás chega a ser quase psiquiátrico, surgem milhares de drones por todo lado e querem ficar a viver à força no recanto mais escuro do nosso cérebro. É uma pura rajada cósmica que durante 9 minutos, nos amotina o estômago, nos massacra toda a estrutura óssea. É uma imaculada implosão de sensações, uma demonstração cabal que é possível estoirar, com tudo o que está previamente convencionado. “Ribs Out” alimenta a esperança em conseguir sair deste inferno, em que se tem transformado o mundo á nossa volta. É genuíno grito tribal a combinar com a réstia de fé, que ainda vai sobrando em cada um de nós, uma espécie de angélicos missionários em desespero de causa. O episódio seguinte “Okay, Let's Talk About Magic”, adensa ainda mais a parte negra do universo dos Fuck Buttons, é um puro buraco negro, atrai toda a massa á sua volta, nada sobra, toda a luz é por ele absorvida, o que está para lá ainda ninguém sabe. A confiança retorna às primeira batidas de “Bright Tomorrow”, vagueia-se meio caminho para depois e após uma intensa batalha de ruídos, se retornar ao ponto de partida.
Se no inicio do disco se destrói toda a estrutura, com os loops de “Colours Move” chegamos à alma, ao espírito da coisa, só que infelizmente (ou talvez não) a esta altura, todos os sectores deixaram de estar ligados entre si, pouco ou quase nada sobrou, resta apenas uma pequena e suave névoa no horizonte, no ar ficou apenas a pairar a ideia, de que logo que tudo o pó desapareça, ser possível voltar a edificar tudo novamente.
Brits Andrew Hung e Benjamin John Power, assinam um potentíssimo disco de estreia, não é um disco dócil, não é um disco fácil, não é um disco para todos, é preciso abraçá-lo, é preciso compreende-lo. O fundamental é ouvi-lo com imensa atenção, o importante é dar-lhe espaço, o que é realmente necessário, é quebrar barreiras mentais e sonoras.

Momento Mágico: Sweet Love For Planet Earth


Fuck ButtonsStreet Horrrsing (2008) - ATP Recordings

2008/06/18

American Music Club

Dourado

Não sei o que irá acontecer até ao fim de 2008, mas os American Music Club ao apresentarem o seu novo disco The Golden Age, assinam um dos melhores discos do ano. Mark Eitzel e companhia, continuam o seu percurso, uma suave caminhada dentro slowcore de contornos folk, onde o lirismo é uma arma e a orla musical é o perfeito fio condutor.
Ao desembrulhar The Golden Age, a primeira luz que brilha é “All My Love” um arrastado tema de amor, carregado de ténue esperança e forte delicadeza. “The Victory Choir” é pop talentosa, sem qualquer tipo de grandeza, apenas mostrar que é tão fácil ser simultaneamente simples e fascinante. “The Sleeping Beauty” é percorrer luminosas planícies, é estar acordado e sonhar profundamente, é a busca do beleza interna.
Produzido por Dave Trumfio (Wilco/My Morning Jacket) que fazendo uso de toda a sua experiencia e técnica, foi levantando a obra de uma forma subtil e suave, dando corpo a uma colecção de temas, onde nostalgia, melancolia e desgosto, vão casando na perfeição com as guitarras acústicas, com as harmonias requintadas, com a voz melosa e pastosa de Eitzel.
Os American Music Club vão aparecendo e desaparecendo de cena, gostam de estar e de não estar, o universo musical e todo o star-sistem não é o seu mundo, mas penso que é este permanente ligar e desligar, que faz deles uma estupenda banda.

Momento Mágico
: One Step Ahead


American Music Club
The Golden Age (2008) - Merge Records

2008/06/14

Resposta Simples

Puro e Duro

O formato já há muito que foi criado, a dificuldade está em conseguir inovar, para isso será necessário agarrar no mesmo barro e ir pouco a pouco desenhado o objecto pretendido. Foi a isso que se propuseram 3 amigos, que munidos de imensa força de vontade, formaram os Resposta Simples. O power-trio açoreano já com 5 anos de existência, lida com enorme à vontade quer com toda a construção musical, quer com todo o sector vocal. É assim que vão edificando um universo penetrante e incisivo, o resultado são torrentes de energia, rasgos de potencia e toneladas de raiva em formato hard-core.
Sonho Peregrino é o álbum de estreia dos Resposta Simples, 9 temas de puro e duro hardcore cantado em português, coisa que é pouco habitual nestas andanças, aliás o mais normal é esconderem-se por detrás da língua inglesa e assim tentarem passar despercebidos, muitas vezes ocultando a mensagem. Ora os Resposta Simples não o fizeram, criaram uma banda com nome português, editaram um disco com titulo em português, escreveram e cantaram canções em português, podem não ser o pioneiros, mas são certamente dos poucos a fazê-lo.
Tema após tema Sonho Peregrino vai debitando cargas de decibéis, ao mesmo tempo que vão transmitindo ideias e ideais. “Meias conversas para mim não servem… Quem quiser mudar tem de uma atitude tomar…” ouve-se em “Atitude (começar de novo)” ou “Como podes criticar se estás sempre a falhar?” em “Descanso Eterno”, são exemplos que há contexto para lá das notas musicais.
Há muitos anos que uso uma máxima, o problema nunca é dos discos, nem das bandas, a existir alguma dificuldade ela está sempre nos nossos limites, nas nossas fronteiras musicais, nos nossos ouvidos… por isso, deixem de ser duros de ouvido, Sonho Peregrino é isso tudo, não é um disco para meninos, é um disco para rapazes/homens de barba rija.
Para ouvir e encomendar:
http://www.myspace.com/respostasimples
http://www.impulsoatlantico.com/

Momento Mágico
: Genocídio Cultural


Resposta SimplesSonho Peregrino (2008) – Impulso Atlântico

2008/06/10

Animal Collective

4 Músicos, 4 Temas

A paranóia colectiva, a destruição de tabus, o constrói-destroi dos Animal Collective é uma delicia. É óptimo quando uma banda rompe o star-sistem e faz o que lhe vai na alma, não ligando patavina às regras, às normas vigentes. Fazem assim porque gostam, fazem assim por são assim. O EP Water Curses é isto tudo, é Animal Collective na sua perfeição, continuam o seu passeio imunes a tudo e a todos, delineiam um caminho e com passos exactos pintam numa tela todas as cores disponíveis e é nela que estampam a sua pop psicótica, encharcada de micro sons e constantes revoluções sonoras.
Este EP é a forma ideal para conhecer, o que é, quem são, os Animal Collective. Ao longo de 4 temas expõem toda a sua potencialidade e todo seu (mau) génio. 4 músicos, 4 temas, não sei se foi intencional, mas consigo separar 4 perfeitos universos neste Water Curses, como se cada tema fosse a face de cada um dos seus elementos, assim sendo temos:
Water Curses” com toda a personalidade de Avey Tare (David Portner); “Street Flash” é puro Panda Bear (Noah Lennox) coros intensos e torrentes de ecos; “Cobwebs” mostra a minúcia de Geologist (Brian Weitz) ao comando de todos os botões e parafernálias electrónicas; por fim “Seal Eyeing” mostra Deakin (Josh Dibb) talvez a parte mas serena, a zona mais tranquila de Animal Collective.
O EP Water Curses mostra que tudo vai no bom caminho, que índole paranóica da musica dos Animal Collective continua em forma, que tudo persiste, que tudo segue a rota anteriormente projectada.

Momento Mágico: Street Flash


Animal CollectiveWater Curses [EP] (2008) - Paradise Recordings

2008/06/05

Bon Iver

Sofrido

Bon Iver é um sofredor, mas sofre com prazer, é uma alma solitária com corpo físico e é com o espírito destroçado que desenha For Emma, Forever Ago. Justin Vernon aka Bon Iver constrói temas musicais recorrendo a dois simples factores, musicalmente agarra-se ao folk-acustico, enquanto em relação às palavras agarra-se à poesia ou seja estamos perante o perfeito songwriter. Bon Iver com esta perfeita voz em falseto, com esta guitarra sempre em permanente penar e rodeado por este clima sombrio e nebuloso, vai narrando histórias de amor não correspondido, paixões impossíveis, separações dolorosas, onde pouco espaço há para a alegria e para os dias claros.
For Emma, Forever Ago inicia o seu árduo caminho com “Flume” uma longa caminhada por dias amargurados, onde há muito o sol já não habita, o tempo ficou imóvel naquele preciso momento em que o dia termina e a noite ainda não acordou. “The Wolves“ é um místico coral gospel, submergido por vozes em ruína, onde o isolamento é uma imagem perfeita, a solidão só pode fazer bem. A entrada de “For Emma” faz-se ao som de uma guitarra transversal, antevendo uma música com algum sol, mas logo se transforma novamente num dia carregado de nuvens cinzentas. Bon Iver pode-se arrumar na mesma prateleira, onde vivem nomes como Iron & Wine, Elvis Perkins ou Sparklehorse, dividem todos o mesmo intenso aroma da América profunda, daquele país que raramente é divulgado nos folhetos turísticos.
For Emma, Forever Ago é profundo e sentido, consegue ser ao mesmo tempo negro, mas também ser intensamente luminoso.

Momento Mágico: Creature Fear


Bon Iver
For Emma, Forever Ago (2008) - Jagjaguwar

2008/05/31

Major Dick And Captain Woody

Rudimentar

As águas do Mondego, devem ter sido algures na sua historia, possuídas pelos deuses do Blues/Rock, só assim consigo justificar, esta coisa que corre nas veias de muitas das bandas que nascem em Coimbra. Nomes como Tédio Boys, Bunnyranch, Legendary Tiger Man, WrayGunn ou até mais recentemente Sean Riley & The Slowriders, partilham todas a mesma pauta musical, todos usam a mesma linguagem de comunicação. Aponto 3 razões para isto: o reduzido tamanho da cidade de Coimbra; á forte amizade que sempre existiu entre todos os melómanos da cidade e à Rádio Universidade de Coimbra (RUC).
Os Major Dick And Captain Woody é o mais recente nome a acrescentar a esta já longa lista. Penso que a principal característica, deste novo duo de Coimbra seja a coragem, isto porque agarraram a parte mais crua do rock e de uma forma impressionante simples, arquitectam uma alma melódica bastante convincente. Após ter visto 2 ou 3 concertos da banda, tinha ficado um pouco desmotivado e isto resultava em exclusivo da confusão sonora que os Major Dick And Captain Woody conseguem produzir em palco, onde só como muita atenção se consegue separar a voz dos restantes instrumentos, coisa que penso que irá melhorar com o passar do tempo. Foi assim que com algum espanto que ouvi e absorvi Sure To Boogie. Ao primeiro EP, a banda consegue mostrar que ainda há imensas coisas a explorar, que há um mundo novo de ideias e de sons a experimentar.
Shake Your Ass N’Say Yeah” o primeiro tema deste EP, chega-nos aos ouvidos com uma cadência eléctrica que faz lembrar uma locomotiva descontrolada, onde apenas há partida e chegada. “Coke And Whiskey (Everyday)” é a alegoria de uma noite sem fim. O disco termina com “Beer Me Up” o primeiro tema da banda, onde se nota o quanto já evoluiu o projecto. Se parece haver um longo caminho a percorrer, também se nota que há imensa vontade e potencialidade para o fazer.
Encomendas/Audição via myspace: http://www.myspace.com/majordickcaptainwoody.

Momento Mágico: Work In The Can


Major Dick And Captain Woody
Sure To Boogie [EP] (2008) – Edição de Autor

2008/05/25

The Last Shadow Puppets

Eurovisão

Alex Turner é o vocalista e guitarrista, de uma das bandas de maior sucesso dos anos 00’s, os Arctic Monkeys, Miles Kane andou pelos The Rascals e pelos The Little Flames, uma amizade de vários anos foi dando corpo aos The Last Shadow Puppets. A banda possuí uma sonoridade fortemente retro, são bem visíveis as influencias dos crooners (Scott Walker, Nick Cave, David Bowie), o universo Festival da Eurovisão está patente em todo o disco.
Os arranjos comandados por Owen Pallett, que trabalhou com Arcade Fire, Beirut e outros, dá uma roupagem muito característica ao som dos The Last Shadow Puppets. O resultado final tanto pode ser uma mistura de pop de características simples, como logo de seguida usando uma carga cinematográfica bastante intensa, nos podem conduzir ao longo de uma auto-estrada de emoções e sensações.
Na produção de The Age Of The Understatement é a London Metropolitan Orchestra, a principal responsável por todas as sumptuosas orquestrações e são eles que ao longo das varias audições, nos vão ajudar a construir imensos cenários mentais. Ao ouvir este primeiro trabalho dos The Last Shadow Puppets, viajamos sem sair do sitio, um convés de luxuoso paquete numa qualquer viagem a um país exótico (“Standing Next To Me”), um jogo de roleta rodeado de belas mulheres (“Seperate and Ever Deadly”), um baile onde o galã faz a corte a mais bela das damas (“Black Plant”) ou até mesmo aquela perigosa perseguição do 007 ao mais vil dos inimigos (“The Age Of The Understatement”).
The Last Shadow Puppets é um agradável e fresco passeio aos anos 60.

Momento Mágico: Meeting Place


The Last Shadow PuppetsThe Age Of The Understatement (2008) - Domino

2008/05/17

Foals

Simples e Directo

O mundo pop tem destas coisas. Rituais que se repetem ano após ano, não se cria nada de novo, não surgem novos sons, não se inova um milímetro que seja. E como eu gosto disto. Um mundo musical perfeitamente descomprometido e sem necessidade de esforços mentais.
Os Foals são tudo isto, directos, discretos, banais e isto é tão bom, faz-me sentir tão bem. Preciso desta coisas simples. Antidotes é estrutura pop pura, está repleto de temas claros, manifestos de fácil admissão e de espontânea adição.
A banda de Oxford (England) usa os mesmos recursos de uns Bloc Party ou Klaxons e usam o rock ao estilo de uns Artic Monkeys, o resultado é uma amálgama sonora de contornos dance-punk, o que satisfaz de uma forma discreta.
Antidotes inicia com “The French Open” e “Cassius” silhuetas de contornos ska, onde a formula rítmica ganha o controle de toda a estrutura musical. Com “Olympic Airways” há um nítido olá à pop. “Electric Bloom” resume tudo o que foi dito anteriormente, singela e eficaz, objectivo pop perfeitamente cumprido. O timbre de voz de Andrew Mears, é talvez a única coisa que dá uma característica única aos Foals, tudo o resto apesar de residual, é festivo e de fácil compreensão.
Foals é musica pela musica, simples, directa e eficaz.

Momento Mágico: Big Big Love (Fig. 1)


FoalsAntidotes (2008) - Transgressive

2008/05/11

Cut Copy

Fantasma Colorido

Musica electrónica e musica orgânica, já não é a primeira vez que a união, entre ambos os estilos consegue fazer todo o sentido. Os Cut Copy agarram no mundo electrónico, adicionam-lhe instrumentos convencionais e o resultado é uma amalgama de musica dançável.
Os Cut Copy e a sua electro-pop chegam da Austrália e 4 anos após o debut álbum Bright Like Neon Love (2004), surge o mais que esperado In Ghost Colours (2008), pelo meio houve um disco de misturas gravado ao vivo no formato DJ Set, com o nome de Fabriclive.29 (2006).
O movimento australiano dentro da pop-dance/electro-pop, encontra-se no momento ao rubro, nomes como os Cut Copy, Midnight Juggernauts, The Presets, etc, põe a grande ilha do pacifico a rodar um pouco por todo lado.
Os Cut Copy não são inovadores, coisa que não está ao alcance de todos, de qualquer forma não me parece que tenha sido essa a sua intenção. O seu principal objectivo foi reformarem um género e dar-lhe uma nova roupagem, vestirem-na com enorme elegância, penso que o conseguiram. In Ghost Colours é um disco de fácil digestão, o apelo ao leve bater de pé é uma constância, chegando muita vez a não ser o suficiente, existe muitas vezes uma irresistível necessidade e de movimentar todo o corpo.
A abertura de In Ghost Colours faz-se com “Feel The Love” um perfeito ritual pop, “Lights And Music” é um dos grandes temas do álbum um tema directo e eficiente,” So Hauted” é uma mescla rock de contornos quase disco, “Hearts On Fire” é puro pop-dance imaculado, “Far Away” é club dance para amantes de rock.
In Ghost Colours é um disco para toda a gente, para os amantes de pop-rock e para os simpatizantes de musica electrónica de contornos mais pop. Um disco perfeito para as noites ao ar livre.

Momento Mágico: Hearts On Fire


Cut CopyIn Ghost Colours (2008) - Modular Interscope

2008/05/05

Dead Combo

Alma Portuguesa

Usando o western, o dark-folk, o tango bandido ou os acordes mais simples de um blues doloroso, os Dead Combo conseguem construir um som com alma portuguesa. A existência desse espírito permanece intacto, devido a forma como entrelaçam o som triste do fado, com todas as referências anteriormente referidas. Há um universo de constante partida, a musica dos Dead Combo é um permanente cais de embarque, o que é talvez uma das principais características dos portugueses, um continuo “estou de partida”.
Lusitânia Playboys é o terceiro disco de originais deste duo lisboeta, constituído por Tó Tripes (Guitarras) e por Pedro Gonçalves (Contrabaixo), durante os 15 temas deste novo trabalho, permanece o fio condutor que os trouxe até 2008, a mistura das ambiências de Enio Morricone com o mais fino extracto do aroma da música portuguesa, o perfeito matrimónio entre a portugalidade e o resto do mundo musical. A forma como cruzam a guitarra e o contrabaixo dá ao som de Dead Combo um minimalismo sombrio, a única coisa que sobra a pós a sua completa audição é a ideia de espectro sonoro, algo que sabemos que existe, mas não se consegue ver, pura e simples fé musical.
Da lista de participações em Lusitânia Playboys constam nomes como Howe Gelb, Kid Congo Powers, Carlos Bica, Alexandre Frazão, etc., todos eles ajudam a divulgar aquele que eu entendo como um dos projectos portugueses, com maior capacidade para a internacionalização. Com Lusitânia Playboys os Dead Combo, provam que o filão por si descoberto tem imenso para explorar, existe muito a escavar e a mostrar, as pepitas vão sendo descobertas e vão sendo apresentadas a um público cada vez mais sedento.
Lusitania Playboys está todo disponível em: Dead Combo - MySpace confirmem, é um favor que fazem a vocês próprios.
A portugalidade tem som, tem alma, tem corpo, mas não se vê.

Momento Mágico: Cuba 1970


Dead ComboLusitânia Playboys (2008) - Universal

2008/04/27

Lykke Li

Beleza Nórdica

Nas terras da Escandinávia a produção musical e a quantidade de bandas e projectos musicais, toma uma proporção fora do comum, se tivermos em conta o ratio populacional. Para pouco mais de 9 milhões de habitantes, são imensos os projectos musicais, uma breve pesquisa na net e encontramos nomes com Acid House Kings, The Cardigans, Club 8, Wannadies e claro os responsáveis por toda esta explosão os incontornáveis ABBA.
Lykke Li é uma jovem (21 anos) rapariga loura, de voz aveludada, muito na linha de uma Stina Nordenstam / El Perro Del Mar, aliás podiam ficar todas muito arrumadinhas na mesma prateleira. A sua voz açucarada é de fácil adição, fica-se quase literalmente colado as finíssimas franjas vocais, á sua cristalina claridade vocal. A completar temos uma produção musical de excelentes contornos, apinhada de pop-chic, repleta de electrónica simpática e de fácil digestão.
A abertura do Youth Novels é feito com o “Melodies & Desires” um tema altamente que pisca o olho ao universo de Laurie Anderson, a suave declamação interage na perfeição com a electrónica que lhe serve de apoio. “Dance, Dance, Dance” surge embrulhado num perfeito presente, o qual ao abrir vai libertando um agradável aroma ritmado. “My Love” é uma ode romatica em loop. Little Bit” é uma das pérolas de Youth Novels, a confirmar aqui.
Youth Novels é o debut álbum de Lykke Li, é o seu cartão-de-visita, o seu olá ao mundo, numa altura em que a produção musical é mais que muita, conseguir despertar a atenção já é por si só um ponto de vitória.

Momento Mágico: Complaint Department


Lykke Li
Youth Novels (2008) - Msi Music/Super D

2008/04/21

Cloud Cult

Território Pop

Quando se iniciou nestas andanças Craig Minowa, o principal mentor de Cloud Cult, começou a solo, andava certamente à procura de alguém ou de algo. Os primeiros anos de trabalho resultam em dois discos para a editora Orchard, Who Killed Puck? (2001) e They Live On The Sun (2003) e ambos possuem um item em comum, são demasiado psicóticos, parecem padecer de problemas mentais, tentam libertar fantasmas e outros receios. Com Aurora Burealis (2004) os Cloud Cult ganham uma vertente pop e partem à conquista do espaço a quem tem direito. Seguem-se mais dois álbuns Advice From The Happy Hippopotamus (2005) e The Meaning Of 8 (2007), a partir daqui o caminho já está completamente traçado, há já uma linha condutora do que se pretende fazer, há um nítido marcar de território e ao fazê-lo não estão a tentar distanciar-se, mas antes tentarem encontrar linhas de conexão. É desta forma que se podem cruzar com Cloud Cult, nomes como The Flaming Lips, Wolf Parade, Okkervill River.
Em 2008 chega novo disco, o que até nem admira, Craig Minowa deve passar o dia a compor música atrás de música. Feel Good Ghosts (Tea-Partying Through Tornadoes) é uma misturada de géneros e estilos, tudo flui e tudo se funde, há um ponto de partida pop, mas depois tudo pode acontecer. A abertura do disco faz-se ao som de um teclado psicadélico, que tanto parece um piano ou órgão endiabrado, a partir daqui o acontece é uma pura oração pop muito ao estilo da Polyphonic Spree. Com "Everybody Here Is A Cloud" é afirmado o mundo que os Cloud Cult querem habitar. "When Water Comes To Life" é uma canção bastante teatral, há nevoeiro emocional, uma espécie mundo fantástico a descobrir. "May Your Hearts Stay Strong" é tema belíssimo, obedece a construção normal da pop, a permanente duplicação vocal faz-me lembrar uns Band Of Horses. Tudo isto termina com hino ao amor, "Love You All" é a forma triste de acabar um disco alegre.

Momento Mágico: The Will Of A Volcano


Cloud Cult - Feel Good Ghosts (Tea-Partying Through Tornadoes) (2008) – Rebel Group/Earthology

2008/04/14

MGMT

Hype?

MGMT encarnam o espírito do rock electrónico de uns Mew, caminham nas mesmas pegadas dos The Knife e dão um subtil encosto aos Of Montreal, sendo que este é o pormenor, que mais despertou os meus sentidos. O que resulta de toda esta balbúrdia de referencias, é um álbum apinhado de sons da transição 80/90, electro-punk acompanhado por uma voz disco-funk, uma espécie de “Gibb Brothers on ectasy”.
Não há nada de novo no mundo de MGMT, é um puro baralha e volta a dar, digo isto sem qualquer pretensão critica, apenas quero tentar justificar, que este constante mudar de roupa de certos géneros musicais é altamente louvável e neste caso conseguem mesmo ligar o botão de “hype” dos mais distraídos. MGMT é uma versão menos sofisticada de Of Montreal, está quase tudo lá, falta talvez a psicose doentia que tão bem caracteriza o universo de Kevin Barnes. Se em MGMT temos canções, em Of Montreal temos mantas de retalhos, se em MGMT temos construção musical, em Of Montreal temos desconstrução…
Sendo Oracular Spectular o debut de MGMT, Ben Goldwasser e Andrew Van Wyngarden, devem ter ficado surpreendidos com a velocidade a que tudo aconteceu, de um momento para o outro, todo o mundo quer saber deles, toda a gente os quer ver ao vivo. Oracular Spectular é simples e directo, entra no ouvido sem grandes complexos, não precisa de grande esforço mental, apenas de um momento de boa disposição, se tivermos atenção e escolhermos o momento preciso, tudo ficará sorridente á nossa volta.

Momento Mágico: Kids


MGMT - Oracular Spectacular (2008) - Red Ink/Columbia

2008/04/07

Cat Power

As Canções dos Outros

Chan Marshall é uma senhora com voz de menina. É dona de voz que transpira, aquela suave rouquidão carrega toda a imagem de mulher sofredora, paciente, mas que ao mesmo tempo é apaixonada e se esforça para arrebatar os corações mais duros.
Num passado relativamente recente (The Cover Records (2000) – Matador) Cat Power, já tinha optado por gravar um disco de versões, desta vez volta à carga e repete a graça, o resultado é Jukebox (2008) - Matador. Se no primeiro caso quase todo o disco se desenrola, numa vertente pop-folk, com este segundo cover-album a intenção é descrever caminhos mais tortuosos, mais dolorosos, para isso recorre ao soul, ao gospel e ao rock introspectivo.
Cat Power criou em nós o hábito, de a escutarmos como uma pequena songwriter. De guitarra em riste, trauteia canções melancólicas, inundadas de sentimento, onde pouco espaço há para a alegria espontânea.
Com Jukebox essa imagem intensifica-se, descobre-se uma senhora dona do seu nariz, sabe o que faz e gosta de o fazer bem. O disco inicia-se que a versão “New York, New York” de Ebb e Kander, imortalizada por Frank Sinatra, a que Cat Power constrói a imagem de cabaret de 2ª, apinhado de lugares vazios. Ramblin’ (Wo)man é blues em modo sadcore. Existem dois temas no disco, Metal Heart e Song For Bobby (escritos pela própria) que mais são que duas piscadelas de olho, a quem só agora se cruzou com a obra de Cat Power. Lost Someone é uma pérola, aliás foi com este tema que despertei para este disco, fica o link Lost Someone (Live At Later..), palavras para quê… A versão de Joni Mitchell é a calmaria total, com Blue a suavidade vocal casa na perfeição com o som do teclado, entrando por um mundo de sombras e amenas carícias.
Sem ser um soberbo disco, Cat Power consegue alcançar e assinar o livro de presenças de 2008, editando uma obra de agradável sedução. Jukebox é encantador e cativante.

Momento Mágico: Blue


Cat PowerJukebox (2008) - Matador

2008/04/01

Goldfrapp

Ainda Não Foi Desta

Um dia houve uma menina gira, que formou uma banda gira e com uma forma estranhamente subtil cantou, tocou e produziu uma pequena obra-prima, foi logo adorada pelos fãs e todos os críticos se prostraram a seus pés. Esta história que se poderia contar, quase toda no feminino tem um estranho equilíbrio masculino, que faz bascular todo o sistema de uma forma ordenada. O elemento masculino responde pelo nome de Will Gregory, e a menina gira é Alison Goldfrapp, a obra-prima essa chama-se Felt Mountain. Ora como em todas as histórias de encantar, o ideal é que vivam felizes para sempre e tenham uma enorme prol e em relação a isso até nem nos podemos queixar, senão vejamos: Black Cherry (2003), Supernature (2006) e por fim Seventh Tree (2008).
Acontece que como em todos os contos, aguardamos sempre por um final eternamente feliz ou pelo menos que o episódio seguinte mantenha o mesmo nível de interesse, de forma a queremos sempre mais. Ora com os Goldfrapp isso não tem acontecido, tem sido uma carreira de experiencias, se descuramos o primeiro disco, os Goldfrapp tem passeado pela pop corriqueira, pelo electro de contornos manhosos, chegando mesmo a criar temas de dança em formato “feira popular”.
Para os amantes de Felt Mountain, cada vez que sabe que vão gravar novo disco, lá se levanta o entusiasmo, lá volta a esperança, lá surge um enigmático sorriso, só que de ano para ano todos estes sentimentos estão a ficar mais ténues, estão a tornar-se completamente desbotados.
Com Seventh Tree voltou a acontecer o mesmo, expectativas elevadas, esperança, o dizer mais uma vez “agora é que é”. E desta vez quase que me enganaram, aos primeiros acordes de “Clowns” fiquei com a sensação que agora sim voltaram acertar, só que é mesmo só isto, de seguida voltam ao formato insosso e sem sabor “Little Bird”, “Hapiness” é o tema orelhudo do disco, “Road To Somewhere” é pop sonolenta a caminho do vazio, “Eat Yourself” e “Some People” são quase iguais e não fazem falta e assim sucessivamente até ao ultimo tema.
Seventh Tree é o (meu) o corte final, é muito provável que não haja próxima vez para Goldfrapp. Ah… a menina gira do início da história continua cada vez mais gira….
Vá lá, ainda se safa alguma coisa.

Momento Mágico: Clowns


Goldfrapp
Seventh Tree (2008) - Mute

2008/03/24

Portishead

Terceiro

Na semana em que passam por Portugal (26 Março – Coliseu do Porto / 27 Março – Coliseu dos Recreios) são já enumeras (rádio/net/myspace) as formas de contacto com os primeiros odores daquele que é provavelmente um dos discos mais aguardados dos últimos anos. Senhores e Senhoras o Third de Portishead.
A mítica banda de Bristol está de volta aos escaparates, 11 anos após o álbum homónimo e 14 anos após a obra-prima Dummy. O primeiro medo a vencer, foi tentar quebrar o longo espaço temporal que existe entre o disco de 1997 e este novo trabalho. 11 Anos é muito tempo, e se muitas vezes o tempo pode ser um bom conselheiro fazendo com que tudo seja visto e revisto até à exaustão, o mais normal é acontecer precisamente o contrário. No caso em questão a passagem dos dias, meses e anos, foi bastante benéfica.
Os Portishead regressam cheios de boa vontade e com uma força inimaginável, a voz de Beth Gibbons continua maravilhosamente bela, é intenso o seu brilho, carrega toneladas de nostalgia, padece de um constante desespero, há algo na sua voz que me atraí de uma forma irresistivel, é um permanente convite a clonagem, um eterno canto que diz: “funde-te em mim”.
Third é um disco brilhante, perfeitamente produzido e composto de forma imaculada, nada falha, tudo está no sítio certo, existe a exactidão de um relógio suíço, cada nota, cada verso, cada loop, cada canto…
Sério candidato a disco mais perfeito do ano.

Momento Mágico: Magic Doors


Portishead
Third (2008) – Mercury/Island

2008/03/17

The Kills

Disco-Rock

VV é americana, Hotel é inglês conheceram-se algures num concerto e desde daí “apaixonaram-se” e desse amor nasceram 3 descendentes, a saber: Keep On You Mean Side (2003); No Wow (2005) e o herdeiro mais novo Midnight Boom. A banda de Alison Mosshart e Jamie Hince, os The Kills sempre nos habituaram ao garage-rock de contornos negros, onde o punk é visitado com simpatia e cortesia. Neste novo trabalho a todo este cocktail som, vai acrescentar-se uma nova vertente musical o electro.
Com a mistura de um novo ingrediente, a musica dos The Kills ganha uma nova vida, uma nova estética e passa a ser altamente contagiante. Com esta nova faceta, com esta vertente electro os The Kills ganham um corpo altamente sexy (para qual a imagem de VV contribui bastante) e passam a carregar a imagem de um bela modelo de disponível a quase tudo.
Midnight Boom é Electro-Punk-Rock, está carregado de uma dinâmica própria, tanto pode ser uma quase paranóia cénica-vocal “U.R.A. Fever” com laivos de Trent Reznor, como logo de seguida pode uma intensa canção em desespero em “Tape Song”, com “Last Day Of Magic” reconhecemos uma PJ Harvey em inicio de carreira ou então caminharem pelos mesmos trilhos de uns The White Stripes em “M.E.X.I.C.O.C.U”.
A única coisa apontar a este novo trabalho, é permanente sensação de serviço incompleto, parece que fica sempre algo por contar, o que neste caso funciona na perfeição para captar a nossa atenção, existe um contínuo chamamento, um falso álibi, não sei se foi propositado, mas funcionou com grande requinte.

Momento Mágico: Getting Down


The Kills
Midnight Boom (2008) - Domino

2008/03/10

El Perro del Mar

Volátil

A áurea que cobre a cabeça de Sarah Assbring aka El Perro del Mar, é feita de pop sublime de uma fineza impressionante, como se fosse feita de nobre cetim. El Perro del Mar chega-nos das regiões frias da Suécia e com ela chega também aquela subtil forma de criar pop de alto valor calórico. Ao 3º disco El Perro del Mar, começa a marcar um estilo, um costume, é dona de várias características perfeitamente reconhecíveis, a forma como sussurra, o constante desespero que impõe aos seus temas, aquela tentativa de tentar transformar num organismo vivo as notas musicais.
From The Valley To The Stars, é um exercício de pormenores, a pop de contornos urbanos em “How Did We Forget”, a duplicação vocal em “Inner Island”, o convite à oração em “Happiness Won Me Over”. São 16 pedras preciosas, umas ainda em estado bruto, outras já lapidadas de primorosa.
Há uma religiosidade permanente em From The Valley To The Stars, que dá às paisagens gélidas um universo de convento ao ar livre, onde se pode passear sem ter de cumprir rituais, apenas o simples e singelo prazer de ver as nuvens a formar formas.

Momento Mágico: Do Not Dispair

El Perro Del Mar - From The Valley To The Stars (2008) - The Control Group

2008/03/04

Jonquil

Melodiosos

Os ambientes soturnos e sombrios, onde vivem criaturas alienadas e por onde vagueiam almas penadas e sem rosto, é local de procriação dos Jonquil. Estar a enumerar as influências, desta banda de Oxford (UK) seria uma autentica cruzada, visto os Jonquil soarem a milhentas coisas diferentes. De qualquer forma, tentar descobrir um fio condutor nesta imensidão de formulas e receitas, o resultado tenderia a ser o pop-folk.
Existe sentimentos a rodos nos dedilhados das guitarras, há uma norma romântica em cada nota que se solta do acordeão, as vozes hipnóticas que ecoam a cada estrofe dão alento e transmitem um ébrio calor, que soam perfeitas para os dias de primavera que se avizinham.
Lions é a tomada de consciência dos Jonquil, uma banda nova como muitas outras, mas com um nível de qualidade fora do comum, seriam imensos os exemplos, mas temas como “Sudden Sun” repleto de uma alegria transbordante, onde o cheiro a primavera explode de uma forma subtil; “Lions”surge como um hino quase épico, anunciado a boa nova (seja lá ela qual for); “Subtle Strains” é uma linda melodia, pautada por um lento crescendo.
Apesar de Lions ter passado um pouco despercebido, os Jonquil são uma banda com um enorme futuro, é esperar para ver.

Momento Mágico: Whistle Low


Jonquil Lions (2007) – Try Harder

2008/02/28

The Bird and The Bee

Dias de Verão

The Bird and The Bee é um grupo formado em 2006, no sul da Califórnia, pela cantora Inara George e pelo multi instrumentista Greg Kurstin, unidos no gosto comum pelo jazz e pelo tropicalismo começaram a trabalhar em 2006, ano em que publicam o seu EP de estreia Again and Again and Again and Again, que abriu caminho à edição em 2007 do disco de estreia The Bird and The Bee.
É um disco inspirado, ao qual já se seguiram dois EP’s, igualmente encorajadores, Please Clap Your Hands (2007) e One Too Many Hearts (2008) representativos da prolífera criatividade desta dupla.
Não posso deixar de transcrever a frase publicada pelo grupo na sua página do MySpace a respeito da forma como descrevem o seu som “A futuristic 1960's American film set in Brazil...”, com efeito a bossa nova, o jazz e a pop são os denominadores comuns ao longo dos dez temas, uma mistura inesperada que origina um disco repleto de melodias doces, dotado de múltiplas camadas sonoras, onde as vocalizações sincopadas de Inara George e a atmosfera opulenta anunciam a chegada do Verão.
Como é que eu descrevo este disco? The Bird and The Bee é um dia de Verão, em que o sol nos leva até à praia, é um mergulho numa onda refrescante, é sentir as gotas de água a escorrer no corpo, é uma brisa que alivia o calor escaldante, é a languidez de um pôr do sol estival.
Ficaram curiosos? Descubram este disco...

Momento Mágico
: I’m a Broken Heart


The Bird And The Bee - The Bird And The Bee (2007) -
Blue Note Records

2008/02/23

Maps

Renascer

O shoegaze volta e meia faz das suas e vai renascendo aqui e ali, de uma forma espontânea e natural, há um passado que não interessa esquecer e há ainda imensa gente a explorar as manias e manhas deste pop quase espacial. Os 90’s estão aqui a cada acorde, as guitarras em constante choro, as vozes sussurrantes, a bateria perfeitamente compassada, o uso das teclas como acompanhamento coral. O projecto etéreo de James Chapman, não esconde as suas influências e é com enorme facilidade que surgem no horizonte nomes como Spiritualized, My Bloody Valentine, Ride, The Stone Roses ou M83.
We Can Create consegue de uma forma simples, mostrar que é possível recriar sons passados, sem entrar em saudosismos idiotas, mesmo que para tal tenha de usar as mesmas regras e as mesmas fórmulas, porque no fim a única coisa que interessa é mesmo só a música.
Com Maps não precisamos de GPS, não estamos perdidos, apenas fazemos uma curta incursão nos anos 90, não há que ter vergonha do quanto o shoegaze soava bem, é verdade que os anos passam e tudo vai mudando, mas também é verdade que recordar é viver (onde é que eu já ouvi isto?)

Momento Mágico: It Will Find You


MapsWe Can Create (2007) - Mute