2009/03/22

:papercutz

Suave Mescla

Foi a ouvir o tema “Ultravioleta” inserido na compilação “Novos Talentos FNAC”, que reparei no singular nome :papercutz, ficou-me por essa altura então, cravado na mente as amenas e meigas ondulações electrónicas, tudo rematado com uma voz intensamente quente. Passado que foi o prazo de validade de um “novo talento”, os :papercutz tomaram a decisão (mais que acertada), de caminharem sozinhos pelo mundo fora, e após assinarem pela editora canadiana (Apegenine Recordings) lançam Lylac, o seu álbum de estreia.
Lylac é um planisfério de sensações, apoiado na pop de cariz electrónica, os :papercutz traçam um quadro onde a amálgama de cores e ruídos, vai transmitido uma dupla sensação, de um dos lados do espelho temos a canção pop, do outro lado temos a inovação e a estrutura experimental. É nesta suave mescla, que os cintilantes musicais da banda ganham corpo e é através desse dialogo, que ao longo de 13 temas, se vão expondo ideias e ideais.
Lylac nasce com um curto intro, para logo de seguida se atirar sem receios ao seu objectivo, com “All We Have Left” marca-se o primeiro ensaio, é incrível a sua objectividade e a destreza vocal de Melissa Veras. O misterioso mundo de “A Secret Search”, não é mais que procura de algo ainda não completo, há uma espera, um aguardar que a coisa ganhe definitivamente corpo e alma. Em “Broken Treasure” desfilam perante os nossos olhos, uma imensidão de soltos sentimentos, procura-se o algo palpável, algo que dê sentido ao objecto, busca-se a esperança entre a repetitiva cadência. Ao deixar correr “Lost Boys” encontramos o compasso exemplar, toda a estrutura do tema desenrola-se com uma exactidão cuidada e modelar, tem o perfil correcto para single. Uma palavra especial para “Para do Outro Lado do Espelho” e “Ultavioleta”, onde o matrimónio entre a língua de Camões e o cosmos de :papercutz se fundem admiravelmente. “…Is Fading” surge no horizonte com a promessa de sequência, ficando no ar um suave aroma a continuidade, é nosso dever ficarmos atentos.
No meio de tanta edição de musica, é bem agradável conhecer projectos que são muito mais do que isso, com :papercutz a ideia de a musica não se esgota nela própria, há uma transfusão de concepções e percepções entre o autor e o ouvinte, e quando assim é todos nós ganhamos.
P.S. – Uma palavra especial ao soberbo art-work do CD. Lindissimo.

Momento Mágico: A Secret Search


:papercutzLylac (2008) Apegenine Recordings


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2009/03/15

Antony & The Johsons

Elegância

The Crying Light é o terceiro trabalho, de uma das personagens mais estranha da pop contemporânea. 4 anos após I’m A Bird Now, Antony Hegarty e os seus rapazes, regressam ás canções de uma forma ainda mais subtil e se até aqui se planava sobre o universo pop, com The Crying Light há um maior aprofundamento da vertente clássica.
A vertente mais brilhante de Antony, fica agora ainda mais despida, já não há qualquer espécie de inibição criativa, tudo é claro e transparente, a única coisa que sobra é o seu minimalismo inventivo. O piano e voz única de Antony, são a estação de partida para esta viagem, ao longo deste trajecto há alguns apeadeiros onde a intervenção sublime dos The Johnsons, ajudam a criar uma mágica atmosfera recheada de eloquentes arranjos de cordas.
The Crying Light é um disco choroso, mais inundado de esperança, há muito mais do que mera e simples melancolia. É um disco elegante e poderoso, ao longo de 10 temas Hegarty celebra a vida enquanto essência fundamental de um futuro que se prevê duro, mas para o qual nos devemos manter em permanente alerta, acreditando que só poderá existe um único rumo, que é o da confiança.

Momento Mágico: Dust & Water


Antony & The Johnsons - The Crying Light (2009) Secretly Canadian


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2009/03/05

Bat For Lashes

Regresso Anunciado

3 anos após Fur & Gold, o melancólico timbre da voz de Natasha Khan está de volta e este regresso serve para chamar atenção, de muitos daqueles aquém o nome Bat For Lashes pouco ou quase nada significa. Há em Two Suns um maior nível de concentração, existe um esforço mais reflectivo, ambas conjugadas irão resultar numa voz ainda mais perfeita e cristalina.
Com Two Suns, Khan liberta na totalidade os seus poderes, deixou de haver receio de comparações ou de colagens, assumiu o seu poder enquanto mulher e agarrado com força a sua bandeira, gritou ao mundo o seu verdadeiro valor. Ao longo de 11 temas vai caminhando pelo trilho que desejou construir, apesar da imensa coragem ainda precisa de apoio e para isso contou com a participação dos “brooklynianos” Yeasayer e do mestre do crooner negativista Scott Walker.
Há em Bat For Lashes uma intenção, que ultrapassas a simples ideia de projecto musical, é bem mais que isso, há um perfeito tratado no feminino, um conceito de mulher enquanto luz, enquanto fonte de energia.

Momento Mágico: Pearl’s Dream

Bat For Lashes - Two Suns (2009) - Astralwerks
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2009/02/24

Timber Timbre

A fina linha traçada por Taylor Kirk é de tal maneira aprazível, que o resultado do seu trabalho é uma sublime paisagem desenhada a carvão, um pequeno cosmos, um minúsculo mundo pintado a preto e branco, onde a eficácia da sua música, responde através de uma banal equação, em que os dois factores fundamentais são o tradicional e a simplicidade.
Um canadiano a cantar blues desta forma tão intensa, não é certamente uma coisa comum, mas a verdade é que Taylor Kirk liberta o seu lado espiritual, conjugando-a com exactidão com a vertente folk de cariz terrena, desta química musical surge um ambiente onde o religioso e pagão se cruzam, sem nunca se tocarem.
A abertura de Timber Timbre é feita com “Demon Host“ onde um energético piano vai descobrindo os diversos panoramas circundantes; “Lay Down In The Tall Grass” percorre o mesmo caminho de quem sofreu as amarguras de uma vida dura, caminho esse feito de dificuldades e dores múltiplas, mas onde a esperança é um farol que ilumina cada um dos nossos passos; “I Get Low” é uma ladainha acompanhada por um longínquo órgão, numa sequência trágico/magica; Com “Trouble Comes Knocking” Kirk demonstra todo o seu enorme potencial artístico, é o tema onde melhor veste a roupa de blues-man, vestimenta essa que lhe serve na perfeição.
Timber Timbre é fortemente cinematográfico, cria climas musicais onde facilmente se edificam paisagens rurais, usa para isso um hipnotismo muito próprio, centrado na voz e na forma arrastada como trata todos os instrumentos. Taylor Kirk é um nome a tomar em consideração para o futuro.

Momento Mágico: Trouble Comes Knocking


Timber TimbreTimber Timbre (2009) – Out Of This Spark


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2009/02/13

It Hugs Back

Aprendizes

Os Sonic Youth sai uma escola de vida, melhor ainda, os Sonic Youth são uma verdadeira instituição norte-americana de música, nasceram e cresceram a destilar o verdadeiro american way of life, dentro da musica independente. Ao longo deste já longo período, tal e qual um cometa foram deixando um longo rasto de luz, e como qualquer astro celeste foram influenciando uma imensidão de gente. Os It Hugs Back apesar de serem uma banda inglesa, fazem parte desse universo indie depressivo, um mundo de guitarras arrastadas, vozes sussurrantes e descompressão rítmica. A banda de Kent liderada por Matthew Simms desde da sua fundação, corria então o ano de 2006, tem lançado ao longo dos últimos anos diversos singles, na qual foram mantendo uma linha estética bastante uniforme. Com a chegada de 2009, surge então o primeiro álbum, que foi editado pela enorme 4AD, o que fará com que a visibilidade (bem como a responsabilidade) dos It Hugs Back seja de valor acrescentado.
Nos primeiros acordes de Inside Your Guitar, ouve-se “Q” um tema liberto de esperança romântica arrastando ao seu redor um agradável aroma a Jesus & Mary Chain; “Work Day” é uma canção pop-rock perfeita, vozes e instrumentalização impecáveis, um requinte de tema; com “Remenber” mostram o seu lado melancólico, um ritual quase nocturno, um autêntico oceano pacífico. Uma banda a seguir com imensa atenção.

Momento Mágico: Back Down


It Hugs BackInside Your Guitar (2009) – 4AD


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2009/02/05

Odawas

Terrenos

The Blue Depths apresenta uns Odawas, numa índole substancialmente mais terrena, onde o ambiente presa pela segurança e pelo conforto. Até aqui tínhamos conhecido uns Odawas dentro do post-rock experimental, ondulados aqui e ali por algumas marés de rock sinfónico. Com a edição do 3º álbum a banda de Bloomington (Indiana), surge na paisagem pop uma atmosfera mais cristalina e mais brilhante. Com o nascer dessa nova inclinação estética, surge tambem a vertente romatica, que apesar de não ser completamente desconhecida, se encontrava bem camuflada.
Os Odawas caminharam em direcção ao planeta pop, sem deixarem descurar o ambientes mais sombrios, daqui resulta por um lado um piscar de olhos a uns Band Of Horses no que concerne a estrutura vocal, enquanto que a motivação instrumental continua o lo-fi folk de uns Iron & Wine a marcar pontos. A estrutura marcadamente melancólica deixa um suave rasto a solidão, ouça-se “Moonlight/Twilight” onde a harmónica marca um grito de animal moribundo ou então acordem (e planem) ao som de “Swan Song Of The Humpback Angler”.
The Blue Depths mostra uns Odawas mais acessíveis, mais abertos, deixaram de lado a sua obscuridade e apresentam-se com o coração nas mãos. Estamos assim perante uma banda mais sociável e substancialmente mais afável, é o efeito pop a dar o ar da sua graça.
Os Odawas propõem como preparação, para The Blue Depths 10 discos magníficos, acompanhados com o um pequeno texto explicativo – VER AQUI.

Momento Mágico: Secrets Of The Fall


OdawasThe Blue Depths (2009) – Jagjaguwar


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2009/01/28

Andrew Bird

Migração

A razão da migração de algumas aves, é na maioria dos casos a busca de melhor clima e a procura de alimento, ora com Andrew Bird aconteceu o mesmo. Primeiro a busca de um lugar pacifico, sossegado e equilibrado, coisa que conseguiu no interior dos EUA, numa pequena quinta no estado de Illinois, de seguida com mestria alimentou o corpo e a mente, o efeito de toda esta disciplina está implícito em Noble Beast. O 8º disco de Bird é fortemente cerebral e apinhado de requinte, já vão longe os tempos do pop mais objectivo e concreto de Mysterious Production of Eggs, desde do trabalho de 2007 (Armchair Apocrypha) que Andrew Bird começou a piscar o olho á folk e essa passagem tem sido feita de uma forma pacifica, as roturas tem sido mínimas e eficácia enorme.
Noble Beast continua a mostrar um músico de um enorme talento, o engenho de Andrew está em perfeita ascensão, mais do que nunca está exemplar na composição, tem uma faculdade natural na sua voz, vive a genialidade do seu assobio e continua um violinista de arte refinada. Chegado a este ponto, já nada pode correr mal, agora há que continuar a migrar pelo mundo fora e alimentado todo o bando que por aí sequioso da sua musica.

Momento Mágico: Fitz And The Dizzyspells


Andrew Bird Noble Beast (2009) – Fat Possum


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2009/01/22

Jonathan Wilson

Perfeito Desconhecido

Depois de terminado (e listado o ano de 2008), comecei a espreitar as listas daqueles que nos são mais próximos musicalmente, uma espécie de saque intelectual, há que usar esta espécie de simbiose, o tempo é pouco (e passa depressa) e os discos são muitos.
Gentle Spirit é um nome perfeito para este segundo disco, estamos perante um trabalho de ambientes rurais, ladeado e cercado por altas montanhas e rios selvagens. Jonathan Wilson é o cavalheiro do rock psicadélico versão lenta, a forma arrastada com os constrói e canta, ajuda a imaginar variadíssimos cenários, é sem duvida um musico fortemente cénico.
Ao segundo disco (o primeiro foi Frankie Ray – 2007), Jonathan Wilson sem arriscar um milímetro que seja, traçou o seu projecto e ilustrou 13 preciosos temas, assim nasceu Gentle Spirit e com ele nasceu um espírito simpatico, um alma com corpo etéreo, um fantasma em transição entre este mundo e o outro.
Desert Raven” invade o nosso silencio pé ante pé, com ajuda de uma guitarra em perfeito transe, vamos subindo e descendo vales, aqui planar é palavra a usar. A voz de Jonathan em “Canyon In The Rain” sublinha a sua capacidade de espalhar afecto por todos. “Natural Rhapsody” é um dos melhores temas de 2008. “Ballad Of The Pines” é folk silvestre matinal, está coberto de orvalho e exala cheiro de floresta. Gentle Spirit termina em êxtase “Valley Of The Silver Moon” é doentiamente belo, uma canção cheia de dor e traumas, lindíssima.
Ah… um bem haja Nuno.

Momento Mágico: Valley Of The Silver Moon”


Jonathan Wilson - Gentle Spirit (2008)

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2009/01/16

Animal Collective

Arco-Íris de Som

Com Merriweather Post Pavilion os Animal Collective, atingem definitivamente o nirvana musical e com isso alcançam o patamar máximo da fama no universo indie. Quando muita gente (eu incluído) achava que depois do Feels isso seria impossível, aparecem logo no inicio de 2009, com um disco sublime. Merriweather Post Pavilion é experimentalismo popular, agarra em loops, em minimalismos electrónicos e precursões descompassadas e como um pequeno castelo de cartas vai edificando uma muralha de sons e contra-sons, com isto nasce um pequeno cosmos de coros, onde a duplicidade das vozes de Avey Tare e de Panda Bear conseguiram atingir a perfeição, nunca estiveram tão perfeitamente sobrepostas, há como um elemento mágico a unir os dois timbres, resultando daí um pequeno universo colorido, um arco-íris harmonioso.
My Girls”, “Also Frightened”, “Lion In a Coma” e “Brothersport” são 4 provas de já nada acontece por acaso, os Animal Collective são uma banda milimétrica, são exactos e concretos, sabem e conhecem de cor o caminho que estão (e irão) a percorrer, depois de trabalho fiquei de sobreaviso, o melhor ainda poderá estar para vir.
Com este trabalho e com a rápida chegada do fim da década, acho que se pode afirmar que os Animal Collective são talvez a banda mais importante e mais influente destes últimos 10 anos. Ao longo deste tempo foram deixando a sua marca, o seu estilo, a sua forma de trabalhar e isso foi fazendo história, hoje para além de donos de uma carreira repleta de excelentes discos (Here Comes The Indian; Sung Tongs; Feels; Strawberry Jam), são criadores de uma sonoridade própria, perfeitamente identificável.

Momento Mágico: Lion In A Coma


Animal Collective - Merriweather Post Pavilion (2009) - Domino


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2009/01/11

Novo Ano

E pronto, passado que foi o prazo de olhar para 2008, sigamos para 2009. O novo ano avizinha-se como muito produtivo, são imensas as bandas que irão editar novo material e certamente haverá também novos projectos a tentarem penetrar no sistema.
Irei prosseguir com este trabalho perfeitamente amador, espero que desse lado haja satisfação pelo que vou escrevendo.
Um excelente 2009, cheio de boa musica.

2008/12/30

Melhores álbuns de 2008 - António Antunes


1 Spiritualized - Songs In A&E



3 Black Mountain - In The Future


4 Bon Iver - For Emma, Forever Ago


5 TV On The Radio - Dear Science

6 Peter Broderick - Home

7 Micah P. Hinson - And The Red Empire Orchestra

8 Miles Benjamin Anthony Robinson - Miles Benjamin Anthony Robinson

9 Sebastien Tellier - Sexuality

10 Woven Hand - Ten Stones


11 No Age - Nouns

12 Portishead - Third

13 Cloud Cult - Feel Good Ghosts (Tea-Partying Through Tornadoes)

14 Camané - Sempre de Mim

15 The Notwist - The Devil, You + Me

16 Richard Swift - Ground Trouble Jaw [EP]

17 Sigur Rós - Með Suð í Eyrum Við Spilum Endalaust

18 Feromona - Uma Vida a Direito

19 Air France - No Way Down [EP]

20 Fuck Buttons - Street Horrrsing


 21 Nico Muhly - Mothertongue

22 Okkervil River - The Stand-Ins

23 Neon Neon - Stainless Style

24 Fleet Foxes - Fleet Foxes

25 Quiet Village - Silent Movie

26 The Black Dog - Radio Scarecrow

27 British Sea Power - Do You Like Rock Music

28 Cut Copy - In Ghost Colours

29 Destroyer - Trouble In Dreams

 30 Buraka Som Sistema - Black Diamond