2008/12/30

Melhores álbuns de 2008 - Bruno Coelho

Um ano marcado por muito low-fi/noise/experimental (The Dodos, No Age, Fuck Buttons, Oneida, Ruby Suns, Woods, Woods Family Creeps, Health, Wavves, Sick Alps, Women, etc), pela confirmação dos Buraka Som Sistema, pelo regresso dos Portishead, por um novo rumo no som dos Sigur Rós e por mais um excelente álbum dos Tv On The Radio.


1 Black Mountain - In The Future
O rock reinventado.


2 The Dodos - Visiter
Juntam na perfeição influencias como os Animal Collective ou Grizzly Bear.


3 No Age - Nouns
Passaram com distinção no teste do segundo álbum. Rock!


4 TV On The Radio - Dear Science

5 Fuck Buttons - Street Horrrsing

6 Buraka Som Sistema - Black Diamond

7 Sigur Rós - Með Suð í Eyrum Við Spilum Endalaust

8 Portishead - Third

9 It Hugs Back - The Record Room: First Four Singles

10 Oneida - Preteen Weaponry


11 Notwist - The Devil, You + Me

12 Ruby Suns - Sea Lion

13 Woods - At Rear House

14 The Dø - A Mouthful

15 Miles Benjamin Anthony Robinson - Miles Benjamin Anthony Robinson

16 Fleet Foxes - Fleet Foxes

17 Lykke Li - Youth Novels

18 Spiritualized - Songs in A&E

19 French Kicks - Swimming

20 Tenniscoats & Secai - Tenniscoats & Secai

2008/12/29

Spiritualized

Disco do Ano

Com o fim de 2008, chegam as infindáveis listas, listinhas e listagens, anda meio mundo em perfeita azafama, revistas, jornais, sites, blogs, etc, tudo com o único objectivo ordenar das mais diversas formas o que se foi ouvido durante o ano que termina. Por aqui aconteceu a coincidência, de o ultimo texto do ano ser sobre o disco, que irá ocupar o primeiro lugar da lista dos melhores de 2008, Songs In A & E é o ultimo trabalho dos Spiritualized.
5 anos após Amazing Grace, Jason “Spaceman” Pierce regressa em perfeita apoteose, Songs In A & E é um disco sem fim, um trabalho repleto de imensidões espaciais, onde nem o vácuo consegue escapar. Songs In A & E é um disco auto-depressivo, carrega em cima dos ombros um semblante denso, uma negra esperança de que tudo pode melhorar. Pierce é um génio consegue construir e destruir tudo á sua volta (incluindo ele próprio) e depois cantar tudo isso como se nada se tivesse passado. É lunático e romântico, é depressivo e contemplativo, convive na perfeição com todas as suas dualidades criativas.
Os 18 temas que compõe esta obra de arte, está entrelaçada por “6 Harmonias” que servem de descompressor, foi a forma que Pierce encontrou de ir acalmando toda a obra, de outra forma poderia ter corrido o risco de entrar numa espiral auto-destruidora e são precisamente estas “paragens” que vão impondo o ritmo na peça. Com Songs In A & E, Jason Pierce e os outros Spiritualized, assinam o seu melhor trabalho desde Ladies And Gentlemen We Are Floating In Space, e com isso está de volta a energia shoegaze em “Yeah Yeah” e “You Lie You Cheat”, o arrastamento físico do slowcore em “Sweet Talk” e “Death Take Your Fiddle” ou o space rock em “Soul On Fire”, aliás como se ouve no refrão, este tema é uma verdadeira epifania:

Baby, set my soul on fire.
I’ve got two little arms to hold on tight and I want to take you higher.
Baby, never should say never.
I’ve got a hurricane inside my veins and I want to stay forever.

Vem aí 2009, vai começar tudo de novo… feliz ano e boa musica.

Momento Mágico: Soul On Fire


SpiritualizedSongs In A & E (2008) - Castle


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Soul On Fire (Video)

2008/12/26

Camané

Tradicional

O fado anda quase sempre numa roda viva, procura renovação, procura novos estilos, procura novas vozes, acontece que enquanto meio mundo busca o El Dorado, há quem permaneça sempre igual a si e continue a marcar pontos. 13 anos depois Camané continua a ser a imagem dessa tradição, fiel ao conceito e agarrado a grandes nomes da poesia portuguesa. Desta vez Camané usou um peso-pesado da nossa praça, José Mário Branco, o que acrescentou um saber inconfundível e uma sua sublime capacidade de produção, criando simultaneamente em Sempre de Mim uma vertente negra, ao mesmo tempo que lhe transmite uma luminosidade incandescente. Camané é um fadista como há (ou houve) poucos, é dono de uma voz singular, rigoroso e perfeccionista, agarra na estrutura tradicional do fado e pouco lhe acrescenta, e é precisamente essa a sua grande proeza, continuar e manter o fado tal e qual como ele deve ser. Sempre de Mim reúne a mestria de Manuela de Freitas e agarra em poetas consagrados (Fernando Pessoa, Pedro Homem de Mello, etc) e autores fora do mundo do fado (Sérgio Godinho, Jacinto Lucas Pires, etc), para com apoio de José Mário Branco, unir tudo numa obra que irá deixar marcas naquilo que se decidiu designar de fado tradicional.

Momento Mágico: Sei de um Rio


CamanéSempre de Mim (2008) – EMI


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2008/12/21

The Dodos

Alternativos

A cena freak-folk anda de óptima saúde, são imensos os projectos nascidos nos EUA, os Dodos seriam mais uns, caso não fossem autores de um dos discos mais interessantes do ano. Ao segundo álbum, o duo Long / Kroeber liberta um impulso de improvisação controlada, onde a folk é a principal raiz, mas onde cabe ainda a pop alternativa. Após as primeiras audições, a ideia que fica é que Visiter é um álbum dividido em dois, isto porque se uma delas é feita de simples e seguras canções, a outra está atestada de divagações musicais com contornos quase imprevistos.
Visiter é uma paleta de cores, criada de uma forma quase lo-fi, tripartido por voz, guitarra e bateria, o resultado desta pintura é minimalismo pop e ficando isso a dever-se em exclusivo à infindável quantidade de micro-estilos encontrados no disco (ambiental, psicadélico, folk, noise, pop, rock, etc). O duo de São Francisco funde às percursões tribais de Animal Collective, a estrutura vocal de Grizzly Bear, o que irá dar lugar a mundo cheio de simpáticos duos acústicos, repartidos aqui e ali com alternativos passos de folk de raízes profundamente americanas.
Visiter é um disco difícil (bem, para mim foi), necessita de ser lentamente absorvido, á que olhar a todos os pormenores, a cada virar de esquina há uma nova surpresa, um novo encadeamento, o que há partida pode parecer confuso, começará a fazer imenso sentido, algumas audições depois.

Momento Mágico: Fools

The DodosVisiter (2008) - Frenchkiss


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2008/12/14

Grails

Dose Dupla

Com Burning Off Impurities (2007), os Grails chamaram a si o direito de acordar meio mundo, nós por aqui cumprimos o dever de assinalar o facto e dissemos: “É um álbum simples, dominado com aqueles momentos em que apetece deitar na cama a olhar para o tecto, ou de olhos fechados, e absorver a música, pensar na vida ou viajar… não fosse isto acid-folk. (Bruno Coelho)”
Em 2008 os Grails voltam e em dose dupla. Na Primavera lançaram Take Refuge In Clean Living e no Outono Doomsdayer's Holiday, não fosse isto musica e quase que poderíamos falar numa colecção de um qualquer estilista de moda.
Vamos então por partes:
- Take Refuge In Clean Living é post-rock dos sete costados, tem toda a estrutura lá dentro, guitarras em busca do infinito e percussão preguiçosamente arrastada. Ao longo dos 5 temas vão rabiscando drones e pintando paisagens de cores cinzentas, á primeira vista o que resultaria daqui seria uma sucessão de sons agarrados entre si, mas o que acontece é precisamente o contrário. Take Refuge In Clean Living é um disco em constante mutação, se em “Stoned At The Taj Again” estamos no domínio do post rock mais que perfeito, com “PTSD” tudo se torna sombrio, caminhando lentamente em direcção ao desconhecido. Com “11th Hour” edifica-se um ambiente de film-noir, onde a personagem mais casta consegue ser simultaneamente ao mesmo tempo que comete um crime e forma á sua volta uma aura de inocência. “Take Refuge” e “Clean Living” desenvolvem o resto do argumento com a mesma astúcia, primeiro usando o rock com mestria, para de seguida nos corromperem a alma com ácidos e extractos de piano.
- Doomsdayer’s Holiday é terrorismo sónico, os Grails agarram mais uma vez no post-rock e cruzando-o com a sua costela mais psicadélica, criam um universo carregado por intensas descargas de instrumentos, contribuindo assim para a criação de um dos seus mais pesados álbuns. Doomsdayer’s Holiday são torrentes de guitarras e marés de bateria, tudo de uma forma ordenada e com grande sentido estético. Não se procura estabelecer novas fronteiras, o que se pretende é agarrar em contextos e ambientes já percorridos por outros e calmamente afirmar: “olha, também conseguimos”.
Doomsdayer’s Holiday tem dentro uma pérola com odor às especiarias do norte de Africa, o seu nome é “Reincarnation Blues” e o nome diz tudo. O estranho folk em “The Natural Man” remete-os para o seu mundo real, pacífico e perfeitamente ordenado. O inicio de “Immediate Mate” antevê uma explosão a qualquer momento e coisa que nunca chega a suceder visto o tema ir por caminhos bem mais tenebrosos. “X-Contaminations” é chuva ácida em forma de música, fria e corrosiva, constrói um universo cinematográfico, onde dificilmente viveriam personagens bonitas e onde tudo é negro e doentio. Tudo vai findar com o belíssimo Acid Rain, um tema floydiano, onde não falta nada, desde as guitarras floreadas, aos solos requintados, passando pelas vozes de apoio, tudo sempre em quantidade necessária.

Momento Mágico: Take Refuge (Take Refuge In Clean Living) & Reincarnation Blues (Doomsdayer’s Holiday)


GrailsTake Refuge In Clean Living (2008) – Important


GrailsDoomsdayer’s Holiday (2008) - Temporary Residence


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2008/12/07

Brightblack Morning Light

Extrema Suavidade

O marasmo ambiental criando pelos Brightblack Morning Light, soa à típica atmosfera criada no sudoeste norte-americano, podia ser construído em qualquer dos 4 estados que o compõem (Texas; Novo México; Arizona; Califórnia), o que resulta dessa combinação é um rock profundamente arrastado, com tendências espirituais.
Em Motion To Rejoin tudo é preguiçoso, tudo tende para um universo drástico, onde o alinho e a colocação da estrutura musical é a principal imagem de marca. Os Brightblack Morning Light
produzem assim uma peça de folk minimalista, que combina na perfeição com dias chuvosos e sem sol, dias em que a lentidão de movimentos se estende a todo corpo.
Motion To Rejoin vai alargando a sua influência nocturna ao longo de 9 temas: o primeiro tema entra neste planeta de forma indelével “Introduction” cumpre na perfeição a sua função; “Hologram Buffalo” é um passeio por um parque natural americano, apenas um imenso espaço livre á frente dos nossos olhos, uma paisagem verde sem fim; “Another Reclamation” é a mistura de dois mundos, o tema perfeito para o nascer do dia, um simpático e adorável adeus á noite; “Summer Hoof” é uma praia californiana deserta ao por do sol.
Ao 3º álbum os Brightblack Morning Light marcam literalmente o seu território, afirmando o seu estilo e dando uma textura muito própria ao lado mais lento da indie folk americana.

Momento Mágico: Oppressions Each

Brightblack Morning Light Motion To Rejoin (2008) – Matador Records


Brightblack Morning Light (site) & MySpace



2008/12/06

The Dodos (Concerto)

COIMBRA - SALÃO BRASIL - 2008/12/06
http://www.myspace.com/thedodos



2008/12/01

Department Of Eagles

Alegre Monotonia

A principal editora independente dos anos 80, ainda anda por aí á solta, aliás a sua visibilidade esteve sempre presente, o que simplesmente aconteceu, é que agora já não está só, são imensas as editoras que povoam o mundo da indie-music. Seja como for ainda não perdeu aquele fino toque para a descoberta e para edição de novos nomes e novas sonoridades, é assim que vão surgindo ano após ano, novos projectos e novas bandas. Um dos seus mais recentes achados, são os americanos Department Of Eagles, banda que circula na periferia dos Grizzly Bear (de quem são amigos), que mora no mesmo universo dos Mercury Rev e que aqui ali pisca o olho aos Animal Collective.
A suave base electrónica, cavalga às costas do rock psicadélico, contagiando e alargando a componente vocal, que de uma forma subtil vai caminhando por aprazíveis trilhos, onde a espaços surgem silhuetas folk. A soma deste todo, é uma mescla electro-folk vocal fortemente instrumentalizada, com uma dinâmica muito própria. In Ear Park é um disco de arranjos, um disco de produção, pensado ao detalhe, está repleto de pequenos sons e de ínfimos ruídos.
In Ear Park o 4º registo original (1º na 4AD) dos Department Of Eagles, afigura-se como um dos grandes discos de 2008, um disco de uma complexidade simples, um disco que põe á prova o equilibrio entre a monotonia e a pura alegria de fazer canções eficientes.

Momento Mágico: Floating On The Lehigh


Department Of EaglesIn Ear Park (2008) - 4AD


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2008/11/24

Abe Vigoda

Quente

Abe Vigoda apesar de ser um actor, já com uma impressionante e longa carreira, é quase desconhecido do grande publico, isto porque a sua vida tem sido feita de pequenos e inócuos papeis. É o que se pode chamar de um actor de terceira fila, ficando longe do star-system e de tudo o que significa a palavra vedetismo. É com embutidos neste espírito que 4 amigos californianos o decidem homenagear, fundando uma banda com o seu nome. Os Abe Vigoda nascem da experiencia e da fusão de duas bandas (Health e Mika Miko) e da sua capacidade de união do pos-punk de Los Angels, com aquela corrente afro-pop tão característica dos Animal Collective, aqui e ali condensada pela agradável destruição dos No Age ou até mesmo sucumbido aos encantos aleatórios de uns Battles.
A segunda amostra dos Abe Vigoda responde pelo nome de Skeleton, 14 curtos mas intensos temas (apenas 34 minutos de duração), tudo emerge de uma forma quase alucinante, o mote primário são suaves e quentes batidas africanas, criando ritmos hipnóticos e redondos, a isto une-se as vozes cruzadas (e as guitarras) de Juan Velazquez e de Michael Vidal criando um complemento de profundidade. Poderá não parecer, mas Skeleton é um disco cativante e altamente sedutor, perfeito para aquecer as noites frias de Inverno, um dos grandes discos de 2008.

Momento Mágico: The Garden


Abe VigodaSkeleton (2008) - Post Present Medium


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2008/11/18

Miles Benjamin Anthony Robinson

Viva Brooklyn

O Brooklyn debita música e músicos de uma qualidade impressionante, Miles Benjamim Anthony Robinson é mais um dos seus habitantes, que larga o sossego do seu lar, para partir á conquista do mundo indie. Este “singer/writer” lança o seu primeiro álbum em nome próprio, um disco de uma intensidade sublime, marcado por pequenas histórias de encontros e desencontros, amores perdidos e substituídos, cheio de alegrias e tristezas alcançadas. O clima desenvolvido pela musica de Miles Benjamin Anthony Robinson, anda abraçado às mesmas ambiências temporais da música de uns Arcade Fire, de uns TV On The Radio ou dos Grizzly Bear (que são convidados especiais no disco). Miles Benjamin Anthony Robinson desenvolve quase toda a sua musica, tendo como base o contexto mais simples da folk (pequenas histórias musicadas), a grande diferença surge na forma como vai enchendo o espaço em volta do tema, ao contrário da tipificação folk, Miles Benjamin Anthony Robinson desenha esboços de contornos profundamente indie.
Logo á primeira, Miles Benjamin Anthony Robinson consegue assinar, um dos melhores álbuns de 2008, uma obra bem pensada, bem construída e excelentemente produzida, 10 temas equilibrados e que se completam uns aos outros. “Buriedfed” é a perfeita afirmação de tudo o que se disse; “Woodfriend” é um tema primoroso, com uma cadência perfeita, voz e bateria sempre num impecável encaixe, apenas quebrado aqui e ali por uma guitarra em desespero; “Who's Laughing” não passa de pura simplicidade folk-rock.
Miles Benjamin Anthony Robinson consegue atingir com a sua música, um patamar muito elevado, se neste raciocínio se tomar em consideração que é a sua primeira obra, a atenção lhe devemos dar no futuro, toma uma importância quase vital. Se agora o resultado é excelente, poderemos muito breve ter obra-prima (ou talvez não).

Momento Mágico: The Ongoing Debate Concering Past Vs. Future


Miles Benjamin Anthony RobinsonMiles Benjamin Anthony Robinson (2008) - Say Hey


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2008/11/12

Fleet Foxes

Debutantes

Os Fleet Foxes marcam o território com a sua carga harmónica e melódica, e fazem-no de forma a deixarem na área, um aroma folk pop que irá perdurar durante alguns anos. A banda de Seattle (Washington) liderada por Robin Pecknold, espreitava a sua oportunidade para se dar a conhecer ao mundo e é assim que surge no inicio do ano o EP Summer Giant, cinco delicodoces temas, onde o mundo pop é completamente florido e as vozes libertam mais cores que a primavera. Com o caminho pré-desenhado, contrataram Phil Ekque um produtor especialista nesta coisa da pop, que trabalhou anteriormente com The Shins e Modest Mouse e assim cozinharam o primeiro álbum. Fleet Foxes by Fleet Foxes é um disco engenhoso, é folk que soa a pop e pop que soa a folk e isto que não traduza a ideia de álbum complexo, porque na realidade não o é.
Fleet Foxes é um disco fortemente disciplinado e regido por regras bem definidas, e isso está perfeitamente patente logo no primeiro tema, “Sun It Rises” é abertura ideal, “Ragged Wood” mostra em completo todas as suas capacidades, edificando um tema onde poderiam estar os Band Of Horses ou mesmo uns Mountain Goats. “Tiger Mountain Peasant Song” é um jogo entre a bela voz de Pecknold e um ameno dedilhado de guitarra. “Quiet Houses”, “Your Protector” e “Blue Ridge Mountains” respiram contemporaneidade, são produtos perfeitamente frescos, sem prazo de validade e sem conservantes. Fleet Foxes será certamente um dos albuns debutantes do ano.

Momento Mágico: He Doesn't Know Why


Fleet Foxes - Fleet Foxes (2008) – Sub Pop


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2008/11/05

Peter Broderick

Lar Doce Lar

O incrível potencial de Peter Broderick, fica perfeitamente demonstrado, assim que pelos nossos ouvidos passam, os 3 primeiros temas do seu último trabalho. Aos 21 anos este americano de Portland (Oregon), abandona o seu lar e parte a caminho da Europa, indo-se fixar na calma e bela Copenhaga, aí trava amizade com os experimentalistas-ambientais Efterklang e passa a fazer parte do projecto.
Home é a sua mais recente residência, uma construção repleta de pequenos quartos deliciosamente decorados, espaços confortáveis e amplas áreas apinhadas de luz. Na casa de Broderick não há lugares vazios, tudo reflecte sobriedade, cores suaves e materiais de primeira qualidade. Seria de esperar que, com tão elevados padrões de qualidade, o seu trabalho se pudesse transformar em algo de difícil digestão, mas o efeito foi precisamente o oposto, Home é uma peça pop de uma sensibilidade extrema, carregando uma franqueza e uma sinceridade de simples contornos.
Home é o lar a que todos queremos chegar ao fim do dia, precisamos dele para descansar, para restaurar energias, enfim todos nós necessitamos de uma casa para repor a ordem natural da coisas.

Momento Mágico: And It's Alright


Peter BroderickHome (2008) - Hush


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2008/11/01

Wintersleep

Chegou o Inverno

A mudança de hora provoca em todos nós, pequenas disfunções temporais. A passagem do Verão para o Inverno (já por si dura) é mais intensa, quando surge a correspondente mudança horária, os dias ficam mais curtos, é noite mais cedo, surge o frio, enfim emerge um “novo mundo” e com ele, novos hábitos, novos rituais. O Wintersleep são isto tudo, mas em formato musical. Povoando o mesmo universo dos Interpol, os Wintersleep criam um universo luminoso, onde a estrutura emocional passeia entre a simples canção e a estrutura mais complexa de um quase space-pop. Ao terceiro disco, estes canadianos da Nova Escócia, delimitam as fronteiras do seu território, a sua melancolia pop e o seu rock inocente, resultam num perfeito indie rock volátil.
Se “Miasmal Smoke & The Yellow Bellied Freaks”, encerra o álbum a piscar o olho a uns Mogwai, fazendo de uma forma impressionante, o que só prova a sua coragem e a sua valentia. A abertura do Welcome To The Night Sky, faz-se ao som “Drunk on Aluminum” um principado rock de linhagem real, repleto de guitarras e bateria a cheirar a shoegaze. Se “Archaeologists” habitam uns Editors, em “Astronaut” vivem os R.E.M.. “Dead Letter & The Infinite Yes” é provavelmente o melhor tema de todo o disco, e penso que deve ser por este caminho que os Wintersleep devem pautar os seus passos.
É muito provável que Welcome To The Night Sky, passe completamente despercebido do grande (e do pequeno) publico, ainda assim é um trabalho com 10 brilhantes temas indie pop de perfeita digestão, não arrebata, mas também não provoca indiferença.

Momento Mágico: Weighty Ghost


WintersleepWelcome To The Night Sky (2008) – Labwork


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2008/10/26

Buraka Som Sistema

Reinvenção e Ritmo

Eu devia ser diferente e não falar sobre estes gajos, mas a verdade é que não consigo. Ouvido algumas dezenas vezes, tenho de assumir que estamos perante um disco que vais marcar uma época e uma geração, e isto deve-se fundamentalmente a dois factores: reinvenção e ritmo.
Os Buraka Som Sistema não inventaram nada, mas conseguiram por mais roupa num género musical nascido em Angola, apoiados numa forte componente electrónica transfiguraram o kuduro. O trio lisboeta (DJ Riot, Lil’ John e Conductor) aproveita a atmosfera africana que os envolve e com um pequeno toque de genialidade, vão misturando toda uma parefernália de sons, desde do euro-tecno, ao hip-hop, ao kizomba, ao electro. O resultado esse, só poderia ser uma musica sem país e a formula parece ter resultado em cheio, visto os Buraka Som Sistema estarem nos ouvidos de toda a gente, desde Lisboa a Nova Yorque, passando por Londres ou Roma, é um fenómeno global perfeitamente merecido. Com Black Diamond o Buraka Som Sistema, partem a conquista do planeta.

Momento Mágico: Kalemba (Wengue Wengue)


Buraka Som Sistema
Black Diamond (2008) - Enchufada / Sony BMG


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2008/10/19

Tv On The Radio

Disco do Ano?????

Os dois anteriores álbuns (Desperate Youth, Blood Thirsty Babes – 2004 / Return To Cookie Mountain - 2006), foram amplamente aclamados pela critica da especialidade, sendo que na altura foram apelidados de “inovadores”, “reconstrutores”, “novos donos do post/rock mais experimental” e de mais umas centenas largas de cognomes. Quanto a mim não retiro uma só virgula, são ambos álbuns essenciais e será um pouco difícil compreender tudo o que se passou no mundo da musica desde 2000, passando ao lado de ambos os dois discos.
Logo que se soube, que se encontravam em estúdio, começou o adorável murmurinho de como seria o disco. Quando finalmente Dear Science viu a luz do dia, houve um misto de apreensão e de alegria, isto porque é diferente, podia-me por aqui a filosofar sobre se é ou não melhor que os anteriores, mas o que eu quero mesmo destacar é que Dear Science é um disco distinto dos 2 primeiros. E a que se deve esta distinção, esta diferença?
Os TV On The Radio abandonaram (um pouco) a sua costela mais rebelde-indie, criando um elementar disco de canções. Deixaram de parte as componentes electrónicas e os sons da maquinaria mais pesada, e com um toque de grande classe e charme aplicaram todo o seu saber no puro prazer de fazer canções, enfim puseram de parte o pret-a-portê e dedicaram-se á alta costura.
Dear Science é uma impressionante colecção de canções: “Halfway Home” o tema de abertura caminha pelo lado limpo da estrada, não há transito, nada preocupa, paira no ar a certeza da chegada (uma das melhores aberturas de disco que ouvi em 2008); “Crying” é meio termo entre o pop-jazz e as componentes mais electrónicas da soul music; “Dancing Choose” é TV On The Radio no seu melhor, jogos de vozes sónicos, irritação jazzistica q.b.; “Family Tree” é uma balada perfeita, tudo está no sitio, as vozes, a colocação instrumental, uma pérola que valeria todo o disco, felizmente não está só, está presente todo o colar.
A banda de Brooklyn sabe o que quer, sabe para onde vai, vive em perfeito estado de graça, gere a sua carreira de uma forma subtil, caminhando umas vezes pelo lado perfeito da via outras vezes indo em contra-mão, o resultado esse é sempre sublime.

Momento Mágico: Shout Me Out


TV On The RadioDear Science (2008) - DGC/Interscope


TV On The Radio (Site) & MySpace


2008/10/13

No Age

Outra Intensidade

Um ano é um instante, e se à primeira vista pode parecer muito tempo, o que acontece é que neste mundo da musica tudo é apressado e efémero. Já passou um ano, desde que mencionei por aqui o nome dos nome dos No Age pela primeira, eram há altura uns perfeitos desconhecidos nestas lides mais independentes da musica. Weirdo Rippers cumpriu perfeitamente o objectivo, era um disco eficaz e bem desenhado, pecava talvez por ser tão curto, o que fazia com que se abusasse da quantidade de audições praticadas, seja como for escuta-lo era um exercício delicioso (ler mais aqui).
Com Nouns os No Age assinam em definitivo um estilo e indicam o caminho que querem seguir. O noise continua disfarçado, o post-punk perdeu um pouco a largura de ombros, tudo ficou mais nítido, mais cerebral, há mais trabalho de casa, coisa que se reflectiu certamente numa melhor produção em estúdio. O que dantes poderia parecer elementar, transformou-se agora num primário intencional.
Nouns são 31 minutos de musica, repartidos por 12 temas, é um instante enquanto se chega ao fim e penso que esta é a principal imagem de marca dos No Age, directos a essência da coisa, cortam com tudo o que seja supérfluo e que ocupe espaço em demasia. “Miner” entra pelos ouvidos em ondas de eco, como se estivesse a untar o canal auditivo, para depois tudo entrar sem grandes danos. “Eraser” usa o mesmo estratagema, uma intro que dura quase meio tema, que vai desaguar numa guerra a duas vozes. O uso de apoio de pequenos sons electrónicos (ouça-se o inicio e o fim de “Teen Creep”), veio enriquecer o som dos No Age, indo ocupar o espaço que sobra entre a guitarra e bateria. A sequencia “Sleeper Hold” e “Here Should Be My Home” é No Age com um ano de idade, pura alegria de movimento.
Os No Age com Nous estão menos abrasivos, a intensidade do seu brilho ganhou outra cor, há mais requinte, o duo da Califórnia socializou-se.

Momento Mágico: Things I Did When I Was Dead


No AgeNouns (2008) - Sub Pop


My Space


2008/10/06

Woven Hand

O Pregador

Um dos maiores evangelistas da musica norte-americana, está de regresso. O permanente crescendo da sua voz, mantêm-se mais activo que nunca, continua a luta entre a pacifica calmaria do deserto seco e árido e vertente mais violenta dos seus versos. David Eugene Edwards parece (e nunca tanto como agora), estar definitivamente agarrado a este projecto, longe vão já os 16 Horsepower (banda essencial em todas as colecções), a temática essa mantêm a mesma… Deus vs. Homem. É desta forma que após o menos conseguido Mosaic de 2006, David Eugene Edwards apresenta o seu novo trabalho, Ten Stones e com ele volta a mergulhar nas raízes mais cavadas do alt-country, desenha um álbum intenso, austero e rude.
Ten Stones é enigmático no concerne á liturgia criada por Edwards, apesar de andar sempre á volta do simbolismo religioso, deixou de se tornar tão clara a mensagem, tudo está mais camuflado, mas negro, mais contido. Ouça-se por exemplo “Beautiful Axe” onde através do refrão se soltam gritos de “Joy has come, is risen with the sun… beautiful the axe that flies at me”; com “No One Stone” há uma curta viagem ás velhas escrituras; “White Knuckle Grip” entra a passos de galope, há que chegar rapidamente ao selvagem oeste, esse mundo povoado de pecados; seria um absoluto cliche afirmar “Quiet Nights Of Quiet Stars” como uma cover perfeita, o problema é que não consigo encontrar outra palavra para a definir.
David Eugene Edwards não tem medo, é um homem sem receios, caminha em direcção a Deus, canta afirmando-O e afirma-O cantando. (espero que não esteja enganado).


Momento Mágico: Iron Feather


Woven HandTen Stones (2008) - Sounds Familyre


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2008/09/30

The War On Drugs

Dois Tons

Os The War On Drugs nasceram em Philadelphia, Pennsylvania em 2003, encostados e apoiados no estilo folk de Dylan e pilhando o rock mais tradicional de Springsteen, formaram um banda de electro-americana. A introdução de guitarras planantes e riffs experimentais, tão típicas das bandas nova-iorquinas, veio contribuir para que banda partisse numa direcção deveras interessante, não se tendo auto-limitado, nem tendo ficado prisioneira de um estilo ou género. Wagonwheel Blues é um disco bipolar, transmite a quietude da pradaria americana e ao mesmo tempo inunda o espaço envolvente com as luzes intermitentes do neons da cidade. É urbano e rural e servindo-se dessa dicotomia auto-promove-se, deixando um rasto de curiosidade como se fosse um inebriante perfume.
A abertura de Wagonwheel Blues é feita com “Arms Like Boulders” no mais perfeito estilo folk-dyliano, sem pretensões ou ilusões; “Coast Reprise” tem um toque shoe-gaze quase primário, que faz o tema pairar, compondo um efeito delicioso; Os acordes de “There Is No Emergency” fazem desta canção uma auto-estrada de puro prazer; A pura diversão de “Show Me The Coast”, um longo tema que desperta no intimo de quem a ouve, a necessidade da chegada.
The War On Drugs lançam assim o seu primeiro grito e com isto, partem á procura de uma América a duas cores. Sendo que um dos tons (o mais escuro) é tradicional, nasceu nos campos, carrega aos ombros um passado de sofrimento e dor, em oposição temos o outro tom (o mais claro) citadino, contemporâneo, descomprometido, sem objectivo concreto á vista.

Momento Mágico: There Is No Emergency


The War On Drugs - Wagonwheel Blues (2008) - Secretly Canadian


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2008/09/25

Neon Neon

Refazer

O regresso ao passado é uma imagem permanente no universo sonoro, a necessidade de retorno ás origens, o recurso á simplicidade da estrutura musical, a saudade da electro-pop ou até mesmo o renascer do stylish-funk. Os Neon Neon projecto de Gruff Rhys (o guru da banda do País de Gales - Super Furry Animals) e de Boom Bip (um multi-instrumentista de Cincinnati, ligado à criação e produção de Hip-Hop e Rap), captam todo o espírito do anterior referido. Sulcando trilhos melódicos a meio caminho, entre a pop dos anos 80 e os sons contemporâneos de semblante mais urbano, fabricaram um disco feito de lantejoulas, sintetizadores e saltos altos.
Dentro de Stainless Style há uma imensidão de gestos e trejeitos de outras bandas, aliás não poderia ser de outra forma, os idos anos 80 foram (e serão) explorados até á mais ínfimo pormenor. É desta forma fortemente emocional e disparando em todas as direcções, que os Neon Neon fizeram de Stainless Style um passeio de imensos tons e cores. O deslumbre electrónico de “Neon Theme”, a colagem a The Cars em “I Told Her on Alderaan”, a alegre festividade de “Raquel”, o piscar de olhos funk em “I Lust U”, a perfeita textura electro em “Michael Douglas”.
Os Neon Neon não descobriram nada de novo, mas para além de se verificar que a fonte ainda não está completamente seca, é com imenso prazer que se descobre, que ainda é possível fazer e refazer uma época em grande estilo.


Momento Mágico: Belfast


Neon NeonStainless Style (2008) - Lex


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2008/09/20

Mystery Jets

Outros...

O charme libertado pela voz de Blaine Harrison, é intenso e fica a pairar no ar como se de um perfume se tratasse, tem uma marca própria, um timbre característico. Os Mystery Jets foram formados em Eel Pie Island (uma ilha do rio Tamisa) e foi nesse meio semi-isolado, que começaram a modelar a sua carreira. Ao conceberem Making Dens (2006) e Zootime (2007) os Mystery Jets superaram o difícil inicio de carreira com distinção, moldando assim dois álbuns de pop/rock bastante competentes. Com uma média acima da média e ano após ano, chega Twenty One e com ele, os Mystery Jets mostram estar num beco sem saída, a criatividade entra em ciclo repetitivo e não se constrói nada de novo, mas o que para muitas bandas é problema complicado, para outras não apresenta qualquer tipo de dificuldade.
Apoiados no produtor Erol Alkan, os Mystery Jets planearam um disco brilhante, agarraram o poder que a produção cuidada hoje tem e criaram uma boa quantidade de notáveis canções: “Young Love” (Ft. Laura Marling); Half In Love With Elizabeth; “Flakes”; “Two Doors Down” ou “Hand Me Down”.
A sonoridade dos Mystery Jets nasce do cruzamento de bandas dos 80’s e dos anos 00’s, misture-se bandas como os ABC, Talk Talk e bandas The Killers, Franz Ferdinand ou The Futurheads e aí está um som perfeitamente pop-rock, aliás o segredo dos Mystery Jets e deste novo trabalho, reside fundamentalmente na não formatação da banda, os temas vão surgindo uns atrás dos outros, sem grandes regras, sem grandes complexos, musica pelo simples prazer de o ser.
Os Mystery Jets não são nem pretendem ser, melhores que os outros, apenas se propõem a ser mais uns e se há muita gente que vê nisso um defeito, existe muito boa gente que interpreta esse dado como banal e corriqueiro, um direito perfeitamente legitimo que qualquer criador de musica tem.

Momento Mágico: Flakes


Mystery JetsTwenty One (2008) - Warner


Mystery Jets (site) & MySpace



2008/09/15

Ane Brun

Desconhecida?

Ao terceiro disco de originais, Ane Brun tem que desaparecer do anonimato. A musica por si criada tem de ser conhecida pela multidão, há que a catapultar para o meio do povo. Ane Brun faz a sua musica parecer uma suave e calma onda, há uma constante quietude, uma perfeita bonança. Com ajuda de um piano e de uma guitarra acústica e recorrendo ainda a minúsculos arranjos de cordas, Ane Brun vai delimitando a sua área de acção.
Ane Brun nasceu na Noruega, mas vive já há alguns anos na Suécia e é das terras frias do norte, que esta songwriter vai arquitectando as suas doces melodias, formando temas de intensidade pop, sem nunca descorar o lado mais folk da vida. Há nos seus temas a intenção de marcar ritmos e cadências, como se toda a lógica musical fosse um simples caminho de terra batida, onde pouca gente passa e onde os arbustos e as demais ervas, vão conquistando terreno. Tudo é perfeitamente natural e inato, de nada serve estar com grandiosas eloquências, porque tudo regressa ao seu estado primário.
Treehouse Song” é a apresentação de Changing Of The Seasons e surge como uma sensível combinação de folk com pop de cariz rural, onde o ritmo lembra quase um ambiente country; a forma dedilhada e o piano triste de “Fall” surgem no horizonte, da mesma forma que o dia vai desaparecendo, vai ficar escuro, vai todo terminar, vai todo cair; “Puzzles” são fragmentos espalhados numa mesa e a tentativa frustrada da sua construção; “Ten Seconds” é pureza pop, decalque de voz, ladeada por um constante coro de vozes, enriquecido por uma imensidão de cordas.
Changing Of The Seasons é talvez a forma mais eficaz de ficar a conhecer Ane Brun, uma voz misteriosa de contornor cristalinos, um álbum de uma invulgar simplicidade, transmitindo do primeiro ao ultimo tema, uma invulgar paz de espírito.

Momento Mágico: Armour


Ane Brun - Changing Of The Seasons (2008) - Det Er Mine


Ane Brun (site) & MySpace

2008/09/09

Air France

Algures

Quando ouço falar da Suécia ou melhor, quando relaciono musica e Suécia na mesma frase, o que me surge de imediato na mente, é a palavra pop. Pode não ter nascido lá, mas foi por essas paragens, que a palavra pop-music atingiu o seu expoente máximo, sim refiro-me obviamente aos ABBA. Depois dessa explosão, não deve haver um único musico seco, que não tenha perdido o receio, de desenhar linhas pop ou construir harmonias perfeitamente solarengas. Aliados a uma forte componente electrónica, os Air France banda que nos chega de Gotemburgo, partem de um universo quase mítico, um mundo povoado por seres de várias cores e feitios.
No Way Down [EP] é o segundo trabalho dos Air France, composto por apenas 6 temas, a banda dá passos concretos e seguros, não pretende arriscar em demasia, sustenta a sua musica num electro-pop atmosférico, auxiliado por uma imensidão de samplers, vai criando pequenas bandas sonoras para curtas metragens imaginárias. “Maundy Thursday” usa cadências resplandecentes, transpira luz por todo o lado; “June Evenings” traz consigo o ambiente cosmopolita de ténues iluminações, é perfeita descrição de um ideal fim de tarde; “Collapsing At Your Doorstep” surge como um tema festivo, como se alguma coisa estivesse para nascer, é a preparação de algo que irá ser muito bom á posterior; em “No Excuses” as guitarras saltitantes vivem como se fossem uma pequena brisa, uma suave e quente aragem, é uma imensidão de sensações, lindíssimo.
No Way Down [EP] é perfeito na sua curta dimensão, é todo demasiado delicioso, não dando qualquer hipótese ao aborrecimento, funciona como um elo de ligação entre o actual momento e um local onde qualquer um de nós gostaria de viver.

Momento Mágico: No Excuses


Air FranceNo Way Down [EP] (2008) - Sincerely Yours


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2008/09/05

The Black Keys

Em Crescendo

O velho e sujo garage rock está de volta. Na verdade não andou desaparecido, enquanto vagueávamos pelas outras divisões do palácio, os Black Keys andavam a ler o manual, que alguém deixou esquecido na prateleira dos fundos. Com o The Big Come Up (2002), dá-se inicio ao projecto, apoiados no lado mais negro do blues, traçam um objectivo concreto, desenhar uma estrutura em duo e partirem de encontro ao lado mais cru da coisa. Auerbach (guitarra/voz) e Carney (bateria) definiram assim de uma única assentada o seu objectivo, fazer da simplicidade musica. Seguiram-se Thickfreakness (2003), Rubber Factory (2004) e Magic Potion (2006), sempre com o objectivo de cortês de marcarem um estado de alma, aperfeiçoando o mundo á sua volta, traduzindo em notas de musica a energia e o vigor que percorre as veias de ambos.
É com este engenho que chegam a 2008 e é assim que nasce Attack And Release. O novo álbum de Black Keys, é o mais apurado de todos os seus trabalhos, está perfeitamente lapidado, foi intensamente pensado, está mais dormente, bastante mais comedido e controlado, isto deve-se fundamentalmente ao mão mágica de Dangermouse.
Attack And Release vive para além do simples duelo entre dois músicos, é mais do que isso, os The Black Keys cresceram e é muito provável que nem tenham reparado e ao afastarem-se um pouco do produto original, souberam conquistar um espaço que é seu por direito. Tudo o resto é uma deliciosa e redonda mão cheia, de temas repletos de electricidade estática, a saber: “All You Ever Wanted”; “I Got Mine”; “Strange Times”; “Remember When (Side A)”; “Oceans And Streams”.

Momento Mágico: Things Aint Like They Used To Be

The Black Keys - Attack And Release (2008) – Nonesuch


The Black Keys (site) & MySpace

2008/09/01

The Black Angels

Saudável Repetição

O regresso á distorção equilibrada e ponderada, faz-se ao som Directions To Seek A Ghost o mais recente álbum de The Black Angels. Em Passover o excesso de riffs e as constantes deformações sonoras das guitarras, aproximam a banda de nomes como Jesus & The Mary Chain, Dinosaur Jr. ou até mesmo de uns Spacemen 3, com Directions To Seek A Ghost a banda torna-se mais introspectiva e mais soturna. Ao segundo álbum os texanos, levantaram o pé e produzem um disco melancólico, tristonho e nostálgico, deixam de viver num mundo a preto e branco, para agora se passearem num universo com imensos cinzentos.
Directions To Seek A Ghost puro Neo-Psychadelia, vai ao encontro dos ambientes criados por Black Mountain mas sem a mestria de McBean, penso que o ideal será arrumar este trabalho de The Black Angels, na mesma prateleira de Black Rebel Motorcycle Club, são imensos os pontos de contacto entre as duas bandas, desde as semelhanças vocais, ao efeito repetitivo e circular resultante do permanente arrastar de toda a componente instrumental.
Com Directions To Seek A Ghost os The Black Angels, marcam uma direcção, mas não vincam nem deixam uma grande marca, penso que terá sido propositado, já que tudo soa a uma perfeita descontracção sonora, onde tudo é feito com suaves nuances e tranquilas fusões entre rock e os ambientes perfeitamente psicadélicos.

Momento Mágico: Never/Ever


The Black Angels - Directions To Seek A Ghost (2008) - Light In The Attic
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2008/08/25

Okkervil River

2ª Parte

Com Black Sheep Boy fizeram-se notar, disseram um olá ao mundo e tornaram-se conhecidos. Decorria então o ano de 2005 e os Okkervil River assinavam um disco folk-country, repleto de negras paisagens rurais, onde o caótico se sobreponha á harmonia. Em 2007 surge a primeira parte deste disco duplo. The Stage Names começa a esboçar a intenção de se libertarem, daquela imagem mais sombria, com a qual eram conotados, com a chegada de The Stand-Ins (a segunda parte do duplo álbum) os Okkervil River construíram definitivamente uma clarabóia, através da qual pequenos raios de luz, vão iluminar o espaço cinzento e algo insalubre onde se movimentavam e cresciam.
The Stand-Ins mostra em definitivo uma banda mais aprumada, com ideias cristalinas e delicadas, onde se pratica um folk festivo e alegre “Lost Coastlines” é a perfeita imagem disto, suave e compreensível seja a nível musical ou a nível literário. “Singer Songwriter” tem um encanto precioso, alonga-se no tom descritivo, sem nunca perder a parte harmoniosa. Com “Blue Tulip” chega o cântico em forma de desespero, de inicio delicioso até à zona assombrosa.
Will Sheff e os seus rapazes de Austin, completam assim a segunda parte do álbum duplo. Somando The Stage Names e The Stand-Ins, resulta que a pop e a country-folk podem conviver no mesmo quarto, partilhar a mesma cama, sem existir uma necessidade de transformarem em amantes.


Momento Mágico: On Tour With Zykos


Okkervil River - The Stand-Ins (2008) - Jagjaguwar

2008/08/18

Richard Swift

Alma Soul

O mais recente EP de Richard Swift é um pequeno deslumbre. Swift é um facto consumado, já não espanta, já não causa qualquer surpresa. Swift é um rapaz sobredotado, vai construído a espaços (muito curtos, diga-se) tema após tema, vai esboçando a sua ainda curta carreira. Em 2008 já lançou uma colecção de temas com Richard Swift as Onasis, 20 temas correndo um pouco todos os géneros, um álbum para todos os sentidos.
Ground Trouble Jaw [EP] é um curto e delicioso passeio pelo lado mais soul do espírito de Swift. Requinte e apuro são a sua imagem de marca, não é preciso grandes revoluções nem uma grandiosa produção, basta ser dotado de uma voz competente e ter uma excelente capacidade para desenhar meia dúzia de temas. Ground Trouble Jaw [EP] surge vindo do lado mais negro de Swift, 5 temas inundados pelas águas mais turbas da soul americana. Com “Would You?” descobre-se que a voz de Swift, chega dos confins da alma e mesmo carregado uma imensa dor, chega apinhada de esperança. “Lady Luck“ é soul em formato virgem, tudo perfeito, tudo intocável. “The Original Thought” soa a poema dorido, é provável que tenha acontecido algo, Swift deixa transparecer algumas coisas, mas não tudo, fica a meio caminho do problema e de coisa nenhuma. No final do EP surge "A Song For Milton Feher", este sim um Richard Swift mais identificável, a praticar aquela sua folk-pop já tão caracteristica, feita de pequenos nadas.
Se por um lado Ground Trouble Jaw [EP] peca por ser curto (dura apenas alguns curtos minutos), por outro lado está disponível gratuitamente, o que não só é uma boa ideia, como se está (e ainda bem) a transformar num hábito. Ouvir/Tirar: AQUI

Momento Mágico: Lady Luck


Richard SwiftGround Trouble Jaw [EP] (2008)

2008/08/10

Oneida

Vacina em Dose Tripla (1ª Parte)

Como é que se escreve um pequeno texto, sobre um álbum que apenas tem 3 musicas? Fácil, muito fácil, o disco é dos Oneida.
Preteen Weaponry é a primeira parte de um triplico, que responde pelo nome de Thank Your Parents, após uma boa quantidade de audições, posso quase garantir que estamos certamente perante um trabalho de uma seriedade impressionante, pensado e repensado ao ínfimo pormenor. Preteen Weaponry é ultra hipnótico, agarrado á filosofia da electro-folk vai debitando toneladas de envolvimento eléctrico (guitarra e baixo), que com o perfeito apoio de toda a estrutura rítmica, desenha na perfeição um perfeito mundo psicadélico.
São apenas 3 os temas no álbum, Preteen Weaponry (Part 1), Preteen Weaponry (Part 2) e Preteen Weaponry (Part 3), ligados por desconfortáveis drones, carregados de simbolismo negro vindo das profundezas.
A forma com os Oneida delinearam esta primeira parte da triologia, prevê que o resultado final, seja um resumo intenso, da sua já longa carreira. Preteen Weaponry não é para todos os ouvidos, precisa de algumas audições dedicadas e de uma pré-disposição para o género.

Momento Mágico: Preteen Weaponry (Part 1)


OneidaPreteen Weaponry (2008) - Jagjaguwar

2008/08/05

It Hugs Back

Esperança

É uma simples e curta apresentação, aliás não passa de uma elementar recolha dos 4 singles já editados por esta banda de Kent, England, entre 2006 e 2008. Os It Hugs Back são três amigos, que passaram grande parte da sua adolescência colados a Sonic Youth, My Blood Valantine, Lush. O resultado é impressionante, bandas agarradas às influências atrás referidas, deve haver às centenas, o que distingue os It Hugs Back de todas as restantes, é a sua qualidade enquanto banda. A sussurrante voz de Matthew equilibra toda a estrutura musical, de forma que tudo parece uniforme e de uma simplicidade atroz.
Record Room – First Four Singles [EP] foi gravado de forma cronológica e uma das coisas que mais me chamou a atenção, foi a carácter e a marca deixada por todos os temas, há um contínuo e permanente talento, que dificilmente passará despercebido ao ouvido do melómano mais atento. “Little Steps”, “Saving”, “Sometimes The Sun” e “Soft Spot” são 4 pequenos diamantes, já completamente polidos e que apenas aguardam a exibição que merecem.
Record Room - First Four Singles [EP], não é mais do que a apresentação do longa duração, que irá sair muito provavelmente até ao fim do ano, aguardemos então…

Momento Mágico: Soft Spot


It Hugs BackRecord Room – First Four Singles [EP] (2008) - Phantom Sound & Vision

2008/08/01

Beck

No Caminho Perfeito

O rapaz prodígio está de volta. A idade já lhe atribui as características de um homem adulto, mas olhando com algum pormenor ainda vemos as feições de um jovem. A principal imagem de marca de Beck (a sua voz) está mais activa que nunca, continua rouca e penosa, mas ganhou contornos mais escuros, tornou-se misteriosa. Com Modern Guilt, Beck atinge definitivamente a maioridade, marca o caminho que quer percorrer, já não tem desvios gratuitos nem aventuras desnecessárias, tudo é pensado e trabalhado de forma a que tudo seja o mais perfeito possível. Modern Guilt foi produzido por Danger Mouse (metade dos Gnarls Barkley) e esse jogo de equipa resultou em perfeita mestria, todo o disco está repleto de pequenos toques e retoques, abundam os pormenores e os efeitos de produção.
Modern Guilt abre com “Orphans” é a perfeita pop-song. “Gamma Ray“ inunda tudo à sua volta, é super rápida, tem uma impressionante velocidade, tudo é feito e cantado em velocidade cruzeiro, em cadência cuidada. “Chemtrails” é puro shoegaze, voz em falsete que vai suportando toda a estrutura, até se dar a explosão rock, fortemente apoiada em todo o sector rítmico. “Modern Guilt” tem uma passada perturbante, que se desenvolve com uma cadência perfeita, terminando com um curto coro a uma só voz… perfeito.
Beck regressa em 2008 com um disco sem qualquer mácula, a única coisa apontar a Modern Guilt é a sua curta duração, tudo passa demasiadamente depressa, tudo se esvai rapidamente, tudo é efémero.

Momento Mágico: Modern Guilt


BeckModern Guilt (2008) - Interscope Records

2008/07/18

The Black Dog

Aromática Viagem

A nebulosa musical que surge no horizonte, logo que surgem os primeiros acordes de “Train By The Autobahn [Part 1]”, faz-me transpirar de uma forma exótica, não é apenas suor, é algo mais, algo subtil, qualquer coisa misteriosa.
Cheira a canela.
Poderia sem dúvida nenhuma atribuir, poderes mágicos à musica dos Black Dog, tal é a forma contagiante com que os pés necessitam de marcar o compasso, é irresistível, é arrebatador. Toda a ambiência climática evolve o ouvinte de uma forma tocante, são trombas de baixos, é a maquinaria electrónica, são as sequências rítmicas sem fim.
Cheira a caril.
O último trabalho dos Black Dog (o nono álbum) será provavelmente o meu álbum de electrónica de 2008, mesmo sabendo que é um grande risco afirmar tal coisa (ainda só vamos a meio do ano), vou tentar assumir e defender tal desígnio. Claro que tal tarefa se apraz de fácil cumprimento, isto porque Radio Scarecrow é sem dúvida o disco menos cansativo do ano.
Cheira a cravinho.
Train By The Autobahn [Part 2]” continua a sua caminhada, a sua viagem, acalmou, quase que se silenciou na transição entre temas, mas lentamente ganha novamente corpo, tudo volta ao normal, batida enigmática, fatal, descarga electrónica em perfeita compensação.
Cheira a pimenta.
Radio Scarecrow vai continuando a debitar decibéis de alta qualidade, pequenos oásis de som, pérolas de método, tudo vai continuando em sequencia perfeita, progredindo em ondas perfeitas, pode aqui ou ali surgir um ou outro tempo morto, mas no momento logo seguinte, tudo começa a fazer novamente sentido.
Cheira a Black Dog.

Momento Mágico: Train By The Autobahn [Part 1] & [Part 2]


The Black DogRadio Scarecrow (2008) - Soma

2008/07/14

Micah P. Hinson

Dorido Romance

O passado negro e quase sempre auto-destrutivo de Micah P. Hinson, deverá ser certamente uma das principais razões, para tão intensas desilusões, para tanto desengano, para um tão vasto universo de desapontamento. O romantismo de Hinson é arrastado e desgraçado, é doloroso, cruel e atroz. Todas as suas canções são hinos à lastima e ao sentimento mais penoso, musica criada após intensas feridas lhe terem dilacerado o coração.
Tell Me It Ain't So” surge na névoa como uma liturgia publica, um pedido de ajuda, a tentativa de ainda poder ser socorrido. Um violino e uma guitarra pode ser os melhores amigos, desde que combinados da forma correcta, “Sunrise Over The Olympus Mons” é a melhor descrição disso, os ecos sem fim da guitarra, contrastam na perfeição com a plenitude do violino, a sonolenta voz de Micah faz o resto. A simplicidade de “The Fire Came Up To My Knees” não é mais uma do que uma prova real, de que é possível criar canções sem grandes mordomias, basta um curto dedilhado de guitarra, uma voz potente e meia dúzia de palavras sentidas. “You Will Find Me” é fortemente cinematográfico, poderia muito bem viver dentro de um qualquer filme do Tarantino, tem um ritmo muito próprio, uma intro à anos 60, para depois andar enrolada em permanentes crescendos, pondo um pé no mais cru do folk e ao mesmo tempo nunca abandonar o espírito californiano.
…And The Red Empire Orchestra é puro folk de perfil rural, por onde se espraia a musica de Micah, é uma maquina de criação e transmissão de sentimentos, foi-lhe dando uma mordaz carapaça, onde ele agarrado á paixão e à dor de alma, vai gritando poemas de amor.

Momento Mágico: We Won't Have To Be Lonesome


Micah P. Hinson – “… And The Red Empire Orchestra” (2008) - Full Time Hobby

2008/07/11

Sigur Rós

Vikings

A destreza nórdica, que sempre distinguiu os Sigur Rós de todos os projectos feito de gelo, é a sua eficácia polifónica. Sentimentos frios e claustrofóbicos, gritos de desespero, melancolia soturna, hinos a preto e branco. Os Sigur Rós souberam sempre pintar paisagens apinhadas de emoções, todo o cosmos por eles inventado é uma imensa maré de esperança.
Os Sigur Rós usam o islandês em todos os seus temas, isso dá-me uma liberdade mental sem igual, posso abrir completamente o meu espírito e criar letras imaginárias, ir colorindo as imagens que se vão soltando a cada nota, a cada coro.
A abertura do 6º álbum de originais desta banda de Reykjavik, faz-se nas ondas de Animal Collective “Gobbledigook” é um tema alegre e fortemente festivo, o que poderia antever uma viragem de 180º na carreira até aqui desenhada pelos Sigur Rós, mas não com “Inní Mér Syngur Vitleysingur” começa lentamente a projectar-se as ambiências que tão bem os caracterizam. A partir daí é toda a escuridão regressa, voltam os sons lunares, as vozes sombrias “Góðan Daginn”, o pequenos ajustes musicais, as pequenas deduções de harmonia.
Með Suð í Eyrum Við Spilum Endalaust
(tradução para inglês: With A Buzz In Our Ears We Play Endlessly) é um disco dentro da linha mais clássica a que os Sigur Rós nos habituaram, pode aqui e ali sair um pouco da linha, mas examinando todos os seus contornos, rapidamente se pode concluir de que estão em excelente forma.

Momento Mágico
: Ára Bátur


Sigur Rós
- Með Suð í Eyrum Við Spilum Endalaust (2008) – XL Recordings

2008/07/05

Oceansea

Promissor

Munido da sua guitarra e agarrado à sua simplicidade urbana, um rapaz desenha a traços de carvão um EP a preto e branco, não existe a aspiração de fazer algo sublime, apenas a necessidade de criar, a urgência de divulgar.
Apesar de possuir outros projectos, Oceansea é o nome do projecto solitário de Daniel Catarino e o EP Songs From The Bedroom Floor... o seu primeiro trabalho. Gravado de uma forma elementar e sem grandes apetrechos Songs From The Bedroom Floor..., reflecte a calmaria típica de quem partilha mundos perdidos, universos de vozes ambulantes e dedilhados de guitarras melancólicas. Songs From The Bedroom Floor... [EP] ouve-se em crescendo, vai alimentado de uma forma subtil o ego de quem o escuta.
O suave suspirar de “The Whimsical River”, surge durante o levantar da neblina oceânica, é um autêntico misto de canto e de oração folk. Em “Breathing” há uma indestrutível força de vontade, um ameno grito de afirmação. O dia já vai alto quando “Over The Sun” lhe intensifica o brilho, confirmando-se que nem só de sol vive o homem. ”Seasons In The Rain” continua no mesmo formato, voz em duplicado, guitarra minuciosa. “Postcards From The Walls Of Sin” é um tema delicioso, bucólico, arrasta-se durante alguns minutos, está repleto de intenção de liberdade, de partir, quer definitivamente voar para bem longe.
Da mesma forma que Songs From The Bedroom Floor... [EP] peca por ser curto, fica no ar a sensação de dever cumprido, a proposta de trabalho foi cumprida e bem realizada, é muito provável que a intenção tenha sido esta, eu é que fiquei com água na boca.
A ouvir: http://www.myspace.com/oceanseamusic

Momento Mágico: Postcards From The Walls Of Sin


Oceansea - Songs From The Bedroom Floor... [EP](2008)

2008/07/01

Silver Jews

Paixão

Uma das coisas que mais prazer me dá, nesta coisa da musica, são as paixões inesperadas, aquele sentimento estranho de difícil explicação e de complexa justificação. Gosta-se (e muito) e pronto, é tudo quanto basta.
A banda de David Berman tocou-me a alma em 1998, alguém num acto de pura simpatia, alguém agarrou no American Water e disse-me: “ouve, acho que tem muito a ver contigo”… preciosa alma. Depois disso, parti à descoberta do maravilhoso mundo de Silver Jews, primeiro com Starlite Walker (1994) e logo de seguida com o The Natural Bridge (1996). Dessa data até hoje nunca mais perdi o fio à meada, Bright Flight (2001) e a obra prima Tanglewood Numbers (2005). E o mais interessante nesta caminhada, é que a intensidade aumenta de uma forma quase matemática, palavra a palavra, canção a canção, disco a disco, é a construção do cosmos “silveriano” a tomar conta do meu ser.
O mais recente trabalho dos Silver Jews, chega na altura em que a ressaca estava a ficar insuportável, a dependência provocada pela necessidade de uma nova dose de canções e de novos poemas de Barman é altamente dolorosa, com Lookout Mountain, Lookout Sea acaba a angustia e abre-se a esperança. “What Is Not But Could Be If” é a abertura perfeita, lenta, intensa, pacifica, é a antítese ideal de todo o disco. A “trilogia” alt-pop composta por “Suffering Jukebox”, “My Pillow Is The Threshold“ e “Strange Victory, Strange Defeat“ é de arrasar com a mais sossegada das almas, é impossível não tomar atenção, é ao mesmo tempo uma brilhante e demolidora sequência.
O sexto álbum de Silver Jews é musicalmente um tratado, transborda melodias rock-folk por todos os poros, é Cash, é V.U., é Dylan, um disco mais que perfeito, da mais exemplar banda da actualidade.

Momento Mágico: We Could Be Looking For The Same Thing


Silver JewsLookout Mountain, Lookout Sea (2008) – Drag Cit

2008/06/26

The Accidental

Verdes Campos

O folk imanado pelos The Accidental, tem contornos rurais, cheira a riachos e a fardos de palha, esboça um universo perfeitamente campestre, tudo é sossegado, tudo é pacifico. “Knock Knock” dá o pontapé de saída de There Were Wolves e surge como um convite ao mundo de The Accidental. Tudo parece surgir do nada, um leve bater à nossa porta, ao qual sem medo respondemos, abrindo a porta deixamos entrar uma corrente de fresco folk, que de imediato se espalha e inunda toda a casa dando-lhe uma luminosidade primaveril e um fabuloso e intenso cheiro a flores. Ouça-se por exemplo “I Can Hear Your Voice” que surge como um passeio a dois, através de uma curta estrada de terra batida, numa abafada tarde de calor.
Durante todo o sistema de estruturação musical, os ingleses The Accidental que nascem da união de 4 pessoas, na qual se destacam Stephen Cracknell (The Memory Band) e Sam Genders (Tunng), vão usando regras e normas repletas de antecendentes musicais. Saltam à vista e chegam-nos aos ouvidos nomes com Iron & Wine, Espers ou White Magic, a norma folk de perfis perfeitos, sem mácula, sem desvios, está tudo lá, vozes sobrepostas, acordes sobranceiros, percussões em complemento.
There Were Wolves
é um disco de imagens, está inundado de paisagens, de pequenos tiques e cliques. Há como uma intenção de normalidade, tudo caminha para o sossego perfeito, todos os rios desaguam no mar, o dia nascerá outra vez amanhã, eu respiro, tu respiras… esmerado, porque é simples.

Momento Mágico
: Illuminated Red


The Accidental
There Were Wolves (2008) - Thrill Jockey


2008/06/22

Fuck Buttons

Circular

A propagação sonora dos primeiros minutos de “Sweet Love For Planet Earth” (o primeiro tema do primeiro álbum de Fuck Buttons) é fortemente psicótico, aliás chega a ser quase psiquiátrico, surgem milhares de drones por todo lado e querem ficar a viver à força no recanto mais escuro do nosso cérebro. É uma pura rajada cósmica que durante 9 minutos, nos amotina o estômago, nos massacra toda a estrutura óssea. É uma imaculada implosão de sensações, uma demonstração cabal que é possível estoirar, com tudo o que está previamente convencionado. “Ribs Out” alimenta a esperança em conseguir sair deste inferno, em que se tem transformado o mundo á nossa volta. É genuíno grito tribal a combinar com a réstia de fé, que ainda vai sobrando em cada um de nós, uma espécie de angélicos missionários em desespero de causa. O episódio seguinte “Okay, Let's Talk About Magic”, adensa ainda mais a parte negra do universo dos Fuck Buttons, é um puro buraco negro, atrai toda a massa á sua volta, nada sobra, toda a luz é por ele absorvida, o que está para lá ainda ninguém sabe. A confiança retorna às primeira batidas de “Bright Tomorrow”, vagueia-se meio caminho para depois e após uma intensa batalha de ruídos, se retornar ao ponto de partida.
Se no inicio do disco se destrói toda a estrutura, com os loops de “Colours Move” chegamos à alma, ao espírito da coisa, só que infelizmente (ou talvez não) a esta altura, todos os sectores deixaram de estar ligados entre si, pouco ou quase nada sobrou, resta apenas uma pequena e suave névoa no horizonte, no ar ficou apenas a pairar a ideia, de que logo que tudo o pó desapareça, ser possível voltar a edificar tudo novamente.
Brits Andrew Hung e Benjamin John Power, assinam um potentíssimo disco de estreia, não é um disco dócil, não é um disco fácil, não é um disco para todos, é preciso abraçá-lo, é preciso compreende-lo. O fundamental é ouvi-lo com imensa atenção, o importante é dar-lhe espaço, o que é realmente necessário, é quebrar barreiras mentais e sonoras.

Momento Mágico: Sweet Love For Planet Earth


Fuck ButtonsStreet Horrrsing (2008) - ATP Recordings

2008/06/18

American Music Club

Dourado

Não sei o que irá acontecer até ao fim de 2008, mas os American Music Club ao apresentarem o seu novo disco The Golden Age, assinam um dos melhores discos do ano. Mark Eitzel e companhia, continuam o seu percurso, uma suave caminhada dentro slowcore de contornos folk, onde o lirismo é uma arma e a orla musical é o perfeito fio condutor.
Ao desembrulhar The Golden Age, a primeira luz que brilha é “All My Love” um arrastado tema de amor, carregado de ténue esperança e forte delicadeza. “The Victory Choir” é pop talentosa, sem qualquer tipo de grandeza, apenas mostrar que é tão fácil ser simultaneamente simples e fascinante. “The Sleeping Beauty” é percorrer luminosas planícies, é estar acordado e sonhar profundamente, é a busca do beleza interna.
Produzido por Dave Trumfio (Wilco/My Morning Jacket) que fazendo uso de toda a sua experiencia e técnica, foi levantando a obra de uma forma subtil e suave, dando corpo a uma colecção de temas, onde nostalgia, melancolia e desgosto, vão casando na perfeição com as guitarras acústicas, com as harmonias requintadas, com a voz melosa e pastosa de Eitzel.
Os American Music Club vão aparecendo e desaparecendo de cena, gostam de estar e de não estar, o universo musical e todo o star-sistem não é o seu mundo, mas penso que é este permanente ligar e desligar, que faz deles uma estupenda banda.

Momento Mágico
: One Step Ahead


American Music Club
The Golden Age (2008) - Merge Records

2008/06/14

Resposta Simples

Puro e Duro

O formato já há muito que foi criado, a dificuldade está em conseguir inovar, para isso será necessário agarrar no mesmo barro e ir pouco a pouco desenhado o objecto pretendido. Foi a isso que se propuseram 3 amigos, que munidos de imensa força de vontade, formaram os Resposta Simples. O power-trio açoreano já com 5 anos de existência, lida com enorme à vontade quer com toda a construção musical, quer com todo o sector vocal. É assim que vão edificando um universo penetrante e incisivo, o resultado são torrentes de energia, rasgos de potencia e toneladas de raiva em formato hard-core.
Sonho Peregrino é o álbum de estreia dos Resposta Simples, 9 temas de puro e duro hardcore cantado em português, coisa que é pouco habitual nestas andanças, aliás o mais normal é esconderem-se por detrás da língua inglesa e assim tentarem passar despercebidos, muitas vezes ocultando a mensagem. Ora os Resposta Simples não o fizeram, criaram uma banda com nome português, editaram um disco com titulo em português, escreveram e cantaram canções em português, podem não ser o pioneiros, mas são certamente dos poucos a fazê-lo.
Tema após tema Sonho Peregrino vai debitando cargas de decibéis, ao mesmo tempo que vão transmitindo ideias e ideais. “Meias conversas para mim não servem… Quem quiser mudar tem de uma atitude tomar…” ouve-se em “Atitude (começar de novo)” ou “Como podes criticar se estás sempre a falhar?” em “Descanso Eterno”, são exemplos que há contexto para lá das notas musicais.
Há muitos anos que uso uma máxima, o problema nunca é dos discos, nem das bandas, a existir alguma dificuldade ela está sempre nos nossos limites, nas nossas fronteiras musicais, nos nossos ouvidos… por isso, deixem de ser duros de ouvido, Sonho Peregrino é isso tudo, não é um disco para meninos, é um disco para rapazes/homens de barba rija.
Para ouvir e encomendar:
http://www.myspace.com/respostasimples
http://www.impulsoatlantico.com/

Momento Mágico
: Genocídio Cultural


Resposta SimplesSonho Peregrino (2008) – Impulso Atlântico