2008/12/30

Melhores álbuns de 2008 - Bruno Coelho

Um ano marcado por muito low-fi/noise/experimental (The Dodos, No Age, Fuck Buttons, Oneida, Ruby Suns, Woods, Woods Family Creeps, Health, Wavves, Sick Alps, Women, etc), pela confirmação dos Buraka Som Sistema, pelo regresso dos Portishead, por um novo rumo no som dos Sigur Rós e por mais um excelente álbum dos Tv On The Radio.


1 Black Mountain - In The Future
O rock reinventado.


2 The Dodos - Visiter
Juntam na perfeição influencias como os Animal Collective ou Grizzly Bear.


3 No Age - Nouns
Passaram com distinção no teste do segundo álbum. Rock!


4 TV On The Radio - Dear Science

5 Fuck Buttons - Street Horrrsing

6 Buraka Som Sistema - Black Diamond

7 Sigur Rós - Með Suð í Eyrum Við Spilum Endalaust

8 Portishead - Third

9 It Hugs Back - The Record Room: First Four Singles

10 Oneida - Preteen Weaponry


11 Notwist - The Devil, You + Me

12 Ruby Suns - Sea Lion

13 Woods - At Rear House

14 The Dø - A Mouthful

15 Miles Benjamin Anthony Robinson - Miles Benjamin Anthony Robinson

16 Fleet Foxes - Fleet Foxes

17 Lykke Li - Youth Novels

18 Spiritualized - Songs in A&E

19 French Kicks - Swimming

20 Tenniscoats & Secai - Tenniscoats & Secai

2008/12/29

Spiritualized

Disco do Ano

Com o fim de 2008, chegam as infindáveis listas, listinhas e listagens, anda meio mundo em perfeita azafama, revistas, jornais, sites, blogs, etc, tudo com o único objectivo ordenar das mais diversas formas o que se foi ouvido durante o ano que termina. Por aqui aconteceu a coincidência, de o ultimo texto do ano ser sobre o disco, que irá ocupar o primeiro lugar da lista dos melhores de 2008, Songs In A & E é o ultimo trabalho dos Spiritualized.
5 anos após Amazing Grace, Jason “Spaceman” Pierce regressa em perfeita apoteose, Songs In A & E é um disco sem fim, um trabalho repleto de imensidões espaciais, onde nem o vácuo consegue escapar. Songs In A & E é um disco auto-depressivo, carrega em cima dos ombros um semblante denso, uma negra esperança de que tudo pode melhorar. Pierce é um génio consegue construir e destruir tudo á sua volta (incluindo ele próprio) e depois cantar tudo isso como se nada se tivesse passado. É lunático e romântico, é depressivo e contemplativo, convive na perfeição com todas as suas dualidades criativas.
Os 18 temas que compõe esta obra de arte, está entrelaçada por “6 Harmonias” que servem de descompressor, foi a forma que Pierce encontrou de ir acalmando toda a obra, de outra forma poderia ter corrido o risco de entrar numa espiral auto-destruidora e são precisamente estas “paragens” que vão impondo o ritmo na peça. Com Songs In A & E, Jason Pierce e os outros Spiritualized, assinam o seu melhor trabalho desde Ladies And Gentlemen We Are Floating In Space, e com isso está de volta a energia shoegaze em “Yeah Yeah” e “You Lie You Cheat”, o arrastamento físico do slowcore em “Sweet Talk” e “Death Take Your Fiddle” ou o space rock em “Soul On Fire”, aliás como se ouve no refrão, este tema é uma verdadeira epifania:

Baby, set my soul on fire.
I’ve got two little arms to hold on tight and I want to take you higher.
Baby, never should say never.
I’ve got a hurricane inside my veins and I want to stay forever.

Vem aí 2009, vai começar tudo de novo… feliz ano e boa musica.

Momento Mágico: Soul On Fire


SpiritualizedSongs In A & E (2008) - Castle


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Soul On Fire (Video)

2008/12/26

Camané

Tradicional

O fado anda quase sempre numa roda viva, procura renovação, procura novos estilos, procura novas vozes, acontece que enquanto meio mundo busca o El Dorado, há quem permaneça sempre igual a si e continue a marcar pontos. 13 anos depois Camané continua a ser a imagem dessa tradição, fiel ao conceito e agarrado a grandes nomes da poesia portuguesa. Desta vez Camané usou um peso-pesado da nossa praça, José Mário Branco, o que acrescentou um saber inconfundível e uma sua sublime capacidade de produção, criando simultaneamente em Sempre de Mim uma vertente negra, ao mesmo tempo que lhe transmite uma luminosidade incandescente. Camané é um fadista como há (ou houve) poucos, é dono de uma voz singular, rigoroso e perfeccionista, agarra na estrutura tradicional do fado e pouco lhe acrescenta, e é precisamente essa a sua grande proeza, continuar e manter o fado tal e qual como ele deve ser. Sempre de Mim reúne a mestria de Manuela de Freitas e agarra em poetas consagrados (Fernando Pessoa, Pedro Homem de Mello, etc) e autores fora do mundo do fado (Sérgio Godinho, Jacinto Lucas Pires, etc), para com apoio de José Mário Branco, unir tudo numa obra que irá deixar marcas naquilo que se decidiu designar de fado tradicional.

Momento Mágico: Sei de um Rio


CamanéSempre de Mim (2008) – EMI


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2008/12/21

The Dodos

Alternativos

A cena freak-folk anda de óptima saúde, são imensos os projectos nascidos nos EUA, os Dodos seriam mais uns, caso não fossem autores de um dos discos mais interessantes do ano. Ao segundo álbum, o duo Long / Kroeber liberta um impulso de improvisação controlada, onde a folk é a principal raiz, mas onde cabe ainda a pop alternativa. Após as primeiras audições, a ideia que fica é que Visiter é um álbum dividido em dois, isto porque se uma delas é feita de simples e seguras canções, a outra está atestada de divagações musicais com contornos quase imprevistos.
Visiter é uma paleta de cores, criada de uma forma quase lo-fi, tripartido por voz, guitarra e bateria, o resultado desta pintura é minimalismo pop e ficando isso a dever-se em exclusivo à infindável quantidade de micro-estilos encontrados no disco (ambiental, psicadélico, folk, noise, pop, rock, etc). O duo de São Francisco funde às percursões tribais de Animal Collective, a estrutura vocal de Grizzly Bear, o que irá dar lugar a mundo cheio de simpáticos duos acústicos, repartidos aqui e ali com alternativos passos de folk de raízes profundamente americanas.
Visiter é um disco difícil (bem, para mim foi), necessita de ser lentamente absorvido, á que olhar a todos os pormenores, a cada virar de esquina há uma nova surpresa, um novo encadeamento, o que há partida pode parecer confuso, começará a fazer imenso sentido, algumas audições depois.

Momento Mágico: Fools

The DodosVisiter (2008) - Frenchkiss


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2008/12/14

Grails

Dose Dupla

Com Burning Off Impurities (2007), os Grails chamaram a si o direito de acordar meio mundo, nós por aqui cumprimos o dever de assinalar o facto e dissemos: “É um álbum simples, dominado com aqueles momentos em que apetece deitar na cama a olhar para o tecto, ou de olhos fechados, e absorver a música, pensar na vida ou viajar… não fosse isto acid-folk. (Bruno Coelho)”
Em 2008 os Grails voltam e em dose dupla. Na Primavera lançaram Take Refuge In Clean Living e no Outono Doomsdayer's Holiday, não fosse isto musica e quase que poderíamos falar numa colecção de um qualquer estilista de moda.
Vamos então por partes:
- Take Refuge In Clean Living é post-rock dos sete costados, tem toda a estrutura lá dentro, guitarras em busca do infinito e percussão preguiçosamente arrastada. Ao longo dos 5 temas vão rabiscando drones e pintando paisagens de cores cinzentas, á primeira vista o que resultaria daqui seria uma sucessão de sons agarrados entre si, mas o que acontece é precisamente o contrário. Take Refuge In Clean Living é um disco em constante mutação, se em “Stoned At The Taj Again” estamos no domínio do post rock mais que perfeito, com “PTSD” tudo se torna sombrio, caminhando lentamente em direcção ao desconhecido. Com “11th Hour” edifica-se um ambiente de film-noir, onde a personagem mais casta consegue ser simultaneamente ao mesmo tempo que comete um crime e forma á sua volta uma aura de inocência. “Take Refuge” e “Clean Living” desenvolvem o resto do argumento com a mesma astúcia, primeiro usando o rock com mestria, para de seguida nos corromperem a alma com ácidos e extractos de piano.
- Doomsdayer’s Holiday é terrorismo sónico, os Grails agarram mais uma vez no post-rock e cruzando-o com a sua costela mais psicadélica, criam um universo carregado por intensas descargas de instrumentos, contribuindo assim para a criação de um dos seus mais pesados álbuns. Doomsdayer’s Holiday são torrentes de guitarras e marés de bateria, tudo de uma forma ordenada e com grande sentido estético. Não se procura estabelecer novas fronteiras, o que se pretende é agarrar em contextos e ambientes já percorridos por outros e calmamente afirmar: “olha, também conseguimos”.
Doomsdayer’s Holiday tem dentro uma pérola com odor às especiarias do norte de Africa, o seu nome é “Reincarnation Blues” e o nome diz tudo. O estranho folk em “The Natural Man” remete-os para o seu mundo real, pacífico e perfeitamente ordenado. O inicio de “Immediate Mate” antevê uma explosão a qualquer momento e coisa que nunca chega a suceder visto o tema ir por caminhos bem mais tenebrosos. “X-Contaminations” é chuva ácida em forma de música, fria e corrosiva, constrói um universo cinematográfico, onde dificilmente viveriam personagens bonitas e onde tudo é negro e doentio. Tudo vai findar com o belíssimo Acid Rain, um tema floydiano, onde não falta nada, desde as guitarras floreadas, aos solos requintados, passando pelas vozes de apoio, tudo sempre em quantidade necessária.

Momento Mágico: Take Refuge (Take Refuge In Clean Living) & Reincarnation Blues (Doomsdayer’s Holiday)


GrailsTake Refuge In Clean Living (2008) – Important


GrailsDoomsdayer’s Holiday (2008) - Temporary Residence


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2008/12/07

Brightblack Morning Light

Extrema Suavidade

O marasmo ambiental criando pelos Brightblack Morning Light, soa à típica atmosfera criada no sudoeste norte-americano, podia ser construído em qualquer dos 4 estados que o compõem (Texas; Novo México; Arizona; Califórnia), o que resulta dessa combinação é um rock profundamente arrastado, com tendências espirituais.
Em Motion To Rejoin tudo é preguiçoso, tudo tende para um universo drástico, onde o alinho e a colocação da estrutura musical é a principal imagem de marca. Os Brightblack Morning Light
produzem assim uma peça de folk minimalista, que combina na perfeição com dias chuvosos e sem sol, dias em que a lentidão de movimentos se estende a todo corpo.
Motion To Rejoin vai alargando a sua influência nocturna ao longo de 9 temas: o primeiro tema entra neste planeta de forma indelével “Introduction” cumpre na perfeição a sua função; “Hologram Buffalo” é um passeio por um parque natural americano, apenas um imenso espaço livre á frente dos nossos olhos, uma paisagem verde sem fim; “Another Reclamation” é a mistura de dois mundos, o tema perfeito para o nascer do dia, um simpático e adorável adeus á noite; “Summer Hoof” é uma praia californiana deserta ao por do sol.
Ao 3º álbum os Brightblack Morning Light marcam literalmente o seu território, afirmando o seu estilo e dando uma textura muito própria ao lado mais lento da indie folk americana.

Momento Mágico: Oppressions Each

Brightblack Morning Light Motion To Rejoin (2008) – Matador Records


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2008/12/06

The Dodos (Concerto)

COIMBRA - SALÃO BRASIL - 2008/12/06
http://www.myspace.com/thedodos



2008/12/01

Department Of Eagles

Alegre Monotonia

A principal editora independente dos anos 80, ainda anda por aí á solta, aliás a sua visibilidade esteve sempre presente, o que simplesmente aconteceu, é que agora já não está só, são imensas as editoras que povoam o mundo da indie-music. Seja como for ainda não perdeu aquele fino toque para a descoberta e para edição de novos nomes e novas sonoridades, é assim que vão surgindo ano após ano, novos projectos e novas bandas. Um dos seus mais recentes achados, são os americanos Department Of Eagles, banda que circula na periferia dos Grizzly Bear (de quem são amigos), que mora no mesmo universo dos Mercury Rev e que aqui ali pisca o olho aos Animal Collective.
A suave base electrónica, cavalga às costas do rock psicadélico, contagiando e alargando a componente vocal, que de uma forma subtil vai caminhando por aprazíveis trilhos, onde a espaços surgem silhuetas folk. A soma deste todo, é uma mescla electro-folk vocal fortemente instrumentalizada, com uma dinâmica muito própria. In Ear Park é um disco de arranjos, um disco de produção, pensado ao detalhe, está repleto de pequenos sons e de ínfimos ruídos.
In Ear Park o 4º registo original (1º na 4AD) dos Department Of Eagles, afigura-se como um dos grandes discos de 2008, um disco de uma complexidade simples, um disco que põe á prova o equilibrio entre a monotonia e a pura alegria de fazer canções eficientes.

Momento Mágico: Floating On The Lehigh


Department Of EaglesIn Ear Park (2008) - 4AD


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2008/11/24

Abe Vigoda

Quente

Abe Vigoda apesar de ser um actor, já com uma impressionante e longa carreira, é quase desconhecido do grande publico, isto porque a sua vida tem sido feita de pequenos e inócuos papeis. É o que se pode chamar de um actor de terceira fila, ficando longe do star-system e de tudo o que significa a palavra vedetismo. É com embutidos neste espírito que 4 amigos californianos o decidem homenagear, fundando uma banda com o seu nome. Os Abe Vigoda nascem da experiencia e da fusão de duas bandas (Health e Mika Miko) e da sua capacidade de união do pos-punk de Los Angels, com aquela corrente afro-pop tão característica dos Animal Collective, aqui e ali condensada pela agradável destruição dos No Age ou até mesmo sucumbido aos encantos aleatórios de uns Battles.
A segunda amostra dos Abe Vigoda responde pelo nome de Skeleton, 14 curtos mas intensos temas (apenas 34 minutos de duração), tudo emerge de uma forma quase alucinante, o mote primário são suaves e quentes batidas africanas, criando ritmos hipnóticos e redondos, a isto une-se as vozes cruzadas (e as guitarras) de Juan Velazquez e de Michael Vidal criando um complemento de profundidade. Poderá não parecer, mas Skeleton é um disco cativante e altamente sedutor, perfeito para aquecer as noites frias de Inverno, um dos grandes discos de 2008.

Momento Mágico: The Garden


Abe VigodaSkeleton (2008) - Post Present Medium


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2008/11/18

Miles Benjamin Anthony Robinson

Viva Brooklyn

O Brooklyn debita música e músicos de uma qualidade impressionante, Miles Benjamim Anthony Robinson é mais um dos seus habitantes, que larga o sossego do seu lar, para partir á conquista do mundo indie. Este “singer/writer” lança o seu primeiro álbum em nome próprio, um disco de uma intensidade sublime, marcado por pequenas histórias de encontros e desencontros, amores perdidos e substituídos, cheio de alegrias e tristezas alcançadas. O clima desenvolvido pela musica de Miles Benjamin Anthony Robinson, anda abraçado às mesmas ambiências temporais da música de uns Arcade Fire, de uns TV On The Radio ou dos Grizzly Bear (que são convidados especiais no disco). Miles Benjamin Anthony Robinson desenvolve quase toda a sua musica, tendo como base o contexto mais simples da folk (pequenas histórias musicadas), a grande diferença surge na forma como vai enchendo o espaço em volta do tema, ao contrário da tipificação folk, Miles Benjamin Anthony Robinson desenha esboços de contornos profundamente indie.
Logo á primeira, Miles Benjamin Anthony Robinson consegue assinar, um dos melhores álbuns de 2008, uma obra bem pensada, bem construída e excelentemente produzida, 10 temas equilibrados e que se completam uns aos outros. “Buriedfed” é a perfeita afirmação de tudo o que se disse; “Woodfriend” é um tema primoroso, com uma cadência perfeita, voz e bateria sempre num impecável encaixe, apenas quebrado aqui e ali por uma guitarra em desespero; “Who's Laughing” não passa de pura simplicidade folk-rock.
Miles Benjamin Anthony Robinson consegue atingir com a sua música, um patamar muito elevado, se neste raciocínio se tomar em consideração que é a sua primeira obra, a atenção lhe devemos dar no futuro, toma uma importância quase vital. Se agora o resultado é excelente, poderemos muito breve ter obra-prima (ou talvez não).

Momento Mágico: The Ongoing Debate Concering Past Vs. Future


Miles Benjamin Anthony RobinsonMiles Benjamin Anthony Robinson (2008) - Say Hey


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2008/11/12

Fleet Foxes

Debutantes

Os Fleet Foxes marcam o território com a sua carga harmónica e melódica, e fazem-no de forma a deixarem na área, um aroma folk pop que irá perdurar durante alguns anos. A banda de Seattle (Washington) liderada por Robin Pecknold, espreitava a sua oportunidade para se dar a conhecer ao mundo e é assim que surge no inicio do ano o EP Summer Giant, cinco delicodoces temas, onde o mundo pop é completamente florido e as vozes libertam mais cores que a primavera. Com o caminho pré-desenhado, contrataram Phil Ekque um produtor especialista nesta coisa da pop, que trabalhou anteriormente com The Shins e Modest Mouse e assim cozinharam o primeiro álbum. Fleet Foxes by Fleet Foxes é um disco engenhoso, é folk que soa a pop e pop que soa a folk e isto que não traduza a ideia de álbum complexo, porque na realidade não o é.
Fleet Foxes é um disco fortemente disciplinado e regido por regras bem definidas, e isso está perfeitamente patente logo no primeiro tema, “Sun It Rises” é abertura ideal, “Ragged Wood” mostra em completo todas as suas capacidades, edificando um tema onde poderiam estar os Band Of Horses ou mesmo uns Mountain Goats. “Tiger Mountain Peasant Song” é um jogo entre a bela voz de Pecknold e um ameno dedilhado de guitarra. “Quiet Houses”, “Your Protector” e “Blue Ridge Mountains” respiram contemporaneidade, são produtos perfeitamente frescos, sem prazo de validade e sem conservantes. Fleet Foxes será certamente um dos albuns debutantes do ano.

Momento Mágico: He Doesn't Know Why


Fleet Foxes - Fleet Foxes (2008) – Sub Pop


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2008/11/05

Peter Broderick

Lar Doce Lar

O incrível potencial de Peter Broderick, fica perfeitamente demonstrado, assim que pelos nossos ouvidos passam, os 3 primeiros temas do seu último trabalho. Aos 21 anos este americano de Portland (Oregon), abandona o seu lar e parte a caminho da Europa, indo-se fixar na calma e bela Copenhaga, aí trava amizade com os experimentalistas-ambientais Efterklang e passa a fazer parte do projecto.
Home é a sua mais recente residência, uma construção repleta de pequenos quartos deliciosamente decorados, espaços confortáveis e amplas áreas apinhadas de luz. Na casa de Broderick não há lugares vazios, tudo reflecte sobriedade, cores suaves e materiais de primeira qualidade. Seria de esperar que, com tão elevados padrões de qualidade, o seu trabalho se pudesse transformar em algo de difícil digestão, mas o efeito foi precisamente o oposto, Home é uma peça pop de uma sensibilidade extrema, carregando uma franqueza e uma sinceridade de simples contornos.
Home é o lar a que todos queremos chegar ao fim do dia, precisamos dele para descansar, para restaurar energias, enfim todos nós necessitamos de uma casa para repor a ordem natural da coisas.

Momento Mágico: And It's Alright


Peter BroderickHome (2008) - Hush


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2008/11/01

Wintersleep

Chegou o Inverno

A mudança de hora provoca em todos nós, pequenas disfunções temporais. A passagem do Verão para o Inverno (já por si dura) é mais intensa, quando surge a correspondente mudança horária, os dias ficam mais curtos, é noite mais cedo, surge o frio, enfim emerge um “novo mundo” e com ele, novos hábitos, novos rituais. O Wintersleep são isto tudo, mas em formato musical. Povoando o mesmo universo dos Interpol, os Wintersleep criam um universo luminoso, onde a estrutura emocional passeia entre a simples canção e a estrutura mais complexa de um quase space-pop. Ao terceiro disco, estes canadianos da Nova Escócia, delimitam as fronteiras do seu território, a sua melancolia pop e o seu rock inocente, resultam num perfeito indie rock volátil.
Se “Miasmal Smoke & The Yellow Bellied Freaks”, encerra o álbum a piscar o olho a uns Mogwai, fazendo de uma forma impressionante, o que só prova a sua coragem e a sua valentia. A abertura do Welcome To The Night Sky, faz-se ao som “Drunk on Aluminum” um principado rock de linhagem real, repleto de guitarras e bateria a cheirar a shoegaze. Se “Archaeologists” habitam uns Editors, em “Astronaut” vivem os R.E.M.. “Dead Letter & The Infinite Yes” é provavelmente o melhor tema de todo o disco, e penso que deve ser por este caminho que os Wintersleep devem pautar os seus passos.
É muito provável que Welcome To The Night Sky, passe completamente despercebido do grande (e do pequeno) publico, ainda assim é um trabalho com 10 brilhantes temas indie pop de perfeita digestão, não arrebata, mas também não provoca indiferença.

Momento Mágico: Weighty Ghost


WintersleepWelcome To The Night Sky (2008) – Labwork


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2008/10/26

Buraka Som Sistema

Reinvenção e Ritmo

Eu devia ser diferente e não falar sobre estes gajos, mas a verdade é que não consigo. Ouvido algumas dezenas vezes, tenho de assumir que estamos perante um disco que vais marcar uma época e uma geração, e isto deve-se fundamentalmente a dois factores: reinvenção e ritmo.
Os Buraka Som Sistema não inventaram nada, mas conseguiram por mais roupa num género musical nascido em Angola, apoiados numa forte componente electrónica transfiguraram o kuduro. O trio lisboeta (DJ Riot, Lil’ John e Conductor) aproveita a atmosfera africana que os envolve e com um pequeno toque de genialidade, vão misturando toda uma parefernália de sons, desde do euro-tecno, ao hip-hop, ao kizomba, ao electro. O resultado esse, só poderia ser uma musica sem país e a formula parece ter resultado em cheio, visto os Buraka Som Sistema estarem nos ouvidos de toda a gente, desde Lisboa a Nova Yorque, passando por Londres ou Roma, é um fenómeno global perfeitamente merecido. Com Black Diamond o Buraka Som Sistema, partem a conquista do planeta.

Momento Mágico: Kalemba (Wengue Wengue)


Buraka Som Sistema
Black Diamond (2008) - Enchufada / Sony BMG


Buraka Som Sistema (site) & MySpace



2008/10/19

Tv On The Radio

Disco do Ano?????

Os dois anteriores álbuns (Desperate Youth, Blood Thirsty Babes – 2004 / Return To Cookie Mountain - 2006), foram amplamente aclamados pela critica da especialidade, sendo que na altura foram apelidados de “inovadores”, “reconstrutores”, “novos donos do post/rock mais experimental” e de mais umas centenas largas de cognomes. Quanto a mim não retiro uma só virgula, são ambos álbuns essenciais e será um pouco difícil compreender tudo o que se passou no mundo da musica desde 2000, passando ao lado de ambos os dois discos.
Logo que se soube, que se encontravam em estúdio, começou o adorável murmurinho de como seria o disco. Quando finalmente Dear Science viu a luz do dia, houve um misto de apreensão e de alegria, isto porque é diferente, podia-me por aqui a filosofar sobre se é ou não melhor que os anteriores, mas o que eu quero mesmo destacar é que Dear Science é um disco distinto dos 2 primeiros. E a que se deve esta distinção, esta diferença?
Os TV On The Radio abandonaram (um pouco) a sua costela mais rebelde-indie, criando um elementar disco de canções. Deixaram de parte as componentes electrónicas e os sons da maquinaria mais pesada, e com um toque de grande classe e charme aplicaram todo o seu saber no puro prazer de fazer canções, enfim puseram de parte o pret-a-portê e dedicaram-se á alta costura.
Dear Science é uma impressionante colecção de canções: “Halfway Home” o tema de abertura caminha pelo lado limpo da estrada, não há transito, nada preocupa, paira no ar a certeza da chegada (uma das melhores aberturas de disco que ouvi em 2008); “Crying” é meio termo entre o pop-jazz e as componentes mais electrónicas da soul music; “Dancing Choose” é TV On The Radio no seu melhor, jogos de vozes sónicos, irritação jazzistica q.b.; “Family Tree” é uma balada perfeita, tudo está no sitio, as vozes, a colocação instrumental, uma pérola que valeria todo o disco, felizmente não está só, está presente todo o colar.
A banda de Brooklyn sabe o que quer, sabe para onde vai, vive em perfeito estado de graça, gere a sua carreira de uma forma subtil, caminhando umas vezes pelo lado perfeito da via outras vezes indo em contra-mão, o resultado esse é sempre sublime.

Momento Mágico: Shout Me Out


TV On The RadioDear Science (2008) - DGC/Interscope


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2008/10/13

No Age

Outra Intensidade

Um ano é um instante, e se à primeira vista pode parecer muito tempo, o que acontece é que neste mundo da musica tudo é apressado e efémero. Já passou um ano, desde que mencionei por aqui o nome dos nome dos No Age pela primeira, eram há altura uns perfeitos desconhecidos nestas lides mais independentes da musica. Weirdo Rippers cumpriu perfeitamente o objectivo, era um disco eficaz e bem desenhado, pecava talvez por ser tão curto, o que fazia com que se abusasse da quantidade de audições praticadas, seja como for escuta-lo era um exercício delicioso (ler mais aqui).
Com Nouns os No Age assinam em definitivo um estilo e indicam o caminho que querem seguir. O noise continua disfarçado, o post-punk perdeu um pouco a largura de ombros, tudo ficou mais nítido, mais cerebral, há mais trabalho de casa, coisa que se reflectiu certamente numa melhor produção em estúdio. O que dantes poderia parecer elementar, transformou-se agora num primário intencional.
Nouns são 31 minutos de musica, repartidos por 12 temas, é um instante enquanto se chega ao fim e penso que esta é a principal imagem de marca dos No Age, directos a essência da coisa, cortam com tudo o que seja supérfluo e que ocupe espaço em demasia. “Miner” entra pelos ouvidos em ondas de eco, como se estivesse a untar o canal auditivo, para depois tudo entrar sem grandes danos. “Eraser” usa o mesmo estratagema, uma intro que dura quase meio tema, que vai desaguar numa guerra a duas vozes. O uso de apoio de pequenos sons electrónicos (ouça-se o inicio e o fim de “Teen Creep”), veio enriquecer o som dos No Age, indo ocupar o espaço que sobra entre a guitarra e bateria. A sequencia “Sleeper Hold” e “Here Should Be My Home” é No Age com um ano de idade, pura alegria de movimento.
Os No Age com Nous estão menos abrasivos, a intensidade do seu brilho ganhou outra cor, há mais requinte, o duo da Califórnia socializou-se.

Momento Mágico: Things I Did When I Was Dead


No AgeNouns (2008) - Sub Pop


My Space