2007/08/20

Shannon Wright

Uma Mulher Só

O regresso de Shannon Wright ao mundo da música, faz-se com Let In The Light, isto acontece após o magistral álbum Over The Sun de 2004, que é um dos discos mais perfeitos que conheço. Há uma veia romântica em toda a musica de Shannon, é difícil separar a paixão e o sofrimento de tudo o resto, aliás acho que fundamentalmente isso nota-se na intensidade como compõe e como cria cada um dos temas. A fórmula sofrida e dolorosa como coloca a voz, o desespero imposto às teclas do piano e às cordas da guitarra, causa ao seu ouvinte uma angústia descontrolada, mas recheada de uma beleza de mil cores.
Shannon Wright não é fácil de ouvir, requer imensa atenção e uma abertura de espírito enorme, temos de nos libertar de imensos preconceitos musicais e não só, é difícil mas com um pouco de esforço conseguimos e a ao consegui-lo abrimos a porta a um mundo repleto de harmonia, que apraz ao coração, que nos eleva ao espírito de uma forma subtil.
Defy This Love” surge como se fosse uma imagem de uma pequena colegial, na sua primeira aula de piano, esforçada, com imenso de receio de falhar, mas ao mesmo tempo com uma sabedoria imensa. “St. Pete” é a perfeita canção pop-rock, musculada q.b.. “In The Morning” é sonolento, perfeito para as manhã frias e cobertores quentes.
Shannon Wright é a melhor relação voz/piano/guitarra, que anda no mercado.

Momento Mágico: They'll Kill The Actor In The End


Shannon Wright
Let In The Light (2007) - Quarter Stick

2007/08/16

Electrelane (Concerto)

Festival Paredes de Coura - 2007/08/16





2007/08/14

Coldfinger - Supafacial

Superficial?

Os portugueses Coldfinger, a banda de Margarida Pinto e Miguel Cardona, lançam em 2007 o seu quinto disco de originais, Supafcial.
Para aqueles que ainda guardam no ouvido o álbum anterior, Sweet Moods and Interludes, o novo registo poderá soar com alguma desconfiança, senão mesmo desagradar. Especialmente aos fãs habituados a uma sonoridade mais trip-hop, presente nos albums Lefthand e Return to Lefthand.
É um facto que neste álbum os Coldfinger mudam de rumo. A profundidade introspectiva e quadros electrónicos que marcaram os trabalhos anteriores, dão agora lugar a ritmos dançáveis com roupagem pop/rock, de que são exemplo temas como “Dragonfly”, “Beat Kick”, “I Breathe” ou “Bitch Pitcher”.
Ainda assim os Coldfinger não abandonam de todo as suas raízes, sendo possível encontrar na faixa “Hard 2B The Bastard” aquela toada funk e soul que os caracterizou no inicio. Este não é um álbum magnífico mas também não é a pedrada no charco. É antes a capacidade de se renovar e a coragem de fazer algo destoante no panorama musical nacional, com os olhos postos na internacionalização.

Momento Mágico
: I Breathe


Coldfinger - Supafacial (2007) - Lisboa City Records

2007/08/09

Jacob Golden

Um Americano em Inglaterra

Não me perguntem a razão, mas Revenge Songs é o disco que mais vezes ouvi seguidas em 2007 (até ao momento), talvez tenha caído na zona pop/romântica do meu cérebro e rodou… rodou… rodou… É publica a minha paixão por pop, coisa que assumo e da qual não me envergonho, se me perguntarem qual a razão, desde já emito uma declaração de inocência, não sei como aconteceu…
Voltando ao disco, Revenge Songs é pop-melaço, daquela que gruda, daquele tipo peganhoso, só que em vez de nascer numa garagem num qualquer subúrbio em terras de sua majestade, cresce num fumarento e vazio salão de baile de um saloon perdido nas terras do Tio Sam. Tudo isto é facilmente explicado, Jacob Golden é um californiano com residência fixa em Londres.
Revenge Sons é o segundo trabalho de Jacob, surge após Hallejulah World de 2002 (que também recomendo), e penso que é impossível passar despercebido durante este ano, se bem que volta e meia acontecem coisas estranhas no mundo da música. Revenge Songs é um disco de coração na mão, nota-se perfeitamente que Jacob abriu o seu ser mais íntimo e o partilhou com todo o mundo. No mundo de Jacob vivem imensos seres, desde Jeff Buckley (de quem se assume fã e de quem já fez uma versão), a Elliott Smith ou a dupla Simon & Garfunkel, ou diga-se de uma forma prática, vive no planeta pop.
O romatismo de Jacob corre-lhe nas veias, senão vejamos: “Out Come The Wolves” sabe a desespero, a uma enorme e longa procura; “On A Saturday” (tema da O.S.T. da série O.C.) é a busca de alguém que entretanto já partiu; “I’m Your Man” é o gritar bem alto, de que não é preciso procurar mais; “Shoulders” é o apoio, o suporte, um porto seguro…
É muito provável Jacob Golden seja ignorado em 2007, não sei se irá ter nova oportunidade num futuro próximo, a única coisa que afirmo é que Revenge Songs é um dos melhores discos de voz/guitarra deste ano. Um nome a ter em consideração para o Festival dos Sentados, em Santa Maria da Feira.

Momento Mágico: Shoulders


Jacob GoldenRevenge Songs (2007) – Sawtooth Recordings

2007/08/03

Rachel Yamagata

Antes tarde, que nunca...

A proliferação de artistas musicais e o consequente acréscimo na edição de discos leva a que muitos só nos cheguem à mão bastante tempo após o seu lançamento. Esta pequena nota introdutória serve para explicar porque razão escrevo sobre o disco de estreia de Rachel Yamagata, Happenstance, três anos após a sua edição.
Happenstance, que sucedeu a um EP homónimo editado em 2003, é uma obra que não deixa ninguém indiferente, o talento de Rachel Yamagata como singer/songwriter é admirável, a forma como adapta o seu registo vocal, de acordo com o sentimento subjacente à canção, é tocante, a sensibilidade revelada na forma lúcida como aborda temas complexos é irrefutável e tem como consequência um disco que se entranha à primeira audição.
Se o amor e suas implicações é o tema recorrente deste disco, a contradição entre a convicção de que o amor é muitas vezes uma circunstância fruto do acaso e a crença de que tudo acontece por uma razão é a sua alma, o fio condutor, enquanto que a composição, as letras, a voz e a sua sensualidade que dela extravasa, são o corpo, o resultado é uma descrição pungente do resultado desse conflito.
São exemplo disso temas como "Be Your Love", "Worn Me Down", "Letter Read", "Collide", "Under My Skin", "1963", "Meet Me By The Water", "I’ll Find A Way" e, principalmente, "Paper Doll", nas quais a fusão de elementos clássicos e inovadores, dá lugar a canções verdadeiramente intemporais.
Sem dúvida uma estreia auspiciosa de Rachel Yamagata que cria muita expectativa em relação ao seu sucessor, actualmente em preparação, aguardando-se que o mesmo venha subir a fasquia e confirme a relevância musical da artista.

Momento Mágico: Paper Doll


Rachel Yamagata - "Happensatance" (2004) - RCA Victor

2007/07/30

Modest Mouse

Pop Modesta?

Está de volta ao mundo da música, a banda dos títulos longos. E primeira sensação que temos, é um dejá-vu imediato e instantâneo, aquela percepção estranha de já ter ouvido vezes sem conta estes acordes, apesar de termos a certeza absoluta que só agora estamos perante o primeiro contacto com We Were Dead Before The Ship Even Sank.
Agora que decorrem cerca de 3 anos, da sua obra-prima Good News for People Who Love Bad News, surge uma obra a transbordar de pop/rock, todo ele perfeito e onde a principal arma de guerra é a voz de Isaac Brock. É este o cartão-de-visita dos Modest Mouse, voz anazalada e quase sempre em revolta, em constante sofrimento, todo resto são lugares comuns pop. A criação de tudo isto surge com uma perfeição cósmica, com ondas pré-definidas, onde tudo parece ter sido bem pensado e previsto ao milímetro, é só carregar em botões e aguardar o rodar da fita magnética.
O moderno pop/rock é assim, feito de lugares comuns, recorrendo a normas e efeitos já há muito testados e comprovados, o que faz toda a diferença é o toque especial de cada banda, e os Modest Mouse tem essa capacidade, esse dom. Aliando à sua enorme capacidade de criação de canções, cheias de humor e sarcasmo, Isaac Brock e os restantes Modest Mouse, convidaram dois artistas de peso Johnny Marr (ex-Smiths) e James Mercer (The Shins), o primeiro emprestando os seus dotes como guitarrista e o segundo fazendo backing-vocals em temas com “We've Got Everything” ou “Florida”.
Para os conhecedores de toda a obra dos Modest Mouse, este álbum distingue-se dos outros em virtude de existir muito mais harmonia e mais melodia do que é habitual, não estamos perante um disco perfeito, mas é um disco muito bem disposto e com uma capacidade de transmitir essa sensação ao seu ouvinte… deixando um perfume de bem-estar no ar, perfeito para o por de sol na praia.

Momento Mágico
: Florida


Modest Mouse – “We Were Dead Before The Ship Even Sank” (2007) - Sony

2007/07/25

Bodi Bill

Extraordinariamente Meigo

Desde os seus primórdios, algures nos anos 70 com o disco/funk e com parcos meios electrónicos disponíveis, que a electrónica assumiu a sua identidade, trazendo até ás pistas de dança novos sons e subgéneros sem fim. Trinta e tal anos volvidos, nem toda a electrónica é hoje para dançar, resultando, da fusão estilística com outros géneros, musica para ambientes mais ascéticos. No More Wars, álbum de estreia dos alemães Bodi Bill, vive na electrónica mas viaja por todos os quadrantes musicais. Recorrendo a instrumentos clássicos – piano, violino e guitarra – combinados com genuína composição computorizada, são impressas, em texturas digitais, melodias naturalmente orgânicas.
As secções repetitivas e uma e concisa estrutura, focam os elementos acústicos, conferindo assim um certo cariz pop à música. A forte presença do songwriter, quer na letra quer na parte vocal, traz para alguns dos temas mais introspectivos - "Traffic Jam" e "Very Small"– um condimento folk. O segundo e terceiro terços do disco são entusiasticamente dançáveis, com temas techno, trance e electro – "Kilogramm", "Be Home Before" "Dinner", "Naegel".
Não é um disco puro-sangue, muito pelo contrário, tanto nos atira para ritmos dinâmicos como nos mima com apaixonadas baladas – "Willem". Por isto, No More Wars é música digital extraordinariamente meiga.

Momento Mágico: Kilogramm


Bodi Bill
- No More Wars (2007) - Sinnbus

2007/07/21

Dragonette

Estreia Auspiciosa

O disco de estreia desta banda canadiana, sedeada em Londres, que se assume como “uma banda rock-electrónica que escreve canções pop…”, confirma as boas indicações deixadas pelo EP homónimo, lançado em 2005, e constitui uma lufada de ar fresco no panorama actual da música pop.
Os Dragonette praticam uma electro-pop moderna, que apela às pistas de dança, resultado da fusão da pop e synth-rock, característica de bandas dos anos 80, com as mais recentes tendências, que reveste uma elevada dose de provocação e possuem uma vocalista/frontwoman Martina Sorbara que, para além dos seus inegáveis dotes vocais que lhe valeram um convite para colaborar no disco novo dos Basement Jaxx, é carismática, provocante em palco e, porque não dizê-lo, muito dotada fisicamente.
Galore agrega temas presentes no seu EP de estreia, como "I Get Around", "Competition" e "Jesus Doesn’t Love Me", a temas novos, nomeadamente, "Another Day", "Get Lucky, Black Limousine, Gold Rush" e "Marvellous" e ainda outros resultantes da reformulação de algumas das suas primeiras composições, como a faixa "True Believer".
Temas recorrentes nas suas canções são as mensagens de grande carga sexual, celebrando um mundo de promiscuidade sem remorsos e de predadores(as) sexuais, designadamente em faixas como "I Get Around, True Believer" e "Competition" e o comportamento em palco da vocalista, autora de frases emblemáticas como “Who do I have to fuck to get you to dance?”, granjeou-lhes algum destaque entre a comunidade musical, bem como ferozes ataques por parte de algumas comunidades religiosas mais conservadoras.
Os Dragonette encontram-se na antecâmara do sucesso, escrevem belas canções pop, são provocantes e polémicos q.b., existe um grande hype à sua volta, têm por isso tudo para dar o salto definitivo do universo “indie” para o mainstream. O tempo dirá se vão ser bem sucedidos.

Momento Mágico: I Get Around


Dragonette - Galore (2007) - Universal

2007/07/18

Bill Callahan

Com Alma

A voz é um aroma, não interessa agora (ou noutra altura) auferir a sua qualidade, se é cristalina, angulada, negra, rouca ou de qualquer outra cor, forma ou tamanho, o que importa é afirma-lo como ponto de contacto, como lembrete instantâneo e poder dizer: “olha isto é….”. E isto é Bill Callahan.
Este anterior momento de prosa, nasce após a audição do último trabalho do Sr. Smog. Woke On A Whaleheart, um disco repleto de alma, onde a luz se cruza com a sombra, uma espécie de eclipse total do sol, mas com uma duração superior ao normal. Bill Callahan é um songwriter por excelência, onde temas com o sexo, a paixão, o amor, a natureza circundante, são explorados de uma forma intensa e com uma beleza fora do comum, mas sem nunca sair do imensamente banal. Musicalmente a forma como disco está construído, abandonando quase por completo a linhagem eléctrica e criando um corpo suportado em sons de órgão e bateria despreocupada, dando-lhe uma visão gospel-country.
Woke On A Whaleheart não é mais do que um paraíso construído à imagem de Cash “The Wheel” ou de Cohen “Diamond Dancer”, ”A Man Needs A Woman Or A Man To Be A Man” é pura e directa, uma canção densa e ampla.
O primeiro trabalho em nome individual de Bill Callahan, é um disco atestado de emoções, sentimentos e energéticas ondas de paixão, deixando os simpatizantes de Smog baralhados, pois o resultado final é soberbo, sendo que Woke On A Whaleheart é um dos grandes trabalhos de 2007.
Bill Callahan é um senhor a seguir com imensa atenção, prevejo uma continuidade da obra, mas com cada vez mais sensibilidade e maior simplicidade.

Momento Mágico
: Diamond Dancer


Bill Callahan
- Woke On A Whaleheart (2007) – Drag City


2007/07/15

Blonde Redhead

Flutuar Em Mistério

Por vezes, inexplicavelmente, há discos que se apoderam de nós, sem que possamos fazer algo contra esse facto. Por mais que os ouçamos, tarda a hora em que é posto de lado e tempo de partir para outro. 23 dos Blonde Redhead é um desses casos. Por isso a melhor forma de me libertar de 23 é, como diz um amigo meu, escrever. Não se trata apenas de mais um álbum na linha do indie rock ou pop, digamos que aqui há muito de experimental, de criação temerária, desafiando deste modo as classificações convencionais.
Desde o primeiro momento, com o tema homónimo, o disco indicia uma elevada densidade marcada sobretudo pela liderança da guitarra e por uma firme bateria. Mas é a voz de Kazu Makino, que nos alicia a entrar num ambiente volátil, intenso, eléctrico, mas indulgente. Um teatro onírico de cenas emotivas. Depois é somente flutuar pela estratosfera polifónica, composta por delicados ritmos electrónicos, melodias doces e vozes apaixonadas.
Misterioso e de uma estranha beleza, 23 revela-se mais como uma forma audaciosa de arte/pop, em que poucas bandas actualmente em cena ousariam arriscar. Tal ousadia é a marca que distingue uma banda com 14 anos de carreira e sete discos lançados. E este é sem dúvida um testamento ao talento e à reinvenção.

Momento Mágico: Dr. Strangluv


Blonde Redhead - 23 (2007) - 4AD

2007/07/04

Meio Ano - Meia Lista

ATENÇÃO: O exercício que se segue, é de grande dificuldade e não deve ser tentado em casa...

Fazer uma lista de qualquer coisa relacionado com musica, é sempre uma coisa que vejo como uma brincadeira (até porque amanhã a lista seria diferente) e foi com esse espírito que pedi aos meus colaboradores uma pequena listagem dos melhores discos de 2007 à presente data. Mais uma vez a minha única intenção, é divulgar...
Cada um de nós, seleccionou 5 temas, ao qual corresponde uma pequena compilação - VER AQUI

António Antunes

Electrelane - "No Shouts, No Calls"
Quando as gajas se transformam em mulheres.


Of Montreal - "Hissing Fauna, Are You The Destroyer"
Pop lunatico, recheado de trejeitos e lantejoulas.


Panda Bear
- "Person Pitch"
Quando meio, consegue ser tão bom quanto o todo.


Odawas
- "Raven And The White Night"
A escuridão rock repleta de luminosidade sonora.


No Age - "Weirdo Rippers"
O encaixe perfeito entre velocidade sónica e calmaria desafinada.


Bruno Coelho

Grails - "Burning Off Impurities"
Um Acid Folk que nos leva numa viagem ao passado. Uma viagem que por vezes é bastante atribulada.


LCD Soundsystem
- "Sound Of Silver"
Indo por caminhos mais rock conseguiram continuar a inovar. Passaram com distinção no teste do 2º álbum.


Electrelane
- "No Shouts, No Calls"
O som é o mesmo, a garra é a mesma...
É difícil destacar o melhor álbum delas, mas este é um forte candidato.


Parts & Labor
- "Mapmaker"
O som está mais limpo do que nos têm habituado, mas a energia continua lá.
Mais um que passa com distinção no teste do 2º álbum.


Modest Mouse
- "We Were Dead Before The Ship Even Sank"
Good news for people who love good music.
A energia pop em todo o seu esplendor.


Carlos S. Silva

Aqualung – "Memory Man"
Matt Hales incorporou novos elementos na concepção deste disco e atinge um patamar muito elevado. Sentimentos à flor da pele num artista promissor em constante crescimento. Correndo por fora, este continua a ser um dos meus discos preferidos de 2007.



Arcade Fire
– "Neon Bible"
O disco de estreia dos Arcade Fire foi um marco discográfico do ano de 2004. Honrar esse legado não era uma tarefa fácil, mas os Arcade Fire conseguiram-no e superam o obstáculo com um disco que roça a genialidade e lança novos horizontes sobre o futuro da banda.


Au Revoir Simone –
"The Bird Of Music"
Dizem que a verdadeira beleza reside na simplicidade das coisas, o disco de estreia deste trio nova-iorquino ilustra na perfeição essa máxima. È impossível ficar indiferente à delicadeza, à harmonia e à musicalidade que irradiam deste disco.



The Shins –
"Wincing The Night Away"
A banda de Albuquerque continua a subir a fasquia a cada edição discográfica. Este disco é um compêndio de grandes canções, um verdadeiro manual do rock. Muito embora o ano ainda vá a meio, este disco vai constar, sem qualquer dúvida, na lista dos melhores do ano. Imprescindível.



Wray Gunn –
"Shangri-La"
A banda de Coimbra, com um disco repleto de canções que se entranham à primeira audição, ingressa com todo o mérito nesta lista. Rock old school em pleno processo de maturação e que poderá levar os Wray Gunn a voos mais altos no panorama musical internacional.


Edgar Domingues

Blackfield – "Blackfield II"
Sonoridade épica em moldura pop-rock. Soberbo.


Blonde Redhead
– "23"
23 é o atingir da idade maior, ousar o eclético emocional mas com maturidade.


Bodi Bill
– "No More Wars"
Acabaram-se os padrões, habita na electrónica mas viaja por todos os quadrantes musicais.



Voxtrot
– "Voxtrot"
Pop menos mainstream para adolescentes tardios. Quero voltar a ser um puto.


Electrelane
– "No Shouts No Calls"
Um disco de se lhe tirar o chapéu.

2007/07/01

Ray LaMontagne

Country Bluesman

Existem muitos artistas no mundo, uns conseguem aliar a composição musical à transmissão de sentimentos e emoções, outros não. Ray LaMontagne integra-se, claramente, no primeiro grupo, quero dizer com isto que a sua música é, acima de tudo, sentida e depois cantada. O modo apaixonado como canta, as letras introspectivas e a capacidade que tem para as exprimir musicalmente deixa poucas dúvidas sobre o seu talento.
Em "Be Here Now", faixa de abertura do disco, Ray LaMontagne demonstra a evolução do seu som, desde o disco de estreia Trouble, guitarra acústica dedilhada, piano longínquo, secção de cordas que confere um ambiente etéreo, perturbador e acima de tudo uma vocalização agreste, profunda e verdadeira.
Outra das grandes canções do disco é “Lesson Learned” é uma canção amarga, sobre um relacionamento em que alguém parece não perceber, ou querer aceitar, que já não é desejado. Em “You Can Bring Me Flowers”, outra canção amarga, vigora um riff de baixo que, juntamente com uma secção de metais inspirada em Miles Davis, transforma, de forma muito positiva, o som habitualmente simples e directo de Ray LaMontagne.
A faixa que dá nome ao disco é uma reflexão sobre uma sociedade austera, feita com uma tristeza profunda, que se sente como um murro no estômago e que nos faz reflectir sobre o modo como vivemos a vida e encaramos o próximo.
Till The Sun Turns Black é um disco genuíno, distante da superficialidade de muitos artistas dos nossos dias, que pinta um quadro de uma realidade triste, de uma sociedade decadente e sombria e não deixa ninguém indiferente.
Imprescindível.

Momento Mágico: Be Here Now


Ray LaMontagne Till the Sun Turns Black (2007) - RCA

2007/06/27

The Shins

Simplicidade Absoluta

Após o sucesso de Chuts Too Narrow, a expectativa está alta e isso deve-se à natureza desta banda, que consegue criar canções de uma simplicidade notável, usando na perfeição o manual pop. Gostava de afirmar que ao 3º álbum os Shins, deixam a fase da puberdade e passam definitivamente à fase adulta, mas estamos perante uma banda sobredotada, que já nasceu com barba.
Wincing The Night Away chega então com uma naturalidade lógica, frugal e simples. Temas como “Sleeping Lessons” ou “Sea Legs” antecipam a chegada dos quentes finais de dia, “Australia” é uma festa a que todos queremos pertencer, é solene e saltitante, o repetitivo bater de pandeireta e ooh ooh do refrão, fazem de “Phantom Limb” um cântico aos deuses da pop. “Turn On Me” é paixão instantânea, é só deixar dissolver.
The Shins vivem na mesma pensão, onde em tempos se hospedaram os The Byrds e alugaram o mesmo quarto de Simon & Garfunkel, foi com eles que tiveram aulas de culinária, tendo aprendido a usar os mesmos utensílios e as mesmas formas, daí que o resultado seja alta cozinha, gastronomia sonora de primeira linha.
Ideal para enterrar os pés na areia, ouvir o mar, espreitar a ultima moda em bikinis e beber algo fresco (não gelado), perfeito equilíbrio entre o bem-estar e o estar bem.

Momento Mágico: Phantom Limb


The Shins
Wincing The Night Away (2007) – Sub Pop


OUTRO PENSO por Carlos S. Silva
e
OUTRO PENSO por Edgar Domingues

2007/06/24

Battles

Música de Loucos

Já dizia Fernando Pessoa "Primeiro estranha-se, depois entranha-se" e este é um caso flagrante. Estranha-se porque é um som arrojado, diferente do que já se fez e até um pouco massudo, mas à medida que se vai ouvindo transforma-se e fica viciante, aquele som estranho começa a fluir e damos por nós completamente entranhados.
Antes do Mirrored, esta espécie de Super Grupo lançou uma trilogia de EPs onde fizeram as suas experimentações que ajudaram a criar uma identidade e maturidade que é notória no LP. O som é mais objectivo e nalguns casos bastante dançável tal a energia e o ritmo que a música nos transmite. Esse ritmo é muitas das vezes repetido até à exaustão, o que pode estranhar na tal primeira audição, mas que depois dá lugar a ambientes viciantes e de alguma loucura, porque isto é um bocado música de loucos.

Momento Mágico: Tij


Battles - Mirrored (2007) - Warp

2007/06/20

Cary Brothers

Emoção À Flor Da Pele

Cary Brothers teve a sua grande oportunidade quando Zach Braff (actor/produtor/realizador) decidiu incluir o tema “Blue Eyes” na banda sonora do filme Garden State, ao lado de nomes como os The Shins, Iron & Wine, Thievery Corporation, Zero 7, Frou Frou, Nick Drake, etc.
Poucos anteciparam o sucesso estrondoso alcançado por esta compilação, que projectou de sobremaneira muitas das bandas nela incluídas, curiosamente Cary Brothers era o único que à data não tinha um disco editado. Esse facto não impediu que se criasse muita expectativa em relação à sua música, sendo frequente encontrar temas seus em diversas séries de televisão ("Grey's Anatomy," "Scrubs," “Smallville,", “Bones”) e no cinema ("Garden State," "The Last Kiss").
Essa falha foi colmatada pela edição dos EP’s All The Rage e Waiting For Your Letter que serviram para consolidar sua base de fãs e, simultaneamente, geraram muitas expectativas relativamente ao seu disco de estreia.
Esse disco é Who You Are e caracteriza-se pela fusão, bem conseguida, de elementos Rock/Pop/Folk, originando aquilo que se pode descrever como música emocional, muito mainstream para ser indie e muito indie para ser mainstream e pode ser a rampa de lançamento de um dos artistas mais cativantes e promissores da cena musical.
São vários os seus momentos altos, nos quais o talento de Cary Brothers como comunicador de emoções transparece, desde logo na sinceridade da faixa de abertura "Jealousy", a súplica em "Ride", a raiva latente em "Who You Are", a sensibilidade em "The Glass Parade", o virar de página em "The Last One", a emocional cover de "If You Were Here" (sublimada pela excelente prestação vocal de Justin Seay e Rachel Robinson nos coros) e a devoção presente em "Blue Eyes" (faixa escondida).
Essa facilidade em musicar sentimentos é o grande talento de Cary Brothers, é a razão que leva a sua música a ser incluída em diversas produções televisivas e cinematográficas e é o motivo pelo qual a incluímos na banda sonora das nossas vidas.

Momento mágico: Ride


Cary Brothers - Who You Are (2007) - Bluhammock / Procrastination Music

2007/06/16

The National

Pop de Fato e Gravata

Boxer marca o regresso dos National, após terem atingido a merecida notoriedade em 2005 com o seu terceiro álbum intitulado Alligator.
As diferenças com o disco antecessor são evidentes logo nos primeiros acordes do tema de abertura, “Fake Empire”. Ali pairava a explosão e o caos, agora a régua e o esquadro dominam Boxer, obrigando-o a respeitar a divina proporção, tornando-o controlado e timidamente contido, mas que de quando em vez liberta indignação.
É um álbum sobretudo observacional, reflectivo, cujas letras descrevem dicotomias: amor-ódio, guerra-paz. Ao ouvi-lo é recorrente a imagem de um gentleman envergando fato e gravata, sentado numa poltrona num selecto clube de fumo, que respeitosa e serenamente, não sem uma boa dose de ironia, disserta sobre alienação urbana. Daí que crie uma atmosfera nocturna, levando-nos a vaguear de mãos nos bolsos e cabeça pensativamente caída, por escuras ruas despidas de movimento.
Predominantemente acústico, o disco é marcado pela guitarra de
Bryce Dessner's, um piano nada absentista e a bateria de Bryan Devendorf's, naturalmente enriquecido pela ébria voz de Matt Berninger. Bem vindos à prismática melancolia de Boxer.

Momento Mágico
: Fake Empire


The National - Boxer (2007) - Beggars Banquet

2007/06/15

The Legendary Tiger Man (Concerto)

Barcelona - La [2] Nitsa Club Apolo - 2007/06/09





Dead Combo (Concerto)

Barcelona - La [2] Nitsa Club Apolo - 2007/06/09



2007/06/06

Avey Tare & Kria Brekken

Desespero Folk

Avey Tare é o mestre de obra dos Animal Collective, a ele juntou-se Kria Brekken, e ambos realizaram um matrimónio musical, produzindo um dos mais etéreos álbuns de 2007. A pausa após Feels está a dar resultados assombrosos, se de um dos lados Panda Bear aparece com “Person Pitch”, no lado oposto aparece Avey Tare com Pullhair Rubeye, o que só ajuda a aumentar as expectativas, já por si bastantes elevadas em relação ao novo trabalho, que se prevê chamar Strawberry Jam, aguardemos…
A definhação do piano e o acorde infinito da guitarra em “Opis Helpus” surgem num eterno e imenso sem fim, procura-se um pedido de ajuda em puro desespero. O minimal dedilhado de “Palneka” apesar de desconstraído, dura, dura, dura, provocando uma estranha sensação de profundidade, uma enorme e gigantesca caverna. “Seasong” é o mais Animalesco dos temas de Pullhair Rubeye, bastava a colagem de uns quantos sons electrónicos e uma pequena percussão e estava feito.
Pullhair Rubeye é uma mescla entre psycho-folk e um neuro problema perfeitamente assumido, uma presença à beira do precipício da depressão mental onde basta uma suave brisa e o acidente acontece, é um perfeito equilíbrio entre o casaco de malha e o casaco de forças. É um perfeito álbum neo-folk, ou porque não, post-folk.

Momento Mágico: Lay Lay Off, Faselam


Avey Tare & Kria BrekkenPullhair Rubeye (2007) – Paw Tracks

2007/06/02

Grant Lee Phillips

Coerência Musical

De regresso em 2007, com o disco Strangelet, Grant Lee Phillips comprova, uma vez mais, o seu enorme talento como compositor e instrumentista. Com efeito, as doze canções que compõem este disco, o quinto da sua discografia a solo, cruzam, de forma sublime, emoções antagónicas, opressão e optimismo, dissonância e redenção, espelhando a arte do seu criador.
Quem está familiarizado como o trabalho de Grant Lee Phillips, desde o tempo da banda Grant Lee Buffalo, reconhece as suas enormes qualidades como músico, que se reflectem no facto de ter sido responsável pela maioria dos instrumentos utilizados no disco, como compositor/poeta/trovador da condição humana e o carisma e expressividade da sua voz que, no universo folk rock em que sempre se movimentou, encontrou a casa perfeita.
Strangelet é um dos discos mais intimistas que gravou até hoje, condimentado por diversas referências ao legado da sua antiga banda, expressa de forma irrepreensível a sensibilidade de um artista que não receia mostrar a sua visão romântica e poética da vida e ganha impacto e intensidade com cada audição.
Num mundo em constante mudança, obcecado com fórmulas instantâneas de criação musical como modo de alcançar os “quinze minutos de fama” como tão bem caracterizou Andy Warhol, é bom saber que existem bastiões de honestidade e coerência, incólumes ao tempo e às ditaduras da moda, e a já longa e profícua carreira de Grant Lee Phillips confere-lhe, sem qualquer dúvida, um lugar no panteão da música.

Momento Mágico: Soft Asylum (No Way Out)


Gran Lee Philips - "Strangelet" (2007) - Zoe

d3o (Concerto)

COIMBRA - VIA LATINA - 2007/06/01



Almandino Quiet Deluxe (Concerto)

COIMBRA - VIA LATINA - 2007/06/01



Major Dick And Captain Woody (Concerto)

COIMBRA - VIA LATINA - 2007/06/01