2007/07/30

Modest Mouse

Pop Modesta?

Está de volta ao mundo da música, a banda dos títulos longos. E primeira sensação que temos, é um dejá-vu imediato e instantâneo, aquela percepção estranha de já ter ouvido vezes sem conta estes acordes, apesar de termos a certeza absoluta que só agora estamos perante o primeiro contacto com We Were Dead Before The Ship Even Sank.
Agora que decorrem cerca de 3 anos, da sua obra-prima Good News for People Who Love Bad News, surge uma obra a transbordar de pop/rock, todo ele perfeito e onde a principal arma de guerra é a voz de Isaac Brock. É este o cartão-de-visita dos Modest Mouse, voz anazalada e quase sempre em revolta, em constante sofrimento, todo resto são lugares comuns pop. A criação de tudo isto surge com uma perfeição cósmica, com ondas pré-definidas, onde tudo parece ter sido bem pensado e previsto ao milímetro, é só carregar em botões e aguardar o rodar da fita magnética.
O moderno pop/rock é assim, feito de lugares comuns, recorrendo a normas e efeitos já há muito testados e comprovados, o que faz toda a diferença é o toque especial de cada banda, e os Modest Mouse tem essa capacidade, esse dom. Aliando à sua enorme capacidade de criação de canções, cheias de humor e sarcasmo, Isaac Brock e os restantes Modest Mouse, convidaram dois artistas de peso Johnny Marr (ex-Smiths) e James Mercer (The Shins), o primeiro emprestando os seus dotes como guitarrista e o segundo fazendo backing-vocals em temas com “We've Got Everything” ou “Florida”.
Para os conhecedores de toda a obra dos Modest Mouse, este álbum distingue-se dos outros em virtude de existir muito mais harmonia e mais melodia do que é habitual, não estamos perante um disco perfeito, mas é um disco muito bem disposto e com uma capacidade de transmitir essa sensação ao seu ouvinte… deixando um perfume de bem-estar no ar, perfeito para o por de sol na praia.

Momento Mágico
: Florida


Modest Mouse – “We Were Dead Before The Ship Even Sank” (2007) - Sony

2007/07/25

Bodi Bill

Extraordinariamente Meigo

Desde os seus primórdios, algures nos anos 70 com o disco/funk e com parcos meios electrónicos disponíveis, que a electrónica assumiu a sua identidade, trazendo até ás pistas de dança novos sons e subgéneros sem fim. Trinta e tal anos volvidos, nem toda a electrónica é hoje para dançar, resultando, da fusão estilística com outros géneros, musica para ambientes mais ascéticos. No More Wars, álbum de estreia dos alemães Bodi Bill, vive na electrónica mas viaja por todos os quadrantes musicais. Recorrendo a instrumentos clássicos – piano, violino e guitarra – combinados com genuína composição computorizada, são impressas, em texturas digitais, melodias naturalmente orgânicas.
As secções repetitivas e uma e concisa estrutura, focam os elementos acústicos, conferindo assim um certo cariz pop à música. A forte presença do songwriter, quer na letra quer na parte vocal, traz para alguns dos temas mais introspectivos - "Traffic Jam" e "Very Small"– um condimento folk. O segundo e terceiro terços do disco são entusiasticamente dançáveis, com temas techno, trance e electro – "Kilogramm", "Be Home Before" "Dinner", "Naegel".
Não é um disco puro-sangue, muito pelo contrário, tanto nos atira para ritmos dinâmicos como nos mima com apaixonadas baladas – "Willem". Por isto, No More Wars é música digital extraordinariamente meiga.

Momento Mágico: Kilogramm


Bodi Bill
- No More Wars (2007) - Sinnbus

2007/07/21

Dragonette

Estreia Auspiciosa

O disco de estreia desta banda canadiana, sedeada em Londres, que se assume como “uma banda rock-electrónica que escreve canções pop…”, confirma as boas indicações deixadas pelo EP homónimo, lançado em 2005, e constitui uma lufada de ar fresco no panorama actual da música pop.
Os Dragonette praticam uma electro-pop moderna, que apela às pistas de dança, resultado da fusão da pop e synth-rock, característica de bandas dos anos 80, com as mais recentes tendências, que reveste uma elevada dose de provocação e possuem uma vocalista/frontwoman Martina Sorbara que, para além dos seus inegáveis dotes vocais que lhe valeram um convite para colaborar no disco novo dos Basement Jaxx, é carismática, provocante em palco e, porque não dizê-lo, muito dotada fisicamente.
Galore agrega temas presentes no seu EP de estreia, como "I Get Around", "Competition" e "Jesus Doesn’t Love Me", a temas novos, nomeadamente, "Another Day", "Get Lucky, Black Limousine, Gold Rush" e "Marvellous" e ainda outros resultantes da reformulação de algumas das suas primeiras composições, como a faixa "True Believer".
Temas recorrentes nas suas canções são as mensagens de grande carga sexual, celebrando um mundo de promiscuidade sem remorsos e de predadores(as) sexuais, designadamente em faixas como "I Get Around, True Believer" e "Competition" e o comportamento em palco da vocalista, autora de frases emblemáticas como “Who do I have to fuck to get you to dance?”, granjeou-lhes algum destaque entre a comunidade musical, bem como ferozes ataques por parte de algumas comunidades religiosas mais conservadoras.
Os Dragonette encontram-se na antecâmara do sucesso, escrevem belas canções pop, são provocantes e polémicos q.b., existe um grande hype à sua volta, têm por isso tudo para dar o salto definitivo do universo “indie” para o mainstream. O tempo dirá se vão ser bem sucedidos.

Momento Mágico: I Get Around


Dragonette - Galore (2007) - Universal

2007/07/18

Bill Callahan

Com Alma

A voz é um aroma, não interessa agora (ou noutra altura) auferir a sua qualidade, se é cristalina, angulada, negra, rouca ou de qualquer outra cor, forma ou tamanho, o que importa é afirma-lo como ponto de contacto, como lembrete instantâneo e poder dizer: “olha isto é….”. E isto é Bill Callahan.
Este anterior momento de prosa, nasce após a audição do último trabalho do Sr. Smog. Woke On A Whaleheart, um disco repleto de alma, onde a luz se cruza com a sombra, uma espécie de eclipse total do sol, mas com uma duração superior ao normal. Bill Callahan é um songwriter por excelência, onde temas com o sexo, a paixão, o amor, a natureza circundante, são explorados de uma forma intensa e com uma beleza fora do comum, mas sem nunca sair do imensamente banal. Musicalmente a forma como disco está construído, abandonando quase por completo a linhagem eléctrica e criando um corpo suportado em sons de órgão e bateria despreocupada, dando-lhe uma visão gospel-country.
Woke On A Whaleheart não é mais do que um paraíso construído à imagem de Cash “The Wheel” ou de Cohen “Diamond Dancer”, ”A Man Needs A Woman Or A Man To Be A Man” é pura e directa, uma canção densa e ampla.
O primeiro trabalho em nome individual de Bill Callahan, é um disco atestado de emoções, sentimentos e energéticas ondas de paixão, deixando os simpatizantes de Smog baralhados, pois o resultado final é soberbo, sendo que Woke On A Whaleheart é um dos grandes trabalhos de 2007.
Bill Callahan é um senhor a seguir com imensa atenção, prevejo uma continuidade da obra, mas com cada vez mais sensibilidade e maior simplicidade.

Momento Mágico
: Diamond Dancer


Bill Callahan
- Woke On A Whaleheart (2007) – Drag City


2007/07/15

Blonde Redhead

Flutuar Em Mistério

Por vezes, inexplicavelmente, há discos que se apoderam de nós, sem que possamos fazer algo contra esse facto. Por mais que os ouçamos, tarda a hora em que é posto de lado e tempo de partir para outro. 23 dos Blonde Redhead é um desses casos. Por isso a melhor forma de me libertar de 23 é, como diz um amigo meu, escrever. Não se trata apenas de mais um álbum na linha do indie rock ou pop, digamos que aqui há muito de experimental, de criação temerária, desafiando deste modo as classificações convencionais.
Desde o primeiro momento, com o tema homónimo, o disco indicia uma elevada densidade marcada sobretudo pela liderança da guitarra e por uma firme bateria. Mas é a voz de Kazu Makino, que nos alicia a entrar num ambiente volátil, intenso, eléctrico, mas indulgente. Um teatro onírico de cenas emotivas. Depois é somente flutuar pela estratosfera polifónica, composta por delicados ritmos electrónicos, melodias doces e vozes apaixonadas.
Misterioso e de uma estranha beleza, 23 revela-se mais como uma forma audaciosa de arte/pop, em que poucas bandas actualmente em cena ousariam arriscar. Tal ousadia é a marca que distingue uma banda com 14 anos de carreira e sete discos lançados. E este é sem dúvida um testamento ao talento e à reinvenção.

Momento Mágico: Dr. Strangluv


Blonde Redhead - 23 (2007) - 4AD

2007/07/04

Meio Ano - Meia Lista

ATENÇÃO: O exercício que se segue, é de grande dificuldade e não deve ser tentado em casa...

Fazer uma lista de qualquer coisa relacionado com musica, é sempre uma coisa que vejo como uma brincadeira (até porque amanhã a lista seria diferente) e foi com esse espírito que pedi aos meus colaboradores uma pequena listagem dos melhores discos de 2007 à presente data. Mais uma vez a minha única intenção, é divulgar...
Cada um de nós, seleccionou 5 temas, ao qual corresponde uma pequena compilação - VER AQUI

António Antunes

Electrelane - "No Shouts, No Calls"
Quando as gajas se transformam em mulheres.


Of Montreal - "Hissing Fauna, Are You The Destroyer"
Pop lunatico, recheado de trejeitos e lantejoulas.


Panda Bear
- "Person Pitch"
Quando meio, consegue ser tão bom quanto o todo.


Odawas
- "Raven And The White Night"
A escuridão rock repleta de luminosidade sonora.


No Age - "Weirdo Rippers"
O encaixe perfeito entre velocidade sónica e calmaria desafinada.


Bruno Coelho

Grails - "Burning Off Impurities"
Um Acid Folk que nos leva numa viagem ao passado. Uma viagem que por vezes é bastante atribulada.


LCD Soundsystem
- "Sound Of Silver"
Indo por caminhos mais rock conseguiram continuar a inovar. Passaram com distinção no teste do 2º álbum.


Electrelane
- "No Shouts, No Calls"
O som é o mesmo, a garra é a mesma...
É difícil destacar o melhor álbum delas, mas este é um forte candidato.


Parts & Labor
- "Mapmaker"
O som está mais limpo do que nos têm habituado, mas a energia continua lá.
Mais um que passa com distinção no teste do 2º álbum.


Modest Mouse
- "We Were Dead Before The Ship Even Sank"
Good news for people who love good music.
A energia pop em todo o seu esplendor.


Carlos S. Silva

Aqualung – "Memory Man"
Matt Hales incorporou novos elementos na concepção deste disco e atinge um patamar muito elevado. Sentimentos à flor da pele num artista promissor em constante crescimento. Correndo por fora, este continua a ser um dos meus discos preferidos de 2007.



Arcade Fire
– "Neon Bible"
O disco de estreia dos Arcade Fire foi um marco discográfico do ano de 2004. Honrar esse legado não era uma tarefa fácil, mas os Arcade Fire conseguiram-no e superam o obstáculo com um disco que roça a genialidade e lança novos horizontes sobre o futuro da banda.


Au Revoir Simone –
"The Bird Of Music"
Dizem que a verdadeira beleza reside na simplicidade das coisas, o disco de estreia deste trio nova-iorquino ilustra na perfeição essa máxima. È impossível ficar indiferente à delicadeza, à harmonia e à musicalidade que irradiam deste disco.



The Shins –
"Wincing The Night Away"
A banda de Albuquerque continua a subir a fasquia a cada edição discográfica. Este disco é um compêndio de grandes canções, um verdadeiro manual do rock. Muito embora o ano ainda vá a meio, este disco vai constar, sem qualquer dúvida, na lista dos melhores do ano. Imprescindível.



Wray Gunn –
"Shangri-La"
A banda de Coimbra, com um disco repleto de canções que se entranham à primeira audição, ingressa com todo o mérito nesta lista. Rock old school em pleno processo de maturação e que poderá levar os Wray Gunn a voos mais altos no panorama musical internacional.


Edgar Domingues

Blackfield – "Blackfield II"
Sonoridade épica em moldura pop-rock. Soberbo.


Blonde Redhead
– "23"
23 é o atingir da idade maior, ousar o eclético emocional mas com maturidade.


Bodi Bill
– "No More Wars"
Acabaram-se os padrões, habita na electrónica mas viaja por todos os quadrantes musicais.



Voxtrot
– "Voxtrot"
Pop menos mainstream para adolescentes tardios. Quero voltar a ser um puto.


Electrelane
– "No Shouts No Calls"
Um disco de se lhe tirar o chapéu.

2007/07/01

Ray LaMontagne

Country Bluesman

Existem muitos artistas no mundo, uns conseguem aliar a composição musical à transmissão de sentimentos e emoções, outros não. Ray LaMontagne integra-se, claramente, no primeiro grupo, quero dizer com isto que a sua música é, acima de tudo, sentida e depois cantada. O modo apaixonado como canta, as letras introspectivas e a capacidade que tem para as exprimir musicalmente deixa poucas dúvidas sobre o seu talento.
Em "Be Here Now", faixa de abertura do disco, Ray LaMontagne demonstra a evolução do seu som, desde o disco de estreia Trouble, guitarra acústica dedilhada, piano longínquo, secção de cordas que confere um ambiente etéreo, perturbador e acima de tudo uma vocalização agreste, profunda e verdadeira.
Outra das grandes canções do disco é “Lesson Learned” é uma canção amarga, sobre um relacionamento em que alguém parece não perceber, ou querer aceitar, que já não é desejado. Em “You Can Bring Me Flowers”, outra canção amarga, vigora um riff de baixo que, juntamente com uma secção de metais inspirada em Miles Davis, transforma, de forma muito positiva, o som habitualmente simples e directo de Ray LaMontagne.
A faixa que dá nome ao disco é uma reflexão sobre uma sociedade austera, feita com uma tristeza profunda, que se sente como um murro no estômago e que nos faz reflectir sobre o modo como vivemos a vida e encaramos o próximo.
Till The Sun Turns Black é um disco genuíno, distante da superficialidade de muitos artistas dos nossos dias, que pinta um quadro de uma realidade triste, de uma sociedade decadente e sombria e não deixa ninguém indiferente.
Imprescindível.

Momento Mágico: Be Here Now


Ray LaMontagne Till the Sun Turns Black (2007) - RCA

2007/06/27

The Shins

Simplicidade Absoluta

Após o sucesso de Chuts Too Narrow, a expectativa está alta e isso deve-se à natureza desta banda, que consegue criar canções de uma simplicidade notável, usando na perfeição o manual pop. Gostava de afirmar que ao 3º álbum os Shins, deixam a fase da puberdade e passam definitivamente à fase adulta, mas estamos perante uma banda sobredotada, que já nasceu com barba.
Wincing The Night Away chega então com uma naturalidade lógica, frugal e simples. Temas como “Sleeping Lessons” ou “Sea Legs” antecipam a chegada dos quentes finais de dia, “Australia” é uma festa a que todos queremos pertencer, é solene e saltitante, o repetitivo bater de pandeireta e ooh ooh do refrão, fazem de “Phantom Limb” um cântico aos deuses da pop. “Turn On Me” é paixão instantânea, é só deixar dissolver.
The Shins vivem na mesma pensão, onde em tempos se hospedaram os The Byrds e alugaram o mesmo quarto de Simon & Garfunkel, foi com eles que tiveram aulas de culinária, tendo aprendido a usar os mesmos utensílios e as mesmas formas, daí que o resultado seja alta cozinha, gastronomia sonora de primeira linha.
Ideal para enterrar os pés na areia, ouvir o mar, espreitar a ultima moda em bikinis e beber algo fresco (não gelado), perfeito equilíbrio entre o bem-estar e o estar bem.

Momento Mágico: Phantom Limb


The Shins
Wincing The Night Away (2007) – Sub Pop


OUTRO PENSO por Carlos S. Silva
e
OUTRO PENSO por Edgar Domingues

2007/06/24

Battles

Música de Loucos

Já dizia Fernando Pessoa "Primeiro estranha-se, depois entranha-se" e este é um caso flagrante. Estranha-se porque é um som arrojado, diferente do que já se fez e até um pouco massudo, mas à medida que se vai ouvindo transforma-se e fica viciante, aquele som estranho começa a fluir e damos por nós completamente entranhados.
Antes do Mirrored, esta espécie de Super Grupo lançou uma trilogia de EPs onde fizeram as suas experimentações que ajudaram a criar uma identidade e maturidade que é notória no LP. O som é mais objectivo e nalguns casos bastante dançável tal a energia e o ritmo que a música nos transmite. Esse ritmo é muitas das vezes repetido até à exaustão, o que pode estranhar na tal primeira audição, mas que depois dá lugar a ambientes viciantes e de alguma loucura, porque isto é um bocado música de loucos.

Momento Mágico: Tij


Battles - Mirrored (2007) - Warp

2007/06/20

Cary Brothers

Emoção À Flor Da Pele

Cary Brothers teve a sua grande oportunidade quando Zach Braff (actor/produtor/realizador) decidiu incluir o tema “Blue Eyes” na banda sonora do filme Garden State, ao lado de nomes como os The Shins, Iron & Wine, Thievery Corporation, Zero 7, Frou Frou, Nick Drake, etc.
Poucos anteciparam o sucesso estrondoso alcançado por esta compilação, que projectou de sobremaneira muitas das bandas nela incluídas, curiosamente Cary Brothers era o único que à data não tinha um disco editado. Esse facto não impediu que se criasse muita expectativa em relação à sua música, sendo frequente encontrar temas seus em diversas séries de televisão ("Grey's Anatomy," "Scrubs," “Smallville,", “Bones”) e no cinema ("Garden State," "The Last Kiss").
Essa falha foi colmatada pela edição dos EP’s All The Rage e Waiting For Your Letter que serviram para consolidar sua base de fãs e, simultaneamente, geraram muitas expectativas relativamente ao seu disco de estreia.
Esse disco é Who You Are e caracteriza-se pela fusão, bem conseguida, de elementos Rock/Pop/Folk, originando aquilo que se pode descrever como música emocional, muito mainstream para ser indie e muito indie para ser mainstream e pode ser a rampa de lançamento de um dos artistas mais cativantes e promissores da cena musical.
São vários os seus momentos altos, nos quais o talento de Cary Brothers como comunicador de emoções transparece, desde logo na sinceridade da faixa de abertura "Jealousy", a súplica em "Ride", a raiva latente em "Who You Are", a sensibilidade em "The Glass Parade", o virar de página em "The Last One", a emocional cover de "If You Were Here" (sublimada pela excelente prestação vocal de Justin Seay e Rachel Robinson nos coros) e a devoção presente em "Blue Eyes" (faixa escondida).
Essa facilidade em musicar sentimentos é o grande talento de Cary Brothers, é a razão que leva a sua música a ser incluída em diversas produções televisivas e cinematográficas e é o motivo pelo qual a incluímos na banda sonora das nossas vidas.

Momento mágico: Ride


Cary Brothers - Who You Are (2007) - Bluhammock / Procrastination Music

2007/06/16

The National

Pop de Fato e Gravata

Boxer marca o regresso dos National, após terem atingido a merecida notoriedade em 2005 com o seu terceiro álbum intitulado Alligator.
As diferenças com o disco antecessor são evidentes logo nos primeiros acordes do tema de abertura, “Fake Empire”. Ali pairava a explosão e o caos, agora a régua e o esquadro dominam Boxer, obrigando-o a respeitar a divina proporção, tornando-o controlado e timidamente contido, mas que de quando em vez liberta indignação.
É um álbum sobretudo observacional, reflectivo, cujas letras descrevem dicotomias: amor-ódio, guerra-paz. Ao ouvi-lo é recorrente a imagem de um gentleman envergando fato e gravata, sentado numa poltrona num selecto clube de fumo, que respeitosa e serenamente, não sem uma boa dose de ironia, disserta sobre alienação urbana. Daí que crie uma atmosfera nocturna, levando-nos a vaguear de mãos nos bolsos e cabeça pensativamente caída, por escuras ruas despidas de movimento.
Predominantemente acústico, o disco é marcado pela guitarra de
Bryce Dessner's, um piano nada absentista e a bateria de Bryan Devendorf's, naturalmente enriquecido pela ébria voz de Matt Berninger. Bem vindos à prismática melancolia de Boxer.

Momento Mágico
: Fake Empire


The National - Boxer (2007) - Beggars Banquet

2007/06/15

The Legendary Tiger Man (Concerto)

Barcelona - La [2] Nitsa Club Apolo - 2007/06/09





Dead Combo (Concerto)

Barcelona - La [2] Nitsa Club Apolo - 2007/06/09



2007/06/06

Avey Tare & Kria Brekken

Desespero Folk

Avey Tare é o mestre de obra dos Animal Collective, a ele juntou-se Kria Brekken, e ambos realizaram um matrimónio musical, produzindo um dos mais etéreos álbuns de 2007. A pausa após Feels está a dar resultados assombrosos, se de um dos lados Panda Bear aparece com “Person Pitch”, no lado oposto aparece Avey Tare com Pullhair Rubeye, o que só ajuda a aumentar as expectativas, já por si bastantes elevadas em relação ao novo trabalho, que se prevê chamar Strawberry Jam, aguardemos…
A definhação do piano e o acorde infinito da guitarra em “Opis Helpus” surgem num eterno e imenso sem fim, procura-se um pedido de ajuda em puro desespero. O minimal dedilhado de “Palneka” apesar de desconstraído, dura, dura, dura, provocando uma estranha sensação de profundidade, uma enorme e gigantesca caverna. “Seasong” é o mais Animalesco dos temas de Pullhair Rubeye, bastava a colagem de uns quantos sons electrónicos e uma pequena percussão e estava feito.
Pullhair Rubeye é uma mescla entre psycho-folk e um neuro problema perfeitamente assumido, uma presença à beira do precipício da depressão mental onde basta uma suave brisa e o acidente acontece, é um perfeito equilíbrio entre o casaco de malha e o casaco de forças. É um perfeito álbum neo-folk, ou porque não, post-folk.

Momento Mágico: Lay Lay Off, Faselam


Avey Tare & Kria BrekkenPullhair Rubeye (2007) – Paw Tracks

2007/06/02

Grant Lee Phillips

Coerência Musical

De regresso em 2007, com o disco Strangelet, Grant Lee Phillips comprova, uma vez mais, o seu enorme talento como compositor e instrumentista. Com efeito, as doze canções que compõem este disco, o quinto da sua discografia a solo, cruzam, de forma sublime, emoções antagónicas, opressão e optimismo, dissonância e redenção, espelhando a arte do seu criador.
Quem está familiarizado como o trabalho de Grant Lee Phillips, desde o tempo da banda Grant Lee Buffalo, reconhece as suas enormes qualidades como músico, que se reflectem no facto de ter sido responsável pela maioria dos instrumentos utilizados no disco, como compositor/poeta/trovador da condição humana e o carisma e expressividade da sua voz que, no universo folk rock em que sempre se movimentou, encontrou a casa perfeita.
Strangelet é um dos discos mais intimistas que gravou até hoje, condimentado por diversas referências ao legado da sua antiga banda, expressa de forma irrepreensível a sensibilidade de um artista que não receia mostrar a sua visão romântica e poética da vida e ganha impacto e intensidade com cada audição.
Num mundo em constante mudança, obcecado com fórmulas instantâneas de criação musical como modo de alcançar os “quinze minutos de fama” como tão bem caracterizou Andy Warhol, é bom saber que existem bastiões de honestidade e coerência, incólumes ao tempo e às ditaduras da moda, e a já longa e profícua carreira de Grant Lee Phillips confere-lhe, sem qualquer dúvida, um lugar no panteão da música.

Momento Mágico: Soft Asylum (No Way Out)


Gran Lee Philips - "Strangelet" (2007) - Zoe

d3o (Concerto)

COIMBRA - VIA LATINA - 2007/06/01



Almandino Quiet Deluxe (Concerto)

COIMBRA - VIA LATINA - 2007/06/01



Major Dick And Captain Woody (Concerto)

COIMBRA - VIA LATINA - 2007/06/01



2007/05/31

2007/05/27

Mother Mother

Chicken-Pop

O país da bandeira de folha caduca, produz bandas que, apesar de tudo, florescem atravessando as quatro estações sem capitular, de que são exemplo os Arcade Fire, Broken Social Scene, Metric, Júnior Boys, aos quais se juntam agora os Mother Mother, estranhíssimo quinteto oriundo de Vancouver.
A julgar por este seu primeiro disco, eu diria que é quase impossível associá-los a um género ou estilo musical predefinido. A ausência de limites, ou uma imensa originalidade na criação dos temas, faz com que percorram, folk, country, pop, alt-rock, jazz, hillbilly, tango, o que quiserem, conferindo uma inusitada versatilidade ao disco.
As letras excêntricas e rocambolescas, são interpretadas por um carismático triunvirato de vozes freaky, assistidas pelo arranjo acústico da guitarra que marca o ritmo de um comboio a vapor. A inovadora música dos Mother Mother, podia muito bem ser escolhida para uma fuga das galinhas ou uma guerra de capoeira, tal é a diversão e por vezes a propositada patetice a que soa.
O estilo cabaret e os coros luminosos de Ryan Guldemond, Molly Guldemond e de Debra-Jean Creelman, fazem deste disco uma refrescante e original limonada pop, a servir fresca em dias bem quentes.

Momento Mágico: Polynesia


Mother Mother - Touch Up (2007) - Last Gang Records

2007/05/24

Voxtrot

Vox-Pop

Logo no inicio da primavera mudam-nos a hora e ficamos com um ligeiro jet-leg de dificil adaptação, só ao fim de alguns dias e após algum esforço, voltamos ao normal ritmo de vida.
O primeiro trabalho de Voxtrot, provoca a mesma sensação, deixa-nos completamente espantados, desorientados e até desconfiados logo nas primeiras audições, só aqui a reacção é contrária, não queremos nem por nada voltar à nossa vida terrena.
Após 3 magnificos Ep’s (Mothers, Sisters, Daughters & Wives (2006); You Biggest Fan (2006) Raised By Wolfes (2006), surge o tão esperado (pelo menos por mim) primeiro album desta banda texana (Austin), liderada por Ramesh Srivastava, que é o principal mentor e motor da banda compondo e cantando todos os temas. A voz de Srivastana está na tonalidade de muitos outros vocalistas, poderia colocar aqui imensas comparações, mas desta vez não o vou fazer, vou limitar-me a dizer que é clara, nitida, leve e desconstraída.
O resultado de todos estes adjectivos é sublime, temas como “Kid Gloves” ou “Firecraker” são instantaneos e vivem dentro da gramatica pop, onde o predicado e o sujeito ocupam a sua correcta posição e onde nem sequer há lugar a adverbios de modo. “Easy” e “Blood Red Blood” são tardes de calor em dias frios de primavera. “Ghost” e “Brother In Conflict” chegam à mais escura das sombras e com um simples e recatado acorde de guitarra, transformam a noite em dia. Com “Future Part. 1” e “Every Day” prova-se que nem só de pão vive o homem, que é preciso algo mais que nos transforme em quase deuses.
Voxtrot é terrivelmente pop, é pop como deve ser, é uma manhã de sol, é uma bela mulher, é um descontrolado bater de pé, é um sorriso de criança, é um bem estar presente e permantente… é… é… é um forte candidato a melhor disco do ano.

Momento Mágico: Kid Gloves


Voxtrot
Voxtrot (2007) - Playlouderecord


OUTRO PENSO por Edgar Domingues

2007/05/21

The Rosebuds

"O Meu Castigo É Viver Sem Ti..."

Não pude deixar de traduzir este verso, presente na faixa "My Punishment For Fighting” do terceiro álbum dos The Rosebuds, uma vez que ele expressa na perfeição, o ambiente deste disco. Night Of The Furies vive, respira e transpira pop, brilhante, sonhadora, esperançosa, ocasionalmente sofredora, que sonoriza com mestria relacionamentos em que os desentendimentos e as diferenças são contrariados pela esperança indelével num futuro comum.
A classificação, por alguns, do seu som como “New Romantic” tem o seu fundamento na utilização omnipresente de sintetizadores e vozes etéreas, no prossecução da herança de bandas como os Pet Shop Boys, Roxy Music, New Order, etc., e traduz-se num som muito atractivo, não raras vezes cinemático.
É um disco coeso, bem sequenciado, que abre e fecha com as duas melhores canções do disco "My Punishment For Fighting" e, especialmente, “Night Of The Furies”, nesta não posso deixar de realçar o modo genial como é feita a descrição de alguém, bem na vida, atormentado por fantasmas do passado que o fazem vacilar (There's calm in these banquet years, so I tend to obsess about youth, before the guilt appeared. But I need to forget.").
Nos restantes temas percorre-se, de forma segura, um caminho ligado ao romance, aos seus mistérios, condicionantes e complicações, o que se pode confirmar, entre outros, em “Cemetary Lawns” (um casamento em ruínas), "When The Lights Went Dim" (uma herança inesperada e a angústia relacionada com o desaparecimento de um amor).
Numa só palavra, radioso.

Momento Mágico: Night Of The Furies


The Rosebuds - "
Night Of The Furies" - (2007) Merge

2007/05/18

Dirty Elegance

Unico

Quando a alma se desagrega do corpo, eterizada, enceta uma viagem psicotrópica ás profundezas da dimensão paralela, sons, timbres e vozes irrompem. Combinados entre si estes elementos projectam-se numa hipnose giratória. Não é musica é arte.
Dirty Elegance é inspiração levada ao extremo do engenho humano, aqui o termo complexidade assume outra compreensão. A música electrónica surge-nos como um círculo, desconhece-se onde começa e como pode acabar, pelo que ouvir Finding Beauty In The Wretched, não deveria provocar qualquer perturbação. Mas inevitavelmente provoca. Aliás, afecta-nos, a beleza impressiona, a harmonia seduz, o enigma sonda o ser, levando-o ao exterior sem abstrair do seu interior.
Este disco não vive somente no trip-hop ambiente, habita algures entre Massive Attack e Portishead, encaixado bem fundo nos Sigur Rós e The Album Leaf, é, se assim se pode designar, electrónica experimental. Álbum para pessoas que questionam a existência humana a realidade envolvente, que ousam olhar além da miséria quotidiana que nos rodeia. O individuo em busca do sonho, cuja premissa é dar expressão autêntica ás suas aspirações, descobre neste disco o seu númen.
Único para seres únicos.

Momento Mágico: Wirrok


Dirty Elegance - Finding Beauty In The Wretched (2007)