2007/07/15

Blonde Redhead

Flutuar Em Mistério

Por vezes, inexplicavelmente, há discos que se apoderam de nós, sem que possamos fazer algo contra esse facto. Por mais que os ouçamos, tarda a hora em que é posto de lado e tempo de partir para outro. 23 dos Blonde Redhead é um desses casos. Por isso a melhor forma de me libertar de 23 é, como diz um amigo meu, escrever. Não se trata apenas de mais um álbum na linha do indie rock ou pop, digamos que aqui há muito de experimental, de criação temerária, desafiando deste modo as classificações convencionais.
Desde o primeiro momento, com o tema homónimo, o disco indicia uma elevada densidade marcada sobretudo pela liderança da guitarra e por uma firme bateria. Mas é a voz de Kazu Makino, que nos alicia a entrar num ambiente volátil, intenso, eléctrico, mas indulgente. Um teatro onírico de cenas emotivas. Depois é somente flutuar pela estratosfera polifónica, composta por delicados ritmos electrónicos, melodias doces e vozes apaixonadas.
Misterioso e de uma estranha beleza, 23 revela-se mais como uma forma audaciosa de arte/pop, em que poucas bandas actualmente em cena ousariam arriscar. Tal ousadia é a marca que distingue uma banda com 14 anos de carreira e sete discos lançados. E este é sem dúvida um testamento ao talento e à reinvenção.

Momento Mágico: Dr. Strangluv


Blonde Redhead - 23 (2007) - 4AD

2007/07/04

Meio Ano - Meia Lista

ATENÇÃO: O exercício que se segue, é de grande dificuldade e não deve ser tentado em casa...

Fazer uma lista de qualquer coisa relacionado com musica, é sempre uma coisa que vejo como uma brincadeira (até porque amanhã a lista seria diferente) e foi com esse espírito que pedi aos meus colaboradores uma pequena listagem dos melhores discos de 2007 à presente data. Mais uma vez a minha única intenção, é divulgar...
Cada um de nós, seleccionou 5 temas, ao qual corresponde uma pequena compilação - VER AQUI

António Antunes

Electrelane - "No Shouts, No Calls"
Quando as gajas se transformam em mulheres.


Of Montreal - "Hissing Fauna, Are You The Destroyer"
Pop lunatico, recheado de trejeitos e lantejoulas.


Panda Bear
- "Person Pitch"
Quando meio, consegue ser tão bom quanto o todo.


Odawas
- "Raven And The White Night"
A escuridão rock repleta de luminosidade sonora.


No Age - "Weirdo Rippers"
O encaixe perfeito entre velocidade sónica e calmaria desafinada.


Bruno Coelho

Grails - "Burning Off Impurities"
Um Acid Folk que nos leva numa viagem ao passado. Uma viagem que por vezes é bastante atribulada.


LCD Soundsystem
- "Sound Of Silver"
Indo por caminhos mais rock conseguiram continuar a inovar. Passaram com distinção no teste do 2º álbum.


Electrelane
- "No Shouts, No Calls"
O som é o mesmo, a garra é a mesma...
É difícil destacar o melhor álbum delas, mas este é um forte candidato.


Parts & Labor
- "Mapmaker"
O som está mais limpo do que nos têm habituado, mas a energia continua lá.
Mais um que passa com distinção no teste do 2º álbum.


Modest Mouse
- "We Were Dead Before The Ship Even Sank"
Good news for people who love good music.
A energia pop em todo o seu esplendor.


Carlos S. Silva

Aqualung – "Memory Man"
Matt Hales incorporou novos elementos na concepção deste disco e atinge um patamar muito elevado. Sentimentos à flor da pele num artista promissor em constante crescimento. Correndo por fora, este continua a ser um dos meus discos preferidos de 2007.



Arcade Fire
– "Neon Bible"
O disco de estreia dos Arcade Fire foi um marco discográfico do ano de 2004. Honrar esse legado não era uma tarefa fácil, mas os Arcade Fire conseguiram-no e superam o obstáculo com um disco que roça a genialidade e lança novos horizontes sobre o futuro da banda.


Au Revoir Simone –
"The Bird Of Music"
Dizem que a verdadeira beleza reside na simplicidade das coisas, o disco de estreia deste trio nova-iorquino ilustra na perfeição essa máxima. È impossível ficar indiferente à delicadeza, à harmonia e à musicalidade que irradiam deste disco.



The Shins –
"Wincing The Night Away"
A banda de Albuquerque continua a subir a fasquia a cada edição discográfica. Este disco é um compêndio de grandes canções, um verdadeiro manual do rock. Muito embora o ano ainda vá a meio, este disco vai constar, sem qualquer dúvida, na lista dos melhores do ano. Imprescindível.



Wray Gunn –
"Shangri-La"
A banda de Coimbra, com um disco repleto de canções que se entranham à primeira audição, ingressa com todo o mérito nesta lista. Rock old school em pleno processo de maturação e que poderá levar os Wray Gunn a voos mais altos no panorama musical internacional.


Edgar Domingues

Blackfield – "Blackfield II"
Sonoridade épica em moldura pop-rock. Soberbo.


Blonde Redhead
– "23"
23 é o atingir da idade maior, ousar o eclético emocional mas com maturidade.


Bodi Bill
– "No More Wars"
Acabaram-se os padrões, habita na electrónica mas viaja por todos os quadrantes musicais.



Voxtrot
– "Voxtrot"
Pop menos mainstream para adolescentes tardios. Quero voltar a ser um puto.


Electrelane
– "No Shouts No Calls"
Um disco de se lhe tirar o chapéu.

2007/07/01

Ray LaMontagne

Country Bluesman

Existem muitos artistas no mundo, uns conseguem aliar a composição musical à transmissão de sentimentos e emoções, outros não. Ray LaMontagne integra-se, claramente, no primeiro grupo, quero dizer com isto que a sua música é, acima de tudo, sentida e depois cantada. O modo apaixonado como canta, as letras introspectivas e a capacidade que tem para as exprimir musicalmente deixa poucas dúvidas sobre o seu talento.
Em "Be Here Now", faixa de abertura do disco, Ray LaMontagne demonstra a evolução do seu som, desde o disco de estreia Trouble, guitarra acústica dedilhada, piano longínquo, secção de cordas que confere um ambiente etéreo, perturbador e acima de tudo uma vocalização agreste, profunda e verdadeira.
Outra das grandes canções do disco é “Lesson Learned” é uma canção amarga, sobre um relacionamento em que alguém parece não perceber, ou querer aceitar, que já não é desejado. Em “You Can Bring Me Flowers”, outra canção amarga, vigora um riff de baixo que, juntamente com uma secção de metais inspirada em Miles Davis, transforma, de forma muito positiva, o som habitualmente simples e directo de Ray LaMontagne.
A faixa que dá nome ao disco é uma reflexão sobre uma sociedade austera, feita com uma tristeza profunda, que se sente como um murro no estômago e que nos faz reflectir sobre o modo como vivemos a vida e encaramos o próximo.
Till The Sun Turns Black é um disco genuíno, distante da superficialidade de muitos artistas dos nossos dias, que pinta um quadro de uma realidade triste, de uma sociedade decadente e sombria e não deixa ninguém indiferente.
Imprescindível.

Momento Mágico: Be Here Now


Ray LaMontagne Till the Sun Turns Black (2007) - RCA

2007/06/27

The Shins

Simplicidade Absoluta

Após o sucesso de Chuts Too Narrow, a expectativa está alta e isso deve-se à natureza desta banda, que consegue criar canções de uma simplicidade notável, usando na perfeição o manual pop. Gostava de afirmar que ao 3º álbum os Shins, deixam a fase da puberdade e passam definitivamente à fase adulta, mas estamos perante uma banda sobredotada, que já nasceu com barba.
Wincing The Night Away chega então com uma naturalidade lógica, frugal e simples. Temas como “Sleeping Lessons” ou “Sea Legs” antecipam a chegada dos quentes finais de dia, “Australia” é uma festa a que todos queremos pertencer, é solene e saltitante, o repetitivo bater de pandeireta e ooh ooh do refrão, fazem de “Phantom Limb” um cântico aos deuses da pop. “Turn On Me” é paixão instantânea, é só deixar dissolver.
The Shins vivem na mesma pensão, onde em tempos se hospedaram os The Byrds e alugaram o mesmo quarto de Simon & Garfunkel, foi com eles que tiveram aulas de culinária, tendo aprendido a usar os mesmos utensílios e as mesmas formas, daí que o resultado seja alta cozinha, gastronomia sonora de primeira linha.
Ideal para enterrar os pés na areia, ouvir o mar, espreitar a ultima moda em bikinis e beber algo fresco (não gelado), perfeito equilíbrio entre o bem-estar e o estar bem.

Momento Mágico: Phantom Limb


The Shins
Wincing The Night Away (2007) – Sub Pop


OUTRO PENSO por Carlos S. Silva
e
OUTRO PENSO por Edgar Domingues

2007/06/24

Battles

Música de Loucos

Já dizia Fernando Pessoa "Primeiro estranha-se, depois entranha-se" e este é um caso flagrante. Estranha-se porque é um som arrojado, diferente do que já se fez e até um pouco massudo, mas à medida que se vai ouvindo transforma-se e fica viciante, aquele som estranho começa a fluir e damos por nós completamente entranhados.
Antes do Mirrored, esta espécie de Super Grupo lançou uma trilogia de EPs onde fizeram as suas experimentações que ajudaram a criar uma identidade e maturidade que é notória no LP. O som é mais objectivo e nalguns casos bastante dançável tal a energia e o ritmo que a música nos transmite. Esse ritmo é muitas das vezes repetido até à exaustão, o que pode estranhar na tal primeira audição, mas que depois dá lugar a ambientes viciantes e de alguma loucura, porque isto é um bocado música de loucos.

Momento Mágico: Tij


Battles - Mirrored (2007) - Warp

2007/06/20

Cary Brothers

Emoção À Flor Da Pele

Cary Brothers teve a sua grande oportunidade quando Zach Braff (actor/produtor/realizador) decidiu incluir o tema “Blue Eyes” na banda sonora do filme Garden State, ao lado de nomes como os The Shins, Iron & Wine, Thievery Corporation, Zero 7, Frou Frou, Nick Drake, etc.
Poucos anteciparam o sucesso estrondoso alcançado por esta compilação, que projectou de sobremaneira muitas das bandas nela incluídas, curiosamente Cary Brothers era o único que à data não tinha um disco editado. Esse facto não impediu que se criasse muita expectativa em relação à sua música, sendo frequente encontrar temas seus em diversas séries de televisão ("Grey's Anatomy," "Scrubs," “Smallville,", “Bones”) e no cinema ("Garden State," "The Last Kiss").
Essa falha foi colmatada pela edição dos EP’s All The Rage e Waiting For Your Letter que serviram para consolidar sua base de fãs e, simultaneamente, geraram muitas expectativas relativamente ao seu disco de estreia.
Esse disco é Who You Are e caracteriza-se pela fusão, bem conseguida, de elementos Rock/Pop/Folk, originando aquilo que se pode descrever como música emocional, muito mainstream para ser indie e muito indie para ser mainstream e pode ser a rampa de lançamento de um dos artistas mais cativantes e promissores da cena musical.
São vários os seus momentos altos, nos quais o talento de Cary Brothers como comunicador de emoções transparece, desde logo na sinceridade da faixa de abertura "Jealousy", a súplica em "Ride", a raiva latente em "Who You Are", a sensibilidade em "The Glass Parade", o virar de página em "The Last One", a emocional cover de "If You Were Here" (sublimada pela excelente prestação vocal de Justin Seay e Rachel Robinson nos coros) e a devoção presente em "Blue Eyes" (faixa escondida).
Essa facilidade em musicar sentimentos é o grande talento de Cary Brothers, é a razão que leva a sua música a ser incluída em diversas produções televisivas e cinematográficas e é o motivo pelo qual a incluímos na banda sonora das nossas vidas.

Momento mágico: Ride


Cary Brothers - Who You Are (2007) - Bluhammock / Procrastination Music

2007/06/16

The National

Pop de Fato e Gravata

Boxer marca o regresso dos National, após terem atingido a merecida notoriedade em 2005 com o seu terceiro álbum intitulado Alligator.
As diferenças com o disco antecessor são evidentes logo nos primeiros acordes do tema de abertura, “Fake Empire”. Ali pairava a explosão e o caos, agora a régua e o esquadro dominam Boxer, obrigando-o a respeitar a divina proporção, tornando-o controlado e timidamente contido, mas que de quando em vez liberta indignação.
É um álbum sobretudo observacional, reflectivo, cujas letras descrevem dicotomias: amor-ódio, guerra-paz. Ao ouvi-lo é recorrente a imagem de um gentleman envergando fato e gravata, sentado numa poltrona num selecto clube de fumo, que respeitosa e serenamente, não sem uma boa dose de ironia, disserta sobre alienação urbana. Daí que crie uma atmosfera nocturna, levando-nos a vaguear de mãos nos bolsos e cabeça pensativamente caída, por escuras ruas despidas de movimento.
Predominantemente acústico, o disco é marcado pela guitarra de
Bryce Dessner's, um piano nada absentista e a bateria de Bryan Devendorf's, naturalmente enriquecido pela ébria voz de Matt Berninger. Bem vindos à prismática melancolia de Boxer.

Momento Mágico
: Fake Empire


The National - Boxer (2007) - Beggars Banquet

2007/06/15

The Legendary Tiger Man (Concerto)

Barcelona - La [2] Nitsa Club Apolo - 2007/06/09





Dead Combo (Concerto)

Barcelona - La [2] Nitsa Club Apolo - 2007/06/09



2007/06/06

Avey Tare & Kria Brekken

Desespero Folk

Avey Tare é o mestre de obra dos Animal Collective, a ele juntou-se Kria Brekken, e ambos realizaram um matrimónio musical, produzindo um dos mais etéreos álbuns de 2007. A pausa após Feels está a dar resultados assombrosos, se de um dos lados Panda Bear aparece com “Person Pitch”, no lado oposto aparece Avey Tare com Pullhair Rubeye, o que só ajuda a aumentar as expectativas, já por si bastantes elevadas em relação ao novo trabalho, que se prevê chamar Strawberry Jam, aguardemos…
A definhação do piano e o acorde infinito da guitarra em “Opis Helpus” surgem num eterno e imenso sem fim, procura-se um pedido de ajuda em puro desespero. O minimal dedilhado de “Palneka” apesar de desconstraído, dura, dura, dura, provocando uma estranha sensação de profundidade, uma enorme e gigantesca caverna. “Seasong” é o mais Animalesco dos temas de Pullhair Rubeye, bastava a colagem de uns quantos sons electrónicos e uma pequena percussão e estava feito.
Pullhair Rubeye é uma mescla entre psycho-folk e um neuro problema perfeitamente assumido, uma presença à beira do precipício da depressão mental onde basta uma suave brisa e o acidente acontece, é um perfeito equilíbrio entre o casaco de malha e o casaco de forças. É um perfeito álbum neo-folk, ou porque não, post-folk.

Momento Mágico: Lay Lay Off, Faselam


Avey Tare & Kria BrekkenPullhair Rubeye (2007) – Paw Tracks

2007/06/02

Grant Lee Phillips

Coerência Musical

De regresso em 2007, com o disco Strangelet, Grant Lee Phillips comprova, uma vez mais, o seu enorme talento como compositor e instrumentista. Com efeito, as doze canções que compõem este disco, o quinto da sua discografia a solo, cruzam, de forma sublime, emoções antagónicas, opressão e optimismo, dissonância e redenção, espelhando a arte do seu criador.
Quem está familiarizado como o trabalho de Grant Lee Phillips, desde o tempo da banda Grant Lee Buffalo, reconhece as suas enormes qualidades como músico, que se reflectem no facto de ter sido responsável pela maioria dos instrumentos utilizados no disco, como compositor/poeta/trovador da condição humana e o carisma e expressividade da sua voz que, no universo folk rock em que sempre se movimentou, encontrou a casa perfeita.
Strangelet é um dos discos mais intimistas que gravou até hoje, condimentado por diversas referências ao legado da sua antiga banda, expressa de forma irrepreensível a sensibilidade de um artista que não receia mostrar a sua visão romântica e poética da vida e ganha impacto e intensidade com cada audição.
Num mundo em constante mudança, obcecado com fórmulas instantâneas de criação musical como modo de alcançar os “quinze minutos de fama” como tão bem caracterizou Andy Warhol, é bom saber que existem bastiões de honestidade e coerência, incólumes ao tempo e às ditaduras da moda, e a já longa e profícua carreira de Grant Lee Phillips confere-lhe, sem qualquer dúvida, um lugar no panteão da música.

Momento Mágico: Soft Asylum (No Way Out)


Gran Lee Philips - "Strangelet" (2007) - Zoe

d3o (Concerto)

COIMBRA - VIA LATINA - 2007/06/01



Almandino Quiet Deluxe (Concerto)

COIMBRA - VIA LATINA - 2007/06/01



Major Dick And Captain Woody (Concerto)

COIMBRA - VIA LATINA - 2007/06/01



2007/05/31

2007/05/27

Mother Mother

Chicken-Pop

O país da bandeira de folha caduca, produz bandas que, apesar de tudo, florescem atravessando as quatro estações sem capitular, de que são exemplo os Arcade Fire, Broken Social Scene, Metric, Júnior Boys, aos quais se juntam agora os Mother Mother, estranhíssimo quinteto oriundo de Vancouver.
A julgar por este seu primeiro disco, eu diria que é quase impossível associá-los a um género ou estilo musical predefinido. A ausência de limites, ou uma imensa originalidade na criação dos temas, faz com que percorram, folk, country, pop, alt-rock, jazz, hillbilly, tango, o que quiserem, conferindo uma inusitada versatilidade ao disco.
As letras excêntricas e rocambolescas, são interpretadas por um carismático triunvirato de vozes freaky, assistidas pelo arranjo acústico da guitarra que marca o ritmo de um comboio a vapor. A inovadora música dos Mother Mother, podia muito bem ser escolhida para uma fuga das galinhas ou uma guerra de capoeira, tal é a diversão e por vezes a propositada patetice a que soa.
O estilo cabaret e os coros luminosos de Ryan Guldemond, Molly Guldemond e de Debra-Jean Creelman, fazem deste disco uma refrescante e original limonada pop, a servir fresca em dias bem quentes.

Momento Mágico: Polynesia


Mother Mother - Touch Up (2007) - Last Gang Records

2007/05/24

Voxtrot

Vox-Pop

Logo no inicio da primavera mudam-nos a hora e ficamos com um ligeiro jet-leg de dificil adaptação, só ao fim de alguns dias e após algum esforço, voltamos ao normal ritmo de vida.
O primeiro trabalho de Voxtrot, provoca a mesma sensação, deixa-nos completamente espantados, desorientados e até desconfiados logo nas primeiras audições, só aqui a reacção é contrária, não queremos nem por nada voltar à nossa vida terrena.
Após 3 magnificos Ep’s (Mothers, Sisters, Daughters & Wives (2006); You Biggest Fan (2006) Raised By Wolfes (2006), surge o tão esperado (pelo menos por mim) primeiro album desta banda texana (Austin), liderada por Ramesh Srivastava, que é o principal mentor e motor da banda compondo e cantando todos os temas. A voz de Srivastana está na tonalidade de muitos outros vocalistas, poderia colocar aqui imensas comparações, mas desta vez não o vou fazer, vou limitar-me a dizer que é clara, nitida, leve e desconstraída.
O resultado de todos estes adjectivos é sublime, temas como “Kid Gloves” ou “Firecraker” são instantaneos e vivem dentro da gramatica pop, onde o predicado e o sujeito ocupam a sua correcta posição e onde nem sequer há lugar a adverbios de modo. “Easy” e “Blood Red Blood” são tardes de calor em dias frios de primavera. “Ghost” e “Brother In Conflict” chegam à mais escura das sombras e com um simples e recatado acorde de guitarra, transformam a noite em dia. Com “Future Part. 1” e “Every Day” prova-se que nem só de pão vive o homem, que é preciso algo mais que nos transforme em quase deuses.
Voxtrot é terrivelmente pop, é pop como deve ser, é uma manhã de sol, é uma bela mulher, é um descontrolado bater de pé, é um sorriso de criança, é um bem estar presente e permantente… é… é… é um forte candidato a melhor disco do ano.

Momento Mágico: Kid Gloves


Voxtrot
Voxtrot (2007) - Playlouderecord


OUTRO PENSO por Edgar Domingues

2007/05/21

The Rosebuds

"O Meu Castigo É Viver Sem Ti..."

Não pude deixar de traduzir este verso, presente na faixa "My Punishment For Fighting” do terceiro álbum dos The Rosebuds, uma vez que ele expressa na perfeição, o ambiente deste disco. Night Of The Furies vive, respira e transpira pop, brilhante, sonhadora, esperançosa, ocasionalmente sofredora, que sonoriza com mestria relacionamentos em que os desentendimentos e as diferenças são contrariados pela esperança indelével num futuro comum.
A classificação, por alguns, do seu som como “New Romantic” tem o seu fundamento na utilização omnipresente de sintetizadores e vozes etéreas, no prossecução da herança de bandas como os Pet Shop Boys, Roxy Music, New Order, etc., e traduz-se num som muito atractivo, não raras vezes cinemático.
É um disco coeso, bem sequenciado, que abre e fecha com as duas melhores canções do disco "My Punishment For Fighting" e, especialmente, “Night Of The Furies”, nesta não posso deixar de realçar o modo genial como é feita a descrição de alguém, bem na vida, atormentado por fantasmas do passado que o fazem vacilar (There's calm in these banquet years, so I tend to obsess about youth, before the guilt appeared. But I need to forget.").
Nos restantes temas percorre-se, de forma segura, um caminho ligado ao romance, aos seus mistérios, condicionantes e complicações, o que se pode confirmar, entre outros, em “Cemetary Lawns” (um casamento em ruínas), "When The Lights Went Dim" (uma herança inesperada e a angústia relacionada com o desaparecimento de um amor).
Numa só palavra, radioso.

Momento Mágico: Night Of The Furies


The Rosebuds - "
Night Of The Furies" - (2007) Merge

2007/05/18

Dirty Elegance

Unico

Quando a alma se desagrega do corpo, eterizada, enceta uma viagem psicotrópica ás profundezas da dimensão paralela, sons, timbres e vozes irrompem. Combinados entre si estes elementos projectam-se numa hipnose giratória. Não é musica é arte.
Dirty Elegance é inspiração levada ao extremo do engenho humano, aqui o termo complexidade assume outra compreensão. A música electrónica surge-nos como um círculo, desconhece-se onde começa e como pode acabar, pelo que ouvir Finding Beauty In The Wretched, não deveria provocar qualquer perturbação. Mas inevitavelmente provoca. Aliás, afecta-nos, a beleza impressiona, a harmonia seduz, o enigma sonda o ser, levando-o ao exterior sem abstrair do seu interior.
Este disco não vive somente no trip-hop ambiente, habita algures entre Massive Attack e Portishead, encaixado bem fundo nos Sigur Rós e The Album Leaf, é, se assim se pode designar, electrónica experimental. Álbum para pessoas que questionam a existência humana a realidade envolvente, que ousam olhar além da miséria quotidiana que nos rodeia. O individuo em busca do sonho, cuja premissa é dar expressão autêntica ás suas aspirações, descobre neste disco o seu númen.
Único para seres únicos.

Momento Mágico: Wirrok


Dirty Elegance - Finding Beauty In The Wretched (2007)

2007/05/15

Electrelane

Srªs. Donas Gajas

A clareza de ideias, é um dos mandamentos destas meninas, outro poderia ser a simplicidade e outro ainda a eficácia. Há algo de primário na forma como se constrói/destrói os temas, como se fabrica uma música, tome-se como referencia Emma Gaze (bateria) ou as repetitivas e constantes marteladas nas teclas provocadas por Verity Susman (teclas/guitarra), fica no ar a duvida se tudo isto acontece naturalmente ou se é propositado.
Com No Shouts, No Calls as Electrelane atingem o 4º capítulo da sua (ainda curta) vida artística e surge após o álbum Axes (aquele que eu considero, um dos melhores álbuns dos últimos 37 anos). Se Axes tem a enorme particularidade de ter sido gravado numa única take e com isso ter conferido uma marca indiscutível no universo musical, No Shouts, No Calls é um “álbum de canções” (o que não deixa de ser caricato). O formato canção não existe, no universo Electrelaniano, o que existe isso sim são composições electro-rock, onde as regras não são regras, onde o sinal vermelho significa acelerar e ninguém pára no STOP.
E é assim desta forma subtil e pseudo-calma, que constrói um perfeito álbum rock, “To The East” (o single) descobre uma vocalista em desassossego, como se lhe estive a faltar o ar e a pedir socorro permanentemente. “Tram 21” é krautrock made in 00’s, a composição louca e falta de normalidade é o principal sintoma de demência. O carrossel mágico de “At Sea” é uma tempestade de teclas, são coros de vozes em disfunção…
Um banda perfeita, com temas perfeitos, dentro de um álbum perfeito… se existir alguma imperfeição a culpa é nossa.

Momento Mágico: At Sea


Electrelane
No Shouts, No Calls (2007) - Too Pure / Beggars

2007/05/12

Azevedo Silva

Arte Livre

"Tartaruga! Por uma arte livre.", frase do próprio artista, que se pode ler no seu myspace, reflecte, a meu ver, o que de um músico se espera: a liberdade de criação musical sem quaisquer constrangimentos económicos. Esta atitude assumida em Tartaruga e cada vez mais rara nos tempos que correm, faz deste disco um trabalho absolutamente louvável no panorama musical luso.Mas não é apenas pelo facto de este segundo disco de Azevedo Silva (o primeiro foi o EP Clarabóia) se encontrar disponível gratuitamente, em http://www.virb.com/azevedosilva, que o torna louvável.
O seu mérito reside particularmente na capacidade de imediatamente cativar o mais negligente ouvinte português, quer pelo dedilhar da guitarra acústica, a lembrar o saudoso Zeca Afonso, quer pelas elementares letras, palavras austeras e realistas, que soam como pungentes acoites na consciência, de que é exemplo “Abutres” o quarto tema: “Anda, vem cá ver um exemplo do uso do verbo mandar. Olha, sai ao papá, cabrão do menino. Também bate na mãe? Talvez seja o destino”.
É música simples mas a simplicidade não belisca a intensa mensagem que envia a todos nós. Vale a pena reflectir sobre as emoções que brotam das suas letras. Tartaruga é até à data o mais singular e bem concebido disco português produzido em 2007.

Momento Mágico: Liberdade


Azevedo SilvaTartaruga (2007) – Lástima
http://www.virb.com/azevedosilva

OUTRO PENSO por António Antunes

2007/05/06

Blackfield

Melancolia pop rock

De regresso em 2007, com o álbum Blackfield II, o projecto liderado por Steve Wilson (dos Porcupine Tree) e pelo cantor israelita Aviv Geffen oferece-nos um disco decididamente “pop rock”, no qual as vozes (uma vez que as funções de vocalista são repartidas), as guitarras e os arranjos da secção de cordas originam dez bonitas canções, harmoniosas, melancólicas e um pouco mais experimentais do que o normal neste tipo de sonoridade.
Muito embora Steve Wilson pareça adoptar um papel de destaque como performer, para além da sua faceta de compositor patente em três canções, não se pode descurar o contributo de Aviv Geffen para esta obra, especialmente porque assume a composição de metade das faixas presentes neste disco.
Resulta desta simbiose criativa um belo disco “pop rock”, dinâmico, complexo quanto baste, bem produzido no qual a secção de cordas é o meio, preferencial, para atingir o estado de espírito pretendido pela banda. As músicas que melhor ilustram essa coerência musical e criativa são “1,000 People”, “Christenings” “Epidemic” e “My Gift Of Silence”.
Dir-se-á que é o disco ideal para ouvir enquanto assistimos ao pôr-do-sol numa praia, agora que o calor começa a aumentar e com ele uma maior languidez.

Momento mágico: Epidemic


Blackfield - Blackfield II (2007) - Atlantic

2007/05/01

Parts & Labor

Desconstruções

Numa época em que quase todas as bandas, parecem formatadas e disformadas da mesma forma, onde todas ou quase todas usam as mesmas regras e os mesmos princípios, lá surge uma que se evidência pela sua desconstrução sonora, pela destruição do senso comum musical.
Urgência provocada pela necessidade da explosão sonora, é um marco nos Parts & Labor, já no anterior trabalho Stay Afraid (2006) o constante uso do ruído e da permanente paranóia eléctrica, iam transmitindo ao ouvinte um adorável nó no estômago. Com Mapmaker, continua a hostilidade e agressividade do noise, só que com uma tendência mais linear, não surge a opção do ruído pelo ruído, a opção tomada é consciente e mantida a todo o custo e aqui e ali quase que nasce o primeiro hino noise. Mapmaker é um disco circular e não estou a fazer analogia, é mesmo redondo e é curto o espaço onde se desenrola toda a acção desta banda, não existem espectros nem espelhos, apenas instrumentos e colunas de som, depois basta colocar tudo no volume máximo e aí viajamos nós nos picos dos decibéis.
Melhor que tentar explicar a eficácia da coisa, é ouvir Mapmaker, logo na abertura do álbum “Fractured Skies” como o próprio nome indica uma fractura provocada por uma pancada sónica de alta velocidade, surgida não sabe bem de onde nem como. “Unexplosions” é uma implosão com imenso ruído e cheia de pó. Com “Fake Rain“ surge a canção-noise, o que poderá parecer estranho mas não o é.
Mapmaker é um GPS, para quem acha que o mundo do noise-rock é para pessoas sem sentido de orientação.

Momento Mágico: Unexplosions


Parts & LaborMapmaker (2007) – Jagjaguwar