2007/10/29

Pseudosix

Pseudos?

Os Pseudosix são um colectivo de Portland, Oregon. E este é um daqueles casos, em que a localização geografica, terá certamente uma importante e forte influencia, no resultado sonoro da banda. O estado de Oregon é banhado pelo Oceano Pacifico, mas grande parte da sua área é coberta por densas florestas, o que é muito provavel que crie nos seus habitantes um misto de dualidade entre o campo e o mar.
Esta pequena introdução, serve para ajudar a compreender o novo album de Pseudosix, se por um lado tem uma vertente “Beach Boyana” com um brutal cheiro a maresia e a surf-rock, no outro lado da moeda existe puro rock muito ao genero de Neil Young, tudo isto bem combinado resulta no som tipico de uns The Shins, mas isentos de tanta luminosidade.
Pseudosix é a transição dos 60’s para os 70’s. Existe um controle absoluto das guitarras e das harmonias vocais, que são tão caracteristica dessa época.
A formula sonhadora de “Some Sort Of Revelation” onde toda a construção lirica e musical, se suporta no alicerce sunshine pop, a permanente luta entre a melancolia e jubilo no tema “Enclave” ou uso de coro de vozes em “Fight Or Flight” criando uma atmosfera propicia ao voo da alma tão tipica, por exemplo nuns Grizzly Bear.
Os Pseudosix reaparecem 4 anos, após o seu disco de estreia “Days Of Delay” e fazem-no de uma forma consistente e cheia de intencionalidade, usando todos os recursos ao seu dispor e criando um excelente album pop sorridente e luzidia.

Momento Mágico: Waisting Taking Up Space


Pseudofix
Pseudosix (2007) – Sonic Boom

2007/10/25

Sia

Talento Australiano

Some People Have Real Problems é o título do quarto disco de Sia Furler, cantora australiana, conhecida devido às suas recorrentes interpretações vocais no projecto inglês Zero 7, designadamente em alguns dos temas mais populares deste duo britânico como “Destiny”, “Distractions”, “Somersault”, etc.
Paralelamente a estas colaborações enveredou por uma carreira a solo, tendo alcançado o seu primeiro momento de destaque em 2005, quando o belíssimo tema “Breathe Me”, incluído no seu segundo disco Colour The Small One, foi incluído no episódio final da série “Six Feet Under” (Sete Palmos de Terra). A atenção gerada foi aproveitada com a edição do disco ao vivo Lady Croissant, no qual podemos encontrar uma faixa de estúdio inédita (“Pictures”).
Em 2007 Sia regressa ao estúdio e o resultado é um conjunto de canções que exaltam a beleza e a singularidade da sua voz e que poderão “capitalizar o investimento” realizado pela artista. De facto, ao longo dos 14 temas que compõem o disco podemos encontrar alguns mais próximos do universo chill out, nos quais Sia brilha alto, ao lado de outros mais upbeat, aos quais se entrega sem reservas.
Estamos perante um disco coeso, refinado, pleno de momentos altos como Little Black Sandals”, “Lentil”, “Day Too Soon”, “You Have Been Loved”, “Academia” (c/ a colaboração de Beck), “I Go To Sleep”, “Soon We’ll Be Found”, “Buttons” e, principalmente, Beautiful Calm Driving”.
A cada edição discográfica, Sia supera a anterior e este Some People Have Real Problems não é, felizmente, excepção à regra.

Momento Mágico: Beautiful Calm Driving


Sia - Some People Have Reak Problems (2007)

2007/10/22

Bat For Lashes

Mulher-Morcego

Bat For Lashes é Natasha Khan e Natasha Khan é um cocktail sem alcool de Kate Bush com Shannon Wright, com uma rodela de Bjork a servir de enfeite.
Estamos assim perante um indie-rock feminino, que percorre o fio da navalha tentando manter a todo o esforço o equilíbrio, coisa que nem sempre é facil de atingir, sentindo-se mesmo que aqui e ali que a coisa lhe foge um pouco de controlo. Este descontrolo é claramente provocado, pela forma como constrói cada um dos temas de Fur And Gold.
Ao longo de 11 temas a viagem é um misto de tensão e relaxamento, uma permanente ponte entre o calmo e o pânico assumido. O tema de abertura “Horse And I” carrega uma espécie de cravo electrónico, que de uma forma repetida e introspectiva mostra um cenário carregado de sombras e pequenos fantasmas. “Trophy” é lindíssimo, tem um coro brutalmente repetitivo e intenso e um clapping a espaços que é super contagioso. O levíssimo murmurar em “Wizard”, leva-nos de nuvem em nuvem, até um suave e recatado jardim suspenso.
Fur And Gold é um álbum repleto de ira, mas ao mesmo tempo é atmosférico e super respirável, é uma enorme manada em fúria numa verde e elegante pradaria, abana e estremeces mas com imensa suavidade.
Bat For Lashes é um projecto a seguir com atenção.

Momento Mágico: Trophy


Bat For Lashes
Fur And Gold (2006) - Echo

2007/10/18

No Age

Psiquiátrico

Eu não devia gostar disto. Mas por razão que desconheço e controlo, Weirdo Rippers é o disco mais imediato que ouvi até ao momento (2007), é instantâneo, é o verdadeiro conceito do “faça você mesmo”, basta adicionar um pouco de destreza manual, o mínimo de equilíbrio sonoro e uma auto-estima do tamanho do mundo.
O ambiental início de “Every Artist Needs A Tragedy”, vai enganar o ouvinte e leva-lo no caminho errado, como se fosse uma má companhia, daquelas que tanto a nossa mãe nos avisou e nós não ligamos nenhuma, quando reparamos na consequência já é tarde demais. De pura electrónica avança em direcção de uma bateria completamente hostil, terminando o tema em perfeito e belo noise. “Everybody’s Down” é enorme, é pura adrenalina em ebulição, é a imagem do poder destruidor da natureza, cria uma suave revolução, que apesar de violenta, provoca um enorme bem-estar de difícil explicação.
Os No Age são apenas dois (o guitarrista Dean Spunt e o baterista/vocalista Randy Randall), dois ainda jovens americanos que saem um pouco da linhagem e da linha do rock americano, caminham pelos mesmos trilhos dos Lightning Bolt, fazendo aqui e ali colagens vocais a Animal Collective ou mesmo a Grizzly Bear.
Weirdo Rippers poderá parecer noise ou algo semelhante, na net encontrei uma definição gira post-punk, é isso mesmo…
No Age é uma enorme nova banda… que venha o próximo disco e já agora um concerto.

Momento Mágico: Everybody’s Down


No AgeWeirdo Rippers (2007) – Fat Cat

2007/10/15

Foo Fighters

Rock Descomprometido

Terminada a aventura acústica que foi Skin & Bones, os Foo Fighters regressam com Echoes, Silence, Patience & Grace, voltam a ligar as guitarras eléctricas e a descarregar muitos volts de energia rock e que melhor exemplo que a faixa de abertura The Pretender, um clássico instantâneo da banda de Dave Grohl. Contudo, o regresso da faceta mais eléctrica da banda não implicou a renúncia ao lado acústico que têm vindo a explorar.
Paulatinamente, Dave Grohl tem assumido um papel maior na cena rock internacional, se é verdade que quando a banda publicou o disco de estreia já não era desconhecido do grande público, não se deixou intimidar, contrariamente a muitos outros artistas, nem mesmo com a transição da bateria para o microfone/guitarra e, gradualmente, tem confirmado o seu enorme talento como songwriter.
Na minha opinião, esse talento atinge o seu auge no presente disco, de facto se no antecessor In Your Honor a banda já tinha optado por um caminho pouco habitual, designadamente no “lado B”, em ESP&G Dave Grohl entrega-se, descomprometidamente, a vários registos atingindo momentos de grande brilhantismo, sendo notória a influência de artistas como Led Zeppelin, Beatles, Steely Dan ou Bruce Springsteen no resultado final.
Se a faixa de abertura já foi destacada pela energia transbordante, que dizer da surpresa provocada pela aceleração repentina de Let It Die, dos coros contagiosos de Long Road To Ruin, da redenção em Come Alive ou da provocação de Cheer Up Boys (You’re Makeup Is Running)”. Paralelamente, reconheça-se a beleza e a tranquilidade de momentos como Stranger Things Have Happened“, “Summer’s End”, “Statues” e, principalmente, Home.
De guitarra em punho ou sentado ao piano, gritando como se não houvesse amanhã ou suspirando tranquilamente, Dave Grohl é relevante e isso, nos dias que correm, é algo de que poucos se podem gabar.

Momento Mágico: Come Alive


Foo Fighters - Echoes, Silence, Patience & Grace (2007) - RCA

2007/10/12

Fog

Enovado

Ao sexto disco cruzei-me com eles, aliás tropecei e espalhei-me ao cumprido. Quem são estes Fog? E porque nunca ouvi falar deles antes?
Fog é principalmente o multi-instrumentista Andrew Broder, e pela primeira vez usa o formato trio, sendo acompanhado por mais dois amigos músicos (Tim Glenn e Mark Erickson). A provável razão para ter ouvido falar deles, é que os primeiros anos Broder, andou a criar fundamentalmente musica experimental tendo inclusive assinado os 3 primeiros discos pela Ninja Tunes.
Seja como for estamos perante um disco rock, apesar de se notar perfeitamente que há um imenso cuidado com a produção, provavelmente resultante da quantidade de maquinaria (turn-tables e coisas do género) que Broder deverá estar habituado a mexer. Broder conseguiu transportar para dentro deste seu projecto rock, toda a sua capacidade e visão da musica electrónica e fê-lo de uma forma soberba.
Ditherer é um disco um pouco estranho, as primeiras audições são bastantes exigentes. Há energia e falta dela, há vida e morte cerebral, há teatralidade e vida corriqueira. O disco é carregado de psychadelismo “Hallelujah Daddy” ou então regenera o versão soft-grunge de Soundgarden em “What Gives?” ou ainda usa o pop/rock de uns Wilco em “You Did What You Thought”.
São uma banda transparente, divertida e eficaz, o resultado é puro rock cheio de elegância e de muito talento. Projecto a seguir com imensa atenção.

Momento Mágico
: Your Beef Is Mine


FogDitherer (2007) - Lex

2007/10/09

Lucky Soul

Quase Famosos

Ainda não são famosos (por enquanto), mas também são cinco e chegam-nos igualmente de Inglaterra. Os Lucky Soul trazem com eles pop, ou se quisermos lollipop, pois é música açucarada e colorida a que ouvimos neste seu primeiro disco “The Great Unwanted”. Aqui prestam uma grande homenagem a um passado já não tão recente, mas ainda muito presente na nossa memória e quotidiano, os anos 60 da pílula e da mini-saia.
O ambiente desprendido e idealista daquele período vive em canções de sabor a pastilha elástica do Epá e emoções amplificadas por um primeiro namorico ou de um primeiro french kiss num certo Verão Azul. Ali Howard, único elemento feminino da banda, tem a voz e o aspecto duma Dusty Springfield, sendo notória a influência de bandas como The Ronettes ou as Supremes.
No single “Lips Are Unhappy” é imediatamente reconhecível o estilo Motown, com cintilantes pandeiretas, bateria irrequieta, coros e arranjos harmónicos, tudo apelando a um descontraído “Shake…Shake…Shimmyyyyy”. Na linha de umas Concretes ou das Pipettes, este quinteto Londrino consegue no entanto trazer um revivalismo mais fiel daqueles loucos anos. Evocativo e divertido.

Momento Mágico
: Lips Are Unhappy


Lucky Soul - The Great Unwanted (2007) - Ruffa Lane Records

2007/10/06

Chris Garneau

O Viajante

Chris Garneau é um sussurador, canta entre dentes, faz da sua voz um veículo de transmissão entre o corpo e a alma, fazendo com que esta ultima ganhe relevo, produzindo um sub-produto chamado conforto.
O duelo piano/voz, em que esta última usa e abusa do formato acima descrito, procura o infinito, parte numa viagem sem rumo numa busca incessante, numa procura desesperada do desconhecido, busca algo perdido, talvez um lugar ou alguém.
É de fácil construção uma imagem ou uma fotografia mental, logo nos primeiros acordes de “Castle-Time”, uma espécie de micro banda desenhada, onde um pequeno boneco se aventura num misterioso e entroncado caminho. “Relief” é ambíguo parece uma canção triste, mas no entanto transmite uma enorme alegria. Por fim surge “Between The Bars” há uma lindíssima cover de piano de Elliott Smith (hidden track).
Há em Chris Garneau algo de Sufjan Stevens, de Damien Rice que misturado com desespero da voz de Jeff Buckley, lhe enche a voz de cor e de tonalidades de por de sol. Há uma enorme força interior em Chris Garneau, e sendo este o seu primeiro disco posso (caso não passe completamente despercebido), antever um futuro bastante risonho… a ver vamos.

Momento Mágico: Not Nice


Chris GarneauMusic For Tourist (2007) - Absolutely Kosher

2007/10/03

Eddie Vedder

Viagem Até Ao Desconhecido

Antes de mais, convém esclarecer que o disco a solo de Eddie Vedder pertence à banda sonora do filme Into The Wild, não estamos, portanto, perante uma obra a solo na verdadeira acepção da palavra, na medida em que o artista se vê obrigado a seguir a história que é a génese do filme.
Into The Wild retrata a história de um estudante, Christopher McCandless, que em 1990 decidiu cortar contacto com a sua família, doar o seu dinheiro a obras de caridade e encetar uma viagem através dos Estados Unidos da América até às paisagens remotas do Alaska.
Em traços gerais, é este o guião que inspirou o trabalho musical de Eddie Vedder, apesar de curto (cerca de 33 m), despojado, à semelhança da jornada de Christopher McCandless, o disco explora com sucesso o sentimento inerente a esta viagem. Sendo responsável pela quase totalidade dos instrumentos tocados no disco, Eddie Vedder embarca numa jornada musical na qual demonstra alguns aspectos menos conhecidos da sua música, muito embora outros já se encontrem presentes em temas dos Pearl Jam nos quais a sua influência criativa é mais predominante.
Atendendo às restrições do argumento, o resultado final é positivo, são vários os momentos inspirados nesta banda sonora, muito embora alguns pequem por serem demasiado curtos, desde logo “Setting Forth” que concebe o ambiente para o início da história, “No Ceiling” que retrata a opção do protagonista, “Rise” dominado pelo ukelele que Vedder tanto aprecia, a rudeza de “Long Nights”, a simplicidade de “Tuolumne”, a riqueza do universo folk em “Hard Sun”, o elementar “The Wolf” e finalmente, aquele que é o momento mais inspirado do disco, “End Of The Road” tocante na sua essência agridoce.
Não nos parece que Eddie Vedder vá embarcar numa carreira a solo num futuro próximo, contudo é sempre interessante ouvir a sua música fora do circuito que lhe é tão natural, só lamento ter a oportunidade de ouvir este disco sem poder assistir ao filme, por forma a verificar a adequação da obra musical à obra visual.

Momento Mágico
: End Of The Road


Eddie Vedder - Into The Wild - OST (2007)

2007/09/30

Lightning Dust

Sedução

Por vezes os projectos principais estão predestinados a transformarem-se na sombra de originais e grandiosos projectos paralelos. Oriundos de membros quiçá mais profícuos, acabam por perdurar e sobrepor-se àqueles. Assim é com este duo canadiano formado por Amber Webber e Joshua Wells saídos dos Black Mountain.
Lightning Dust é sadcore nos ambientes que ocupa e folk na base da melodia.
A primeira nota de abertura deste disco abre o pano de um cenário onde a peça apenas se vai desenrolar na nossa mente. As cenas seremos nós que as criaremos a partir do fluxo sensorial que Lightning Dust nos proporcionará durante uma viagem de pouco mais de trinta minutos.
Sonoridades sombrias colhidas na instrumentalização acústica de Wells, são preenchidas por tons âmbar da voz de Webber.
Todas as cenas são possíveis desde que iluminadas por fogo-fátuo. Soberbamente introspectivo e algo fantasmagórico, Lightning Dust embala em “Castles and Caves” e aterroriza em “Breath”. Um cavalinho de carrossel surge colorido em “Wind Me Up”, enquanto em “Jump In” as vozes de Wells e Webber literal e animadamente valsam para um piano carente de uma orquestra.
Pode ser deslumbrante ou misterioso, mas Lightning Dust seguramente seduzirá a quem ouvir.

Momento Mágico: Listened On


Lightning Dust - Lightning Dust (2007) - Jagjaguwar

2007/09/26

Map Of Africa

Eclético q.b.

Precisei de apoio (net) para escrever este texto, até porque foi ao inicio acreditar que todo o disco foi composto e produzido por um DJ. Não tenho a mínima intenção de diminuir as capacidades dos DJ’s, mas apenas constatar que este disco não soa aquilo que deveria soar.
É uma autêntica supresa que um tal de Harvey (DJ de nome artístico) tenha conseguido criar este disco, não o fez sozinho, o outro elemento dos Map Of Africa dá pelo nome de Bullock, ajudou na obra.
Juntos formaram os Map Of Africa e o resultado é altamente contagiante para um amante de rock e consegue esse objectivo logo nas primeiras audições.
Durante as muitas pesquisas, descobri que DJ Harvey é um DJ dos sete costados, um homem sobredotado a passar discos, com uma capacidade de por a rodar nos pratos tudo o que lhe aparecer à frente. Para Harvey não há limites, tudo é passível de integrar uma set list.
O resultado dessa enorme abertura de espírito, está à vista, um disco repleto de reflexos pop-rock, onde nomes com Springsteen (havendo alguma semelhança vocal) ou bandas com ZZ Top, passeiam em grande estilo e onde o post-punk e o krautrock andam de mãos dadas.
Harvey e Bullock são genais, “Bones” e “Smake Fingers” são puro rock, “Here Comes The Heads” é um mergulho num qualquer lago do interior americano, “Gone Ride” são as 500 milhas de Indianapolis, “Map Of Africa” é um convite Portishediano, um fim de tarde em Bristol, “Plastic Surgery” é um desacerto mental, é pura mutação, como ele afirma: “I was to be a person, but i turn into a version of my plastic surgery…”
Map Of Africa é o disco eclético do ano, sem qualquer espécie de duvida.

Momento Mágico
: Plastic Surgery


Map Of AfricaMap Of Africa (2007) - Whateverwewant

2007/09/22

Mick Harvey

O Homem dos Sete-Instrumentos

O multi-instrumentalista australiano Mick Harvey, é provavelmente mais popular pela sua participação nos Bad Seeds, nos quais foi guitarrista e baterista. Com Nick Cave (que conheceu na escola) formou ainda os The Boys Next Door e os Birthday Party no final da década de 70.
Após uma longa carreira nos Bad Seeds, inicia uma carreira a solo com dois álbuns tributo a Serge Gainsbourg Intoxicated Man (1995) e Pink Elephants (1997). Neste seu quarto álbum a solo Two of Diamonds, Harvey tenta mais uma vez sair da sombra de Nick Cave, mas fá-lo recorrendo novamente a versões. Além de um par de originais, o disco reúne sobretudo canções dos “The Saints”, PJ Harvey, Mano Chao, Die Haut, Emmylou Harris, David McComb e Bill Withers.
No entanto, em cada um dos temas que pede emprestado, Harvey revela o seu virtuosismo nos arranjos de semblante baladeiro, emocionais e apaixonados. Não há semelhança entre o original e a versão, quer pela voz em tom rockeiro mas suave, quer pela languidez blues das composições. Por isso Harvey é um genuíno songwriter, o seu cunho pessoal transforma cada original num cover original no seu estilo próprio.
Two Of Diamonds são um punhado de momentos gentis para nos acompanhar durante uma solitária noite de penosas lembranças de erros do passado e amores perdidos.

Momento Mágico: No Doubt


Mick Harvey - Two Of Diamonds (2007) - EMI

2007/09/18

E Já Passou Um Ano

Há um ano atrás, pressionado por alguns amigos com quem partilhava os prazeres da música, vi-me obrigado a criar este blog. Estava perfeitamente convencido que seria um projecto a prazo, mera brincadeira que passados alguns meses ficaria esquecida no éter da net.
No entanto a coisa foi ficando, com a colaboração de mais 3 amigos chegamos hoje ao fim do primeiro ano.
111 textos foram escritos. O amadorismo desde logo assumido não significa insensibilidade. Queremos ou tentamos mostrar a outros como nós, o que sentimos quando escutamos alguns dos muitos discos que por aí se fazem.
Posto isto resta-me como autor agradecer, ao Bruno pelas excelentes ideias gráficas e não só, ao Carlos pela sua escrita escorreita e legalmente bem composta e ao Edgar pela forma como desenha sentimentos com palavras.
A última palavra fica para vocês desse lado, a principal razão por que isto ganhou corpo e cresceu, enquanto houver visitas, continuaremos a escrever, a contar historias, a conversar…
Um imenso bem-haja.

2007/09/15

Editors

Um Novo Começo

Quando o disco de estreia atinge um determinado nível de aceitação comercial e crítica, o dilema inerente à edição do segundo disco é real e não constitui novidade para ninguém. Com The Back Room os Editors conseguiram combinar o reconhecimento comercial e o da crítica, pelo que a expectativa, em relação ao seu sucessor, era grande. An End Has A Start confirma a enorme qualidade da banda e transpõe, com todo o mérito, esse difícil obstáculo.
Sem renegar as suas origens musicais e a influência notória de bandas como os Joy Division e Echo & The Bunnymen, os Editors refinam a sua receita musical e aos já característicos riffs de baixo, guitarras sincopadas e à voz profunda e emocional de Tom Smith acrescentam doses q.b. de optimismo, afectuosidade e esperança, elementos inesperados que potenciam a grandiosidade da sua música. O resultado final é uma atmosfera menos ansiosa, por vezes agridoce, em que se consegue vislumbrar um raio de luz no meio da mais profunda escuridão.
Faixas como “Bones", “Smokers At the Hospital Doors” e “When Anger Shows” são excelentes exemplos desta nova atitude, com efeito, a utilização de sintetizadores confere-lhes uma dimensão épica, que pode elevar a banda a novos patamares de reconhecimento.
Outras canções, como “Push Your Head Towards the Air” e “Well Worn Hand”, arquitectadas em torno de um binómio piano/voz, são grandes na sua simplicidade e sinceridade, cativando à primeira audição.
Só resta acrescentar que se todo o fim tem um começo, espero ansiosamente pelo início do próximo capítulo na história da banda de Birmingham.

Momento Mágico: An End Has A Start


Editors - An End Has A Start (2007) - Fader Label

2007/09/11

120 days

Rock das Terras Frias

A convergência musical de muitas bandas, é criada muitas vezes, de uma forma subtil e repleta de truques (leia-se, produção feita em estúdio).
Os Noruegueses 120 days são um pouco assim, soam a milhentas coisas diferentes, podem parecer uns Spiritualized, abusam da distorção como os Jesus & Mary Chain, usam o mesmo efeito construtivo ou desconstrutivo (como cada um queira) de uns Suicide ou então são indolentes como uns Black Rebel Motorcycle Club.
120 days, é uma daquelas bandas que deveriam soar a cru, em que muito do som devia ser mais primitivo e mais básico, só que estas novas modernices e estes novos actos de laboratório, já muito raramente deixam o som sair puro. Hoje as mãos dos produtores - engenheiros de som, transformam e acrescentam novas sonoridades. Já não há lugar para espaços mortos, vazios, todo o espaço é ocupado e trabalhado com uma perfeição irrepreensível, tudo é primoroso e sem arestas.
Há pequenos passeios lunares em "Keep On Smiling", há perfeito pop-rock em "Be Mine", há divagações pelas frias e secas paisagens escadinavas "Sleepwalking" ou mesmo electrónica freak em "Sleepless Nights".
120 days é um disco de rock nostálgico, perfeito consoante o nosso estado de espírito ou a luminosidade do dia, não é arrebatador mas é bom companheiro.

Momento Mágico: Sleepwalking


120 days120 days (2007) - Vice Records

2007/09/07

Electrelane

Grandes Fêmeas

Um amigo meu chama-lhes: as “Senhoras Donas Gajas”. Realmente são Grandes estas fêmeas, chegam-nos de Brighton, Inglaterra, e dizem, por aí, que são lésbicas (não é que isso tenha algum mal!).
Neste Verão Paredes de Coura recebeu-as em glória (eu estava lá!) e elas corresponderam com aquele que para mim foi o melhor concerto do Festival. Na última Primavera já havíamos arrecadado o seu quarto álbum de originais No Shouts No Calls. Muito na linha do anterior, o Power Out de 2003 (onde o tema "On Parade” é o grande single) voltam novamente ao instrumental desorganizadamente organizado e vocalizações deliberadamente desafinadas.
É rock experimental elegante e sofisticado. Que encanta na simplicidade de abordagem musical, quase amadora. São mulheres mas não complicam, tocam com paixão e confiança, até são românticas. Riffs de guitarra, bateria musculada e um imparável órgão assinalam momentos harmónicos verdadeiramente enfáticos.
Hoje em dia o que não falta por aí são bandas da cena indie-rock e pós-rock, mas reconheço que durante este ano as quem mais me impressionaram foram as formações femininas, de que são exemplo as Au Revoir Simone, The Client e agora as eléctricas Electrelane.
Como tenho dito, “é um disco de se lhe tirar o chapéu”. Elas merecem essa cortesia.

Momento Mágico
: To The East

Electrelane - No Shouts No Calls (2007) - Too Pure / Beggars

Texto de Edgar Domingues

OUTRO PENSO por António Antunes

2007/09/04

Collective Soul

Novo Fôlego

Formados no inicio da década de 90 os Collective Soul foram, incorrectamente, associados ao fenómeno grunge que, na altura, atravessava o mundo. Na verdade, a banda liderada por Ed Roland nunca compartilhou o universo musical das bandas que lideraram este movimento musical e sempre se caracterizou por uma sonoridade pop/rock, polvilhada por alguns elementos característicos do hard rock e da música tradicional americana.
Se em determinada fase da sua carreira atravessaram tempos conturbados a nível de criação musical, como se pode comprovar em Blender o disco menos conseguido da sua discografia, os Collective Soul regressam em 2007 à “boa forma” com a edição de Afterwards, um disco coeso e enérgico que confirma os bons indicadores dados pelo antecessor Youth, e afastam, definitivamente, as dúvidas existentes acerca do futuro da banda.
A faixa de abertura "New Vibration", assente num poderoso riff de guitarra é a pedra de toque para um bom disco. Em Afterwards impera o rock, muitas vezes melódico, e canções como What Can I Give You, All That I Know, I Don’t Need Anymore Friends, Hollywood (single de apresentação) e Persuasion Of You confirmam uma banda com confiança renovada. Se a estes temas associarmos os momentos mais calmos e introspectivos como Bearing Witness, Good Morning After All, Georgia Girl e Adored, outra das suas imagens de marca, o resultado final é um disco que não desiludirá os fãs e confirma Ed Roland como um songwriter de excelência.

Momento Mágico: Bearing Witness


Collective Soul - Afterwards (2007) - Handleman Entertainment

2007/09/01

Black Moth Super Rainbow

Musicos do Arco-Iris

Dandelion Gum chega em 2007, após o falhado Lost Picking Flowers In The Woods e uma pequena pérola, a que ninguém (pronto, quase ninguém) deu atenção em 2004, de seu nome Start A People, e este novo registo aponta na direcção dos descontentes da carreira de Air, aqueles que esperavam que a carreira dos franceses apontasse em direcção à electrónica mais psicótica, mais depressiva (o que gostam de Air, vertente pop, esqueçam).
Electro minimal, psychadelic-pop, abuso de vocoder, visitas e encontros imediatos do 3º grau, se bem que aqui não surge um qualquer ET, mas sim figuras de estranhos contornos, algo entre fantasmas e figuras presentes, verdadeiras criaturas do limbo, personagens com corpo de Tangerine Dream ou Pink Floyd (em principio de carreira), cruzados com Air e com Boards Of Canadá ou seja uma perfeita criação de psych-rock perfeitamente contemporâneo.
Dandelion Gum é um disco acústico, cheio de ondulações orgânicas, onde a presença do LSD e do tetrahidrocanabinol é necessário para o arco-iris ter muito mais do que sete cores, de outra forma correríamos o risco de o ver a preto e branco.
A paleta multicolor dos Black Moth Super Rainbow é muito mais colorida que um arco-iris, é de facto um super arco-iris…

Momento Mágico: Melt Me


Black Moth Super Rainbow
Dandelion Gum (2007) - Graveface

2007/08/27

The White Stripes

Super-Heróis?

Não são super heróis, apesar de possuírem super poderes, um possuí uma arma de destruição maciça uma guitarra onde debita brutais riffs e ondas destruidoras de power rock lacerante, o outro (ou melhor a outra) usa duas baquetas mágicas com poderes extraordinários, que mais parecem duas varinhas de condão nas mãos desta bruxa de vermelho, transformando tudo onde toca em relâmpagos e trovões.
O novo álbum de The White Stripes era aguardado com uma enorme expectativa. E deste ambíguo duo, irmão/irmã, ex-marido/ex-mulher – ou qualquer outra teoria da conspiração que se queira criar – seja o que for que dali resulte, está à vista de todos: eles são muito mais um, do que dois. Basta ouvir o resultado, a ligação musical entre a guitarra e a bateria é primorosa e a atitude prolonga-se ao longo de 13 temas perfeitamente equilibrados, fazendo jus a um passado recente, inovando mas sem sair da linha condutora, a que já habituaram a sua enorme legião de fãs.
Icky Thump faz a vontade a todos, é um pujante disco de classic rock (o quanto mal isto soa), onde o Blues-Rock cruza a velocidades sónicas com Garage-Rock.

Momento Mágico: Conquest


The White Stripes - Icky Thump (2007)

2007/08/23

They Might Be Giants

Universos Paralelos

Os They Might Be Giants nunca foram muito convencionais, ao longo da sua extensa carreira procuraram sempre diversificar a sua sonoridade, como se pode comprovar na sua prolífica discografia e na diversidade de projectos nos quais se envolveram.
O novo disco da banda The Else, o décimo segundo da sua carreira, surpreende da forma mais imprevisível, ao invés de apresentarem um disco à imagem dos seus antecessores, os They Might Be Giants optaram por trilhar um caminho muito próximo do indie rock mais convencional que os afasta das sonoridades a que nos habituaram. As duas primeiras canções reflectem esse rock mais convencional, inesperado na banda, sem prescindir de alguns elementos tão característicos à sua música como o sarcasmo e a ironia presentes em “I’m Impressed” e no hino ao poder feminino “Take Out The Trash”.
Contudo, quando menos se espera, ao fim de cinco músicas assiste-se a uma inversão musical e o regresso ao universo musical tão característico da banda pejado de instrumentalizações estranhas, de quebras inesperadas e de letras enigmáticas. Refiro-me concretamente a canções comoWith the Dark”, “Withered Hope”, “The Mesopotamians” e, principalmente, “The Shadow Government”.
Para os fãs mais dedicados de They Might Be Giants, poder-se-á dizer que a segunda metade do disco é mais coesa e próxima do “norte” musical da banda, contudo a primeira metade é igualmente poderosa, embora distante das suas coordenadas musicais mais frequentes.
The Else é um bom disco, que não irá desiludir os fãs mais dedicados e que pode auxiliar a conquista de novos fãs, e é o espelho de uma banda que continua a divertir-se e saber divertir.

Momento Mágico: Withered Hope


They Might Be Giants - The Else (2007) - Zoe

2007/08/20

Shannon Wright

Uma Mulher Só

O regresso de Shannon Wright ao mundo da música, faz-se com Let In The Light, isto acontece após o magistral álbum Over The Sun de 2004, que é um dos discos mais perfeitos que conheço. Há uma veia romântica em toda a musica de Shannon, é difícil separar a paixão e o sofrimento de tudo o resto, aliás acho que fundamentalmente isso nota-se na intensidade como compõe e como cria cada um dos temas. A fórmula sofrida e dolorosa como coloca a voz, o desespero imposto às teclas do piano e às cordas da guitarra, causa ao seu ouvinte uma angústia descontrolada, mas recheada de uma beleza de mil cores.
Shannon Wright não é fácil de ouvir, requer imensa atenção e uma abertura de espírito enorme, temos de nos libertar de imensos preconceitos musicais e não só, é difícil mas com um pouco de esforço conseguimos e a ao consegui-lo abrimos a porta a um mundo repleto de harmonia, que apraz ao coração, que nos eleva ao espírito de uma forma subtil.
Defy This Love” surge como se fosse uma imagem de uma pequena colegial, na sua primeira aula de piano, esforçada, com imenso de receio de falhar, mas ao mesmo tempo com uma sabedoria imensa. “St. Pete” é a perfeita canção pop-rock, musculada q.b.. “In The Morning” é sonolento, perfeito para as manhã frias e cobertores quentes.
Shannon Wright é a melhor relação voz/piano/guitarra, que anda no mercado.

Momento Mágico: They'll Kill The Actor In The End


Shannon Wright
Let In The Light (2007) - Quarter Stick

2007/08/16

Electrelane (Concerto)

Festival Paredes de Coura - 2007/08/16





2007/08/14

Coldfinger - Supafacial

Superficial?

Os portugueses Coldfinger, a banda de Margarida Pinto e Miguel Cardona, lançam em 2007 o seu quinto disco de originais, Supafcial.
Para aqueles que ainda guardam no ouvido o álbum anterior, Sweet Moods and Interludes, o novo registo poderá soar com alguma desconfiança, senão mesmo desagradar. Especialmente aos fãs habituados a uma sonoridade mais trip-hop, presente nos albums Lefthand e Return to Lefthand.
É um facto que neste álbum os Coldfinger mudam de rumo. A profundidade introspectiva e quadros electrónicos que marcaram os trabalhos anteriores, dão agora lugar a ritmos dançáveis com roupagem pop/rock, de que são exemplo temas como “Dragonfly”, “Beat Kick”, “I Breathe” ou “Bitch Pitcher”.
Ainda assim os Coldfinger não abandonam de todo as suas raízes, sendo possível encontrar na faixa “Hard 2B The Bastard” aquela toada funk e soul que os caracterizou no inicio. Este não é um álbum magnífico mas também não é a pedrada no charco. É antes a capacidade de se renovar e a coragem de fazer algo destoante no panorama musical nacional, com os olhos postos na internacionalização.

Momento Mágico
: I Breathe


Coldfinger - Supafacial (2007) - Lisboa City Records

2007/08/09

Jacob Golden

Um Americano em Inglaterra

Não me perguntem a razão, mas Revenge Songs é o disco que mais vezes ouvi seguidas em 2007 (até ao momento), talvez tenha caído na zona pop/romântica do meu cérebro e rodou… rodou… rodou… É publica a minha paixão por pop, coisa que assumo e da qual não me envergonho, se me perguntarem qual a razão, desde já emito uma declaração de inocência, não sei como aconteceu…
Voltando ao disco, Revenge Songs é pop-melaço, daquela que gruda, daquele tipo peganhoso, só que em vez de nascer numa garagem num qualquer subúrbio em terras de sua majestade, cresce num fumarento e vazio salão de baile de um saloon perdido nas terras do Tio Sam. Tudo isto é facilmente explicado, Jacob Golden é um californiano com residência fixa em Londres.
Revenge Sons é o segundo trabalho de Jacob, surge após Hallejulah World de 2002 (que também recomendo), e penso que é impossível passar despercebido durante este ano, se bem que volta e meia acontecem coisas estranhas no mundo da música. Revenge Songs é um disco de coração na mão, nota-se perfeitamente que Jacob abriu o seu ser mais íntimo e o partilhou com todo o mundo. No mundo de Jacob vivem imensos seres, desde Jeff Buckley (de quem se assume fã e de quem já fez uma versão), a Elliott Smith ou a dupla Simon & Garfunkel, ou diga-se de uma forma prática, vive no planeta pop.
O romatismo de Jacob corre-lhe nas veias, senão vejamos: “Out Come The Wolves” sabe a desespero, a uma enorme e longa procura; “On A Saturday” (tema da O.S.T. da série O.C.) é a busca de alguém que entretanto já partiu; “I’m Your Man” é o gritar bem alto, de que não é preciso procurar mais; “Shoulders” é o apoio, o suporte, um porto seguro…
É muito provável Jacob Golden seja ignorado em 2007, não sei se irá ter nova oportunidade num futuro próximo, a única coisa que afirmo é que Revenge Songs é um dos melhores discos de voz/guitarra deste ano. Um nome a ter em consideração para o Festival dos Sentados, em Santa Maria da Feira.

Momento Mágico: Shoulders


Jacob GoldenRevenge Songs (2007) – Sawtooth Recordings

2007/08/03

Rachel Yamagata

Antes tarde, que nunca...

A proliferação de artistas musicais e o consequente acréscimo na edição de discos leva a que muitos só nos cheguem à mão bastante tempo após o seu lançamento. Esta pequena nota introdutória serve para explicar porque razão escrevo sobre o disco de estreia de Rachel Yamagata, Happenstance, três anos após a sua edição.
Happenstance, que sucedeu a um EP homónimo editado em 2003, é uma obra que não deixa ninguém indiferente, o talento de Rachel Yamagata como singer/songwriter é admirável, a forma como adapta o seu registo vocal, de acordo com o sentimento subjacente à canção, é tocante, a sensibilidade revelada na forma lúcida como aborda temas complexos é irrefutável e tem como consequência um disco que se entranha à primeira audição.
Se o amor e suas implicações é o tema recorrente deste disco, a contradição entre a convicção de que o amor é muitas vezes uma circunstância fruto do acaso e a crença de que tudo acontece por uma razão é a sua alma, o fio condutor, enquanto que a composição, as letras, a voz e a sua sensualidade que dela extravasa, são o corpo, o resultado é uma descrição pungente do resultado desse conflito.
São exemplo disso temas como "Be Your Love", "Worn Me Down", "Letter Read", "Collide", "Under My Skin", "1963", "Meet Me By The Water", "I’ll Find A Way" e, principalmente, "Paper Doll", nas quais a fusão de elementos clássicos e inovadores, dá lugar a canções verdadeiramente intemporais.
Sem dúvida uma estreia auspiciosa de Rachel Yamagata que cria muita expectativa em relação ao seu sucessor, actualmente em preparação, aguardando-se que o mesmo venha subir a fasquia e confirme a relevância musical da artista.

Momento Mágico: Paper Doll


Rachel Yamagata - "Happensatance" (2004) - RCA Victor

2007/07/30

Modest Mouse

Pop Modesta?

Está de volta ao mundo da música, a banda dos títulos longos. E primeira sensação que temos, é um dejá-vu imediato e instantâneo, aquela percepção estranha de já ter ouvido vezes sem conta estes acordes, apesar de termos a certeza absoluta que só agora estamos perante o primeiro contacto com We Were Dead Before The Ship Even Sank.
Agora que decorrem cerca de 3 anos, da sua obra-prima Good News for People Who Love Bad News, surge uma obra a transbordar de pop/rock, todo ele perfeito e onde a principal arma de guerra é a voz de Isaac Brock. É este o cartão-de-visita dos Modest Mouse, voz anazalada e quase sempre em revolta, em constante sofrimento, todo resto são lugares comuns pop. A criação de tudo isto surge com uma perfeição cósmica, com ondas pré-definidas, onde tudo parece ter sido bem pensado e previsto ao milímetro, é só carregar em botões e aguardar o rodar da fita magnética.
O moderno pop/rock é assim, feito de lugares comuns, recorrendo a normas e efeitos já há muito testados e comprovados, o que faz toda a diferença é o toque especial de cada banda, e os Modest Mouse tem essa capacidade, esse dom. Aliando à sua enorme capacidade de criação de canções, cheias de humor e sarcasmo, Isaac Brock e os restantes Modest Mouse, convidaram dois artistas de peso Johnny Marr (ex-Smiths) e James Mercer (The Shins), o primeiro emprestando os seus dotes como guitarrista e o segundo fazendo backing-vocals em temas com “We've Got Everything” ou “Florida”.
Para os conhecedores de toda a obra dos Modest Mouse, este álbum distingue-se dos outros em virtude de existir muito mais harmonia e mais melodia do que é habitual, não estamos perante um disco perfeito, mas é um disco muito bem disposto e com uma capacidade de transmitir essa sensação ao seu ouvinte… deixando um perfume de bem-estar no ar, perfeito para o por de sol na praia.

Momento Mágico
: Florida


Modest Mouse – “We Were Dead Before The Ship Even Sank” (2007) - Sony

2007/07/25

Bodi Bill

Extraordinariamente Meigo

Desde os seus primórdios, algures nos anos 70 com o disco/funk e com parcos meios electrónicos disponíveis, que a electrónica assumiu a sua identidade, trazendo até ás pistas de dança novos sons e subgéneros sem fim. Trinta e tal anos volvidos, nem toda a electrónica é hoje para dançar, resultando, da fusão estilística com outros géneros, musica para ambientes mais ascéticos. No More Wars, álbum de estreia dos alemães Bodi Bill, vive na electrónica mas viaja por todos os quadrantes musicais. Recorrendo a instrumentos clássicos – piano, violino e guitarra – combinados com genuína composição computorizada, são impressas, em texturas digitais, melodias naturalmente orgânicas.
As secções repetitivas e uma e concisa estrutura, focam os elementos acústicos, conferindo assim um certo cariz pop à música. A forte presença do songwriter, quer na letra quer na parte vocal, traz para alguns dos temas mais introspectivos - "Traffic Jam" e "Very Small"– um condimento folk. O segundo e terceiro terços do disco são entusiasticamente dançáveis, com temas techno, trance e electro – "Kilogramm", "Be Home Before" "Dinner", "Naegel".
Não é um disco puro-sangue, muito pelo contrário, tanto nos atira para ritmos dinâmicos como nos mima com apaixonadas baladas – "Willem". Por isto, No More Wars é música digital extraordinariamente meiga.

Momento Mágico: Kilogramm


Bodi Bill
- No More Wars (2007) - Sinnbus

2007/07/21

Dragonette

Estreia Auspiciosa

O disco de estreia desta banda canadiana, sedeada em Londres, que se assume como “uma banda rock-electrónica que escreve canções pop…”, confirma as boas indicações deixadas pelo EP homónimo, lançado em 2005, e constitui uma lufada de ar fresco no panorama actual da música pop.
Os Dragonette praticam uma electro-pop moderna, que apela às pistas de dança, resultado da fusão da pop e synth-rock, característica de bandas dos anos 80, com as mais recentes tendências, que reveste uma elevada dose de provocação e possuem uma vocalista/frontwoman Martina Sorbara que, para além dos seus inegáveis dotes vocais que lhe valeram um convite para colaborar no disco novo dos Basement Jaxx, é carismática, provocante em palco e, porque não dizê-lo, muito dotada fisicamente.
Galore agrega temas presentes no seu EP de estreia, como "I Get Around", "Competition" e "Jesus Doesn’t Love Me", a temas novos, nomeadamente, "Another Day", "Get Lucky, Black Limousine, Gold Rush" e "Marvellous" e ainda outros resultantes da reformulação de algumas das suas primeiras composições, como a faixa "True Believer".
Temas recorrentes nas suas canções são as mensagens de grande carga sexual, celebrando um mundo de promiscuidade sem remorsos e de predadores(as) sexuais, designadamente em faixas como "I Get Around, True Believer" e "Competition" e o comportamento em palco da vocalista, autora de frases emblemáticas como “Who do I have to fuck to get you to dance?”, granjeou-lhes algum destaque entre a comunidade musical, bem como ferozes ataques por parte de algumas comunidades religiosas mais conservadoras.
Os Dragonette encontram-se na antecâmara do sucesso, escrevem belas canções pop, são provocantes e polémicos q.b., existe um grande hype à sua volta, têm por isso tudo para dar o salto definitivo do universo “indie” para o mainstream. O tempo dirá se vão ser bem sucedidos.

Momento Mágico: I Get Around


Dragonette - Galore (2007) - Universal

2007/07/18

Bill Callahan

Com Alma

A voz é um aroma, não interessa agora (ou noutra altura) auferir a sua qualidade, se é cristalina, angulada, negra, rouca ou de qualquer outra cor, forma ou tamanho, o que importa é afirma-lo como ponto de contacto, como lembrete instantâneo e poder dizer: “olha isto é….”. E isto é Bill Callahan.
Este anterior momento de prosa, nasce após a audição do último trabalho do Sr. Smog. Woke On A Whaleheart, um disco repleto de alma, onde a luz se cruza com a sombra, uma espécie de eclipse total do sol, mas com uma duração superior ao normal. Bill Callahan é um songwriter por excelência, onde temas com o sexo, a paixão, o amor, a natureza circundante, são explorados de uma forma intensa e com uma beleza fora do comum, mas sem nunca sair do imensamente banal. Musicalmente a forma como disco está construído, abandonando quase por completo a linhagem eléctrica e criando um corpo suportado em sons de órgão e bateria despreocupada, dando-lhe uma visão gospel-country.
Woke On A Whaleheart não é mais do que um paraíso construído à imagem de Cash “The Wheel” ou de Cohen “Diamond Dancer”, ”A Man Needs A Woman Or A Man To Be A Man” é pura e directa, uma canção densa e ampla.
O primeiro trabalho em nome individual de Bill Callahan, é um disco atestado de emoções, sentimentos e energéticas ondas de paixão, deixando os simpatizantes de Smog baralhados, pois o resultado final é soberbo, sendo que Woke On A Whaleheart é um dos grandes trabalhos de 2007.
Bill Callahan é um senhor a seguir com imensa atenção, prevejo uma continuidade da obra, mas com cada vez mais sensibilidade e maior simplicidade.

Momento Mágico
: Diamond Dancer


Bill Callahan
- Woke On A Whaleheart (2007) – Drag City


2007/07/15

Blonde Redhead

Flutuar Em Mistério

Por vezes, inexplicavelmente, há discos que se apoderam de nós, sem que possamos fazer algo contra esse facto. Por mais que os ouçamos, tarda a hora em que é posto de lado e tempo de partir para outro. 23 dos Blonde Redhead é um desses casos. Por isso a melhor forma de me libertar de 23 é, como diz um amigo meu, escrever. Não se trata apenas de mais um álbum na linha do indie rock ou pop, digamos que aqui há muito de experimental, de criação temerária, desafiando deste modo as classificações convencionais.
Desde o primeiro momento, com o tema homónimo, o disco indicia uma elevada densidade marcada sobretudo pela liderança da guitarra e por uma firme bateria. Mas é a voz de Kazu Makino, que nos alicia a entrar num ambiente volátil, intenso, eléctrico, mas indulgente. Um teatro onírico de cenas emotivas. Depois é somente flutuar pela estratosfera polifónica, composta por delicados ritmos electrónicos, melodias doces e vozes apaixonadas.
Misterioso e de uma estranha beleza, 23 revela-se mais como uma forma audaciosa de arte/pop, em que poucas bandas actualmente em cena ousariam arriscar. Tal ousadia é a marca que distingue uma banda com 14 anos de carreira e sete discos lançados. E este é sem dúvida um testamento ao talento e à reinvenção.

Momento Mágico: Dr. Strangluv


Blonde Redhead - 23 (2007) - 4AD

2007/07/04

Meio Ano - Meia Lista

ATENÇÃO: O exercício que se segue, é de grande dificuldade e não deve ser tentado em casa...

Fazer uma lista de qualquer coisa relacionado com musica, é sempre uma coisa que vejo como uma brincadeira (até porque amanhã a lista seria diferente) e foi com esse espírito que pedi aos meus colaboradores uma pequena listagem dos melhores discos de 2007 à presente data. Mais uma vez a minha única intenção, é divulgar...
Cada um de nós, seleccionou 5 temas, ao qual corresponde uma pequena compilação - VER AQUI

António Antunes

Electrelane - "No Shouts, No Calls"
Quando as gajas se transformam em mulheres.


Of Montreal - "Hissing Fauna, Are You The Destroyer"
Pop lunatico, recheado de trejeitos e lantejoulas.


Panda Bear
- "Person Pitch"
Quando meio, consegue ser tão bom quanto o todo.


Odawas
- "Raven And The White Night"
A escuridão rock repleta de luminosidade sonora.


No Age - "Weirdo Rippers"
O encaixe perfeito entre velocidade sónica e calmaria desafinada.


Bruno Coelho

Grails - "Burning Off Impurities"
Um Acid Folk que nos leva numa viagem ao passado. Uma viagem que por vezes é bastante atribulada.


LCD Soundsystem
- "Sound Of Silver"
Indo por caminhos mais rock conseguiram continuar a inovar. Passaram com distinção no teste do 2º álbum.


Electrelane
- "No Shouts, No Calls"
O som é o mesmo, a garra é a mesma...
É difícil destacar o melhor álbum delas, mas este é um forte candidato.


Parts & Labor
- "Mapmaker"
O som está mais limpo do que nos têm habituado, mas a energia continua lá.
Mais um que passa com distinção no teste do 2º álbum.


Modest Mouse
- "We Were Dead Before The Ship Even Sank"
Good news for people who love good music.
A energia pop em todo o seu esplendor.


Carlos S. Silva

Aqualung – "Memory Man"
Matt Hales incorporou novos elementos na concepção deste disco e atinge um patamar muito elevado. Sentimentos à flor da pele num artista promissor em constante crescimento. Correndo por fora, este continua a ser um dos meus discos preferidos de 2007.



Arcade Fire
– "Neon Bible"
O disco de estreia dos Arcade Fire foi um marco discográfico do ano de 2004. Honrar esse legado não era uma tarefa fácil, mas os Arcade Fire conseguiram-no e superam o obstáculo com um disco que roça a genialidade e lança novos horizontes sobre o futuro da banda.


Au Revoir Simone –
"The Bird Of Music"
Dizem que a verdadeira beleza reside na simplicidade das coisas, o disco de estreia deste trio nova-iorquino ilustra na perfeição essa máxima. È impossível ficar indiferente à delicadeza, à harmonia e à musicalidade que irradiam deste disco.



The Shins –
"Wincing The Night Away"
A banda de Albuquerque continua a subir a fasquia a cada edição discográfica. Este disco é um compêndio de grandes canções, um verdadeiro manual do rock. Muito embora o ano ainda vá a meio, este disco vai constar, sem qualquer dúvida, na lista dos melhores do ano. Imprescindível.



Wray Gunn –
"Shangri-La"
A banda de Coimbra, com um disco repleto de canções que se entranham à primeira audição, ingressa com todo o mérito nesta lista. Rock old school em pleno processo de maturação e que poderá levar os Wray Gunn a voos mais altos no panorama musical internacional.


Edgar Domingues

Blackfield – "Blackfield II"
Sonoridade épica em moldura pop-rock. Soberbo.


Blonde Redhead
– "23"
23 é o atingir da idade maior, ousar o eclético emocional mas com maturidade.


Bodi Bill
– "No More Wars"
Acabaram-se os padrões, habita na electrónica mas viaja por todos os quadrantes musicais.



Voxtrot
– "Voxtrot"
Pop menos mainstream para adolescentes tardios. Quero voltar a ser um puto.


Electrelane
– "No Shouts No Calls"
Um disco de se lhe tirar o chapéu.